Seus dados estão à venda
“Compartilhar rotinas, localização e intimidade nas redes sociais amplia riscos digitais, financeiros e emocionais”
Comemora-se em fevereiro o Dia Internacional da Internet Segura. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) completa sete anos desde sua promulgação e tornou-se um escudo importante para a economia digital. No entanto, apesar de essencial, ainda se mostra insuficiente na prática.
De repente, o telefone toca. Do outro lado, alguém que você não imagina quem seja — às vezes nem humano —, com uma voz simpática, chama você pelo nome e já possui dados como CPF, endereço ou banco. Pode tentar encantar com uma oferta vantajosa ou assustar com a falsa informação de uma compra de alto valor no cartão de crédito.
Também somos bombardeados por SMS, e-mails e aplicativos de mensagens. Para que isso aconteça, dados precisaram ser obtidos de alguma forma, seja através de vazamentos, engenharia social ou aquisição por meios ilícitos, como a dark web. Assim, ao atender uma simples ligação ou clicar em um link, qualquer pessoa pode se tornar vítima de estelionato digital.
Hoje, a coleta de dados faz parte da rotina: academias capturam biometria, ruas registram rostos, e estabelecimentos comerciais acumulam informações sensíveis de clientes. Esses dados são armazenados em nuvens, levantando questionamentos inevitáveis: até onde vai a segurança contra vazamentos? Todos utilizam protocolos adequados para a gestão de dados biométricos?
Se antes o perigo parecia restrito às ruas, agora também está na internet. Uma criança com um celular conectado nas mãos está exposta a riscos semelhantes aos do espaço público físico, tornando essencial a atenção de pais e responsáveis sobre o uso de aplicativos e redes. Segundo dados da Polícia Federal, em 2024, foram registradas 1.043 ocorrências relacionadas ao abuso sexual infantil on-line. Esses crimes envolvem, de forma recorrente, o uso indevido de dados pessoais para extorsão, ameaça e outros delitos virtuais.
Nas redes sociais, rotinas são convertidas em metadados e a intimidade vira moeda de troca por engajamento, porém, essa transparência oculta vulnerabilidades que podem levar o titular a perder o controle dos seus dados. Um dos grandes marcos de 2025 foi a consolidação da resolução CD/ANPD número 19, que regulamenta transferências internacionais de dados.
Enquanto empresas aperfeiçoam técnicas de neuromarketing associadas à extração de dados, muitas pessoas contribuem com esse cenário por meio da superexposição de informações on-line (oversharing). Compartilhar rotinas, localização e intimidade nas redes sociais amplia riscos digitais, financeiros e emocionais. Vale lembrar que dados tornados públicos voluntariamente não são protegidos pela LGPD.
No ambiente on-line, robôs realizam a extração automática de informações em escala global (web scraping). É preciso evitar a desumanização — a transformação de pessoas em meros dados de consumo. Cuide dos seus dados como cuidaria das suas joias.
*Edmilton Romão da Silva é mestre em Computação, especialista em Big Data Analytics e coordenador dos cursos de TI na Estácio.