A enchente que transborda no gabinete

“A chuva é um fenômeno meteorológico, mas o desastre é uma construção política”


Por Eduardo Colucci - designer gráfico

11/03/2026 às 08h00

Sempre que o céu escurece e o volume de água ultrapassa o que os bueiros entupidos suportam, o roteiro se repete com uma previsibilidade cruel. O estrondo do barranco que cede, o desespero de quem vê a vida ser levada por uma correnteza de lama e, logo depois, o ensaiado discurso oficial que joga a responsabilidade no colo de “São Pedro”. É a retórica da fatalidade, uma estratégia covarde para transformar negligência administrativa em fúria divina. A verdade, nua e crua como o entulho que sobra nas calçadas, é que a chuva é um fenômeno meteorológico, mas o desastre é uma construção política.

Não se pode aceitar que, em pleno século XXI, com previsões de satélite milimétricas e décadas de histórico de inundação, o Poder Público ainda se comporte como se fosse pego de surpresa pelo verão. O que vemos boiando nas ruas não é apenas lixo ou móveis destruídos; é o resultado direto de orçamentos de saneamento básico minguados, de planos diretores ignorados e de uma política habitacional que empurra o trabalhador para a encosta do morro ou para a margem do rio. Quando um prefeito ou governador aparece de botas de borracha no meio do lamaçal para prometer cestas básicas, ele não está prestando socorro, está encenando o epílogo de uma tragédia que ele mesmo ajudou a escrever com sua omissão.

A destruição de casas não é obra exclusiva de um volume atípico de milímetros de água. É obra da caneta que não assina a obra de drenagem, do vereador que faz vista grossa para o loteamento irregular em troca de apoio e do gestor que prefere investir em maquiagem urbana do que em galerias pluviais que ficam enterradas e não rendem votos. O asfalto que derrete e a encosta que desaba são as assinaturas de uma gestão que trata a prevenção como gasto e a emergência como oportunidade de marketing. Enquanto a natureza segue seu ciclo, a política segue o dela: o de esperar a próxima tempestade para renovar as promessas de que, desta vez, será diferente. A lama seca, mas o descaso continua encrustado nas paredes das sedes de governo, muito mais difícil de lavar do que a sujeira deixada pela enchente.

 

 

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