O colapso da reflexão em tempos de excesso
“Em vez da reflexão, privilegia-se a reação; em lugar da escuta, a afirmação imediata”
Com o avanço tecnológico, trocamos a reflexão pela opinião. Vivemos um tempo marcado pela velocidade das certezas. A opinião circula com facilidade, ganha palco e se impõe antes mesmo de ser examinada, enquanto o pensamento crítico, que exige tempo, silêncio e disposição para a dúvida, vai sendo empurrado para as margens. Em vez da reflexão, privilegia-se a reação; em lugar da escuta, a afirmação imediata. Nesse ambiente, a pressa em dizer substitui o cuidado em compreender, criando a ilusão de participação sem, necessariamente, produzir sentido.
Nesse cenário, vínculos se perdem. O diálogo, que antes aproximava diferenças, cede espaço ao embate. Pessoas deixam de se reconhecer como interlocutoras e passam a se enxergar como adversárias. Quando a opinião vale mais do que a relação, laços se rompem com facilidade: amizades, comunidades e até famílias se fragilizam. A incapacidade de sustentar conversas complexas empobrece o convívio e transforma o outro em caricatura, nunca em sujeito.
Há também histórias roubadas. Narrativas são simplificadas, descontextualizadas ou apropriadas por discursos que não buscam compreender, mas vencer. A pressa em julgar apaga trajetórias, silencia experiências e substitui a escuta por slogans. O excesso de opinião cria uma falsa sensação de conhecimento, enquanto histórias reais — cheias de nuances, contradições e aprendizados — são descartadas por não caberem em frases curtas ou posições rígidas.
Somam-se a isso momentos de pouco acesso à inteligência, não no sentido da capacidade individual, mas da inteligência coletiva e ética. Pensar bem exige acesso à informação de qualidade, educação crítica e ambientes que valorizem a reflexão. Quando esses acessos são limitados, a opinião ocupa o vazio deixado pelo pensamento. Repetem-se ideias sem digestão, compartilham-se certezas sem fundamento e confunde-se volume com verdade.
O excesso de opinião não é sinal de vitalidade democrática por si só; pode ser, ao contrário, sintoma de uma crise de pensamento. Recuperar o valor de pensar é recuperar o tempo da escuta, do silêncio produtivo e da complexidade. É reconstruir vínculos, devolver histórias a quem as viveu e ampliar o acesso à inteligência como prática cotidiana. Em um mundo que fala demais, talvez o gesto mais urgente seja aprender a pensar melhor — e, às vezes, falar menos.
*Robson Ribeiro é professor, teólogo, filósofo e historiador