‘Todos afogados no mesmo local’: após fortes chuvas, Matias Barbosa ainda tem quase mil desalojados e desabrigados

Comunidade se une para reconstruir a cidade, apesar das perdas materiais


Por Bernardo Marchiori

28/02/2026 às 08h16

'Todos afogados no mesmo local': após fortes chuvas, Matias Barbosa ainda tem quase mil desalojados e desabrigados
Foto: Leonardo Costa

A população de Matias Barbosa segue se empenhando para restaurar os danos causados pelas fortes chuvas na cidade da Zona da Mata mineira desde a noite de segunda-feira (23). O município não registrou óbitos, como nos casos de Juiz de Fora e Ubá, mas ainda há pessoas em estado de vulnerabilidade: de acordo com atualização da Prefeitura na tarde desta sexta (27), são mais de 900 desalojados e 57 desabrigados.

Quem entra na cidade pela BR-040 já consegue reparar os primeiros indícios do nível que a água atingiu pelas marcas nos muros. Ao longo do deslocamento até o Centro, a maior parte dos estabelecimentos ainda segue fechada, com os trabalhadores atuando na limpeza dos estragos que a chuva deixou. É o caso de Norival Zampier, nascido e criado em Matias Barbosa, desde 1967.

O proprietário de uma padaria na Avenida Cardoso Saraiva explica que a cidade, por estar abaixo de Juiz de Fora em relação ao nível do mar, passa por dificuldades em dias de precipitação mais intensa. “Em 2004, aconteceu uma situação maior – mas bem mais amena que a desta semana. A de 2026 já está na história. Estão todos afogados no mesmo local. Presenciei muita gente desabrigada e perda material – mas não de vidas. A avenida principal ficou, praticamente, toda inundada.”

Comerciante na cidade desde 1985, Norival mostrou à Tribuna o quanto as chuvas – mais especificamente as de segunda e quinta-feira (26) -, afetaram o seu negócio. Junto a familiares, amigos e funcionários, ele tirava a água que entrou no estabelecimento e na casa anexa, ainda contabilizando o prejuízo gerado. “Perda total, assim como, provavelmente, todos do ramo nesta avenida. A água atingiu 1,8 metro (de altura) na padaria no ápice da chuva. Fica a parte física: construção, equipamentos e poucos móveis e utensílios”, lamenta.

‘Cidade completamente tomada’

Norival recorda que o cenário se iniciou por volta de meia-noite.

“A chuva forte em Juiz de Fora começou na noite de segunda. Um volume inesperado. Temos três afluentes em encostas na cidade, que desaguam no Rio Paraibuna. Foi questão de 30 minutos para a água atingir um metro. As pessoas saíram de casa com documento e roupa do corpo. Por volta de 1h30, já não havia condições de transitar pela rua; às 5h, chegamos ao pico: a cidade estava completamente tomada. Apenas às 17h30, conseguimos retornar. Na quinta, todos precisaram evacuar de novo. Começamos a limpar as coisas na quarta (25), mas tivemos que interromper.”

Outros moradores relataram momentos de tensão. Marcelo Paiva, pastor da Igreja Adventista de Matias Barbosa, limpava o local junto a funcionárias. “Pelos relatos dos irmãos, que moram há 60 anos na cidade, nunca foi visto nada nesta proporção. Por morar do outro lado, não fui atingido, mas eles relataram que ficaram muito assustados. Foi repentino. É um momento devastador. Vemos móveis, eletrodomésticos e itens menores nas ruas, carros ficaram submersos. A região foi muito afetada”, diz.

Nossa Senhora da Penha: o bairro mais afetado

Desde antes de a equipe de reportagem chegar a Matias Barbosa, a população local já alertava: o Nossa Senhora da Penha foi o bairro mais afetado da cidade. “É a região que mais sofreu, por receber ‘de cara’ o Rio Paraibuna”, destacou Norival Zampier ao fim da entrevista. Da avenida principal do Centro até o bairro, o que mais chama atenção é a quantidade de moradores ainda realizando limpeza em suas próprias residências e estabelecimentos.

O trânsito também funcionava bem lentamente, com a presença de militares da Polícia e do Exército sinalizando os motoristas e pedestres. Além disso, ao chegar no local, a Tribuna foi informada de que muito já havia sido retirado, tanto em relação à lama quanto pelos destroços. Mesmo assim, o cenário era trágico. Tratores e caminhões operavam nas ações de rescaldo – sempre com apoio da população.

Alexandra de Fátima da Silva, moradora do Nossa Senhora da Penha, conta que a chuva foi um momento caótico. “A água começou a subir rapidamente. Por Juiz de Fora ser maior, nós ficamos praticamente abandonados. Não tínhamos barcos e botes. Foi muito sofrido – e está sendo. Nosso comércio está totalmente destruído. Vamos precisar de muita ajuda, e o sentimento é de que estamos largados.”

Em uma das casas apontadas por Alexandra, os moradores perderam quase tudo. “Só sobrou o lustre, colado no teto. O resto acabou. A água chegou ao segundo andar de algumas casas.” Em relação às necessidades, ela cita que a ajuda recebida não é suficiente. “Contamos com o povo e a prefeitura. Não tem pano para limparmos, por exemplo.”

‘Quase sofreu a maior perda de todas’

Ao fim da entrevista, chega Diego da Silva Dias. Alexandra já antecipa: “esse quase sofreu a maior perda de todas”.

“Minha esposa e minha filha estavam em casa. Como normalmente a água não entra nas casas, ninguém estava esperando. Não fiquei sabendo de nenhum alerta – eu estava em Resende (RJ). Na madrugada, o nível da enchente subiu muito rápido. Começou a entrar na nossa residência enquanto eu falava com minha esposa no telefone. Ela subiu em cima da pia da cozinha e ficou esperando resgate, mas o bote não conseguia chegar por conta da correnteza.”

Neste momento, Diego pediu à esposa para subir até a parte mais alta da casa, por questões de segurança. O barco com motor que o morador tentava conseguir também teve problemas e não conseguiu buscar sua família. Quando a água começou a baixar, com a ajuda do cunhado e de outras pessoas, um barco conseguiu resgatá-las. “Minha filha de 4 anos precisou ficar nas costas da minha esposa para não se afogar”, relata. Pelas interdições no acesso à cidade pelas estradas, ele só conseguiu chegar na quarta pela manhã. “Já tínhamos perdido tudo, então só limpamos a casa.”

Após o episódio, a família se encontra bem. A esposa e a filha foram para a casa da sogra, enquanto a mãe se abrigou na casa da tia de Diego. Ambos os locais são mais altos e no mesmo bairro – o mais afetado. “Matias, infelizmente, não tem central de Corpo de Bombeiros. Só depois, o Exército chegou para ajudar. A partir disso, conseguimos apoio para resgate de moradores que não conseguiam sair de suas casas”, esclarece.

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Foto: Leonardo Costa

Comunidade se une para reconstruir Matias Barbosa

No cenário de incontáveis perdas, o destaque é a união das pessoas. Na proatividade da própria população, se tem a ajuda aos mais afetados.

“O pessoal é muito solidário. Apesar de precisarmos de apoio do Poder Público para empreender novamente, nos reconstruímos ‘sozinhos’. A resposta da comunidade é imediata. A grande vantagem do povo brasileiro é que somos muito solidários. Independentemente de como somos castigados, todos nos unimos nestes momentos de dificuldade. E o Governo do município caminha junto”, exalta Norival Zampier com um sorriso no rosto.

Na igreja, Marcelo Paiva conta que perdeu bancos, caixas de som, piano, computadores, televisão e outros bens materiais. “Agora, o pensamento é de reconstrução em todo o bairro. Neste momento, vemos a solidariedade e a fraternidade da população. As pessoas passam oferecendo água e comida. O companheirismo neste momento é muito bonito de se ver.”

Diego da Silva Dias, por sua vez, acrescenta que pessoas de outras cidades se mobilizam para auxiliar os moradores afetados. Juiz de Fora, Simão Pereira, Santos Dumont, Resende e Rio de Janeiro estão entre os locais que, pelo seu conhecimento, enviaram ajuda por meio de Pix ou outras doações. Mas, segundo ele, a maior ajuda é da população local.

Inclusive, enquanto percorria o município, a Tribuna conversou com moradores de Simão Pereira, que relataram o descontentamento por precisar pagar R$ 21 de pedágio na ida e o mesmo valor na volta para conseguir apoiar o povo de Matias Barbosa. Questionada pela reportagem sobre possíveis ações no momento de apoio às cidades afetadas pela chuva, além de contar com espaço aberto para manifestação, a Elovias (concessionária que administra o trecho da BR-040 entre Juiz de Fora e o Rio de Janeiro) ainda não se posicionou.

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Foto: Leonardo Costa

Prefeitura disponibiliza pontos de apoio

Com o intuito de apoiar os afetados pelas chuvas, a Prefeitura de Matias Barbosa mantém pontos de apoio para arrecadação de doações e conta com o trabalho de voluntários. Confira os locais:

  • Escola Municipal Lucy de Castro – Rua Joaquim Murtinho 60, Centro;
  • Escola Municipal Marieta Miranda Couto – Rua Osvaldo Cruz 295, Nossa Senhora da Penha;
  • Secretaria de Promoção Social – Rua Doutor José Mariano 72, Centro;
  • Escola Estadual Cônego Joaquim Monteiro – Praça da Bandeira 26, Centro;
  • Capela Nossa Senhora da Penha – Rua Professor Souza Freire 249, Nossa Senhora da Penha.

No fim da viagem, a Tribuna foi até um dos principais pontos de apoio da cidade no período pós-chuvas: a Escola Municipal Lucy de Castro. No local, os voluntários receberam a equipe de reportagem da mesma forma que recebem os desalojados que foram buscar apoio: com carinho e, a todo momento, checando se “os jornalistas gostariam de água ou comida para trabalhar”.

A chefe da divisão de Turismo da Prefeitura, Nandressa Sarmenghi Lisboa, cita a resiliência como a característica mais necessária à população neste momento. “Tivemos que arregaçar as mangas e ajudar o povo. É uma experiência muito triste, mas que, ao mesmo tempo, mostra que as pessoas estão aqui, umas pelas outras, colaborando. Ver a comunidade ajudando nos dá força para seguir auxiliando.”

“Os itens mais necessários na cidade no momento são produtos infantis, como leite e fralda. Sabão em pó, também. Outro produto que percebemos há pouco que precisamos é açúcar, que temos pouco.” Na escola, ficam algumas famílias desalojadas. O local também serve como apoio, com água e alimentos.

Tópicos: chuva / matias barbosa

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