
Suspeitas de irregularidades na construção do Centro Administrativo de Ubá, em 2022, e no uso de recursos públicos durante a calamidade provocada pelas enchentes de fevereiro de 2026 estão entre os alvos da Operação Epicentro, realizada pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e pela Polícia Civil nesta semana. A investigação apura possíveis crimes cometidos ao longo dos últimos quatro anos, período que abrange ao menos duas gestões da prefeitura, e resultou no cumprimento de 101 mandados judiciais e na determinação de bloqueio de aproximadamente R$ 250 milhões em bens dos investigados.
A ação, articulada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Estado de Minas Gerais e pela Polícia Civil, cumpriu 17 mandados de busca e apreensão e sete mandados de indisponibilidade de bens dos investigados ainda na segunda-feira (19).
Entre os alvos estiveram a Prefeitura de Ubá e as residências do prefeito, José Damato (PSD), e do vice-prefeito Cabo Rominho (PRTB). Ordens judiciais também chegaram a ser cumpridas em outros municípios próximos, dentre eles Juiz de Fora, Leopoldina e Visconde do Rio Branco.
Na quarta-feira (21), Ubá voltou a ser alvo de mandados, junto com Divinésia, Belo Horizonte e Congonhas. Nas quatro cidades, foram cumpridos 28 mandados de busca e 17 de indisponibilidade de bens.
A operação chegou ao terceiro e último dia nesta quinta-feira (22), quando quatro mandados de busca e quatro mandados de constrição de bens, que determinam bloqueio ou restrição de uso de bens dos investigados, foram cumpridos somente em Ubá, município a cerca de 110 quilômetros de Juiz de Fora.
Ao todo, foram cumpridos 101 mandados judiciais ao longo dos três dias. As ordens foram expedidas pelo Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, em Belo Horizonte, em razão de um dos agentes ocupar foro por prerrogativa de função. Também foi determinado o bloqueio de aproximadamente R$ 250 milhões pertencentes aos investigados.
Os nomes dos alvos não foram divulgados. Segundo o MPMG, as investigações envolvem ex-autoridades do Poder Executivo, secretários municipais e ex-secretários, assessores e ex-assessores, outros agentes públicos, empresários e pessoas jurídicas, entre outros.
Obra de Centro Administrativo está na origem de investigação sobre suposto esquema criminoso em Ubá
O suposto esquema que coloca Ubá no centro das investigações por organização criminosa, peculato, fraude em licitações e contratações diretas, corrupção e lavagem de dinheiro foi detalhado pelo promotor de Justiça Breno Costa da Silva Coelho, coordenador regional do Gaeco da Zona da Mata.
De acordo com o promotor, as investigações tiveram início a partir da obra de construção de um Centro Administrativo em Ubá, em 2022, ainda durante a gestão municipal anterior. Além dos indícios de direcionamento da licitação, a análise técnica do Ministério Público apontou que imóveis públicos negociados com a empresa contratada para a execução da obra foram avaliados abaixo do valor de mercado. A operação teria causado prejuízo milionário aos cofres municipais. A Justiça determinou, nesta semana, a indisponibilidade dos 24 imóveis permutados pelo Município para a construção do Centro Administrativo.
As suspeitas, no entanto, não se limitam à administração anterior. Segundo o MPMG, as investigações também apuram possíveis desvios de recursos públicos relacionados à tragédia socioambiental de fevereiro deste ano, que levou Ubá a decretar estado de calamidade pública. Outra frente da apuração envolve suspeitas de graves irregularidades ambientais, incluindo possíveis violações à Lei de Parcelamento do Solo Urbano e à legislação ambiental.
Até o momento, foram reunidas provas documentais, testemunhais e periciais que, segundo o órgão, sustentam as suspeitas de fraudes em licitações e contratações realizadas durante a atual gestão municipal, que assumiu em 2024. As apurações se concentram especialmente em contratos firmados com empresas para a prestação de serviços de limpeza pública e manejo de resíduos sólidos.
O que diz a Prefeitura
A Prefeitura de Ubá foi contactada para comentar os questionamentos sobre os contratos da atual gestão investigados pelo Ministério Público, as medidas adotadas após a Operação Epicentro e os gastos realizados durante a calamidade pública provocada pelas enchentes de fevereiro de 2026.
Em nota, a Administração Municipal afirmou que tomou conhecimento do objeto das investigações relacionadas à Operação Epicentro após a divulgação oficial realizada pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), nesta quinta-feira, 22 de outubro.
“Diante das informações tornadas públicas, a Administração Municipal reafirma que está integralmente à disposição da Justiça, do Ministério Público e das demais autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos necessários e colaborar com a completa elucidação dos fatos investigados. A Prefeitura segue acompanhando os desdobramentos do caso, que permanece sob segredo de Justiça, respeitando o devido processo legal e o sigilo das informações. A Administração Municipal reitera seu compromisso com a legalidade, a transparência, a responsabilidade na gestão pública e a defesa dos interesses da população ubaense”, finaliza.
