Curso de medicina em Juiz de Fora recebe conceito 1 no Enamed e pode ficar sob supervisão do MEC

Um terço dos cursos de medicina do país teve desempenho baixo; faculdades privadas contestam resultados


Por Mariana Souza*, com informações do Estadão Conteúdo

20/01/2026 às 15h13- Atualizada 20/01/2026 às 15h20

Juiz de Fora teve três instituições avaliadas no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025. Os resultados foram divulgados na segunda-feira (19) pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Ministério da Saúde.

Na cidade, o curso de medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) foi o único a alcançar conceito 5, nota máxima da escala. A Suprema obteve conceito 4. Já o Centro Universitário Presidente Antônio Carlos (Unipac) ficou com conceito 1.

Criado em abril e aplicado em outubro, o Enamed amplia o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) para os cursos de medicina. O resultado é usado no cálculo do conceito Enade das instituições, que varia de 1 a 5.  As notas 1 e 2 são consideradas insuficientes pelo MEC. Além disso, a avaliação permite que o resultado seja aproveitado em processos seletivos de programas de residência médica. Os dados divulgados na segunda se referem aos 351 cursos de medicina de todo Brasil que participaram da edição de 2025.

O novo exame unifica a matriz de referência e os instrumentos de avaliação do Enade para medicina e da prova objetiva de acesso direto ao Exame Nacional de Residência (Enare). Segundo o MEC e o Ministério da Saúde, o Enamed tem relevância estratégica para avaliar a formação médica no país, com impactos no Sistema Único de Saúde (SUS) e no ingresso de novos profissionais no mercado de trabalho.

Na segunda-feira (19), o Ministério da Educação divulgou que cerca de um terço dos cursos de medicina do país teve desempenho baixo. O governo afirma que pode aplicar sanções, que vão de restrições em contratos do Fies à suspensão de novos vestibulares. Em meio a esse cenário, instituições privadas passaram a questionar a aplicação de punições já no primeiro ciclo da avaliação e apontam risco de danos reputacionais e materiais.

Ranking regional expõe contraste

Além das instituições avaliadas em Juiz de Fora, os resultados do Enamed/Enade também mostram o desempenho de cursos de medicina em outros municípios da região, com diferenças marcantes entre as notas mais altas e as mais baixas atribuídas pelo MEC.

No topo da avaliação, duas universidades federais se destacaram: a Universidade Federal de Viçosa (UFV), que alcançou conceito 5, e a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), também com nota máxima.

Na outra ponta, os menores conceitos aparecem em instituições privadas da Zona da Mata e do Campo das Vertentes. Receberam conceito 2 as faculdades Univértix, em Matipó; Fadip, em Ponte Nova; Centro Universitário Unifacig, em Manhuaçu; Unifaminas, em Muriaé; e a Faculdade de Medicina de Barbacena (Fame), em Barbacena.

Cursos com conceito 1 ou 2 integram um grupo de 93 instituições de educação superior que podem ser submetidas a processo de supervisão, com medidas cautelares escalonadas conforme o percentual de concluintes considerados proficientes. Quanto maior o risco ao interesse público e aos estudantes, mais severas podem ser as medidas adotadas.

Nota baixa pode gerar punições

O Conceito Enade é calculado com base no desempenho dos estudantes no exame e considera tanto a participação quanto o percentual de alunos com “resultado proficiente” – isto é, que demonstraram conhecimento suficiente na avaliação.

No balanço do Enamed, o percentual de proficiência por conceito foi:

  • Conceito 1: abaixo de 40%
  • Conceito 2: de 40% a 59,90%
  • Conceito 3: de 60% a 74,90%
  • Conceito 4: de 75% a 89,90%
  • Conceito 5: acima de 90%

Do total de instituições avaliadas, na faixa 1, oito cursos registraram menos de 30% de concluintes proficientes e terão suspensão de ingresso. Outros 13, com proficiência entre 30% e 40%, terão redução de 50% na oferta de vagas. Na faixa 2, 33 cursos com 40% a 50% de concluintes proficientes passam por redução de 25% das vagas.

A Tribuna entrou em contato com as instituições citadas, que tiveram notas 1 e 2 na avaliação, para solicitar posicionamento e verificar se o MEC já emitiu alguma sanção oficial, mas não obteve retorno até a publicação.

Faculdades privadas contestam resultados

Na noite de segunda-feira (19), universidades privadas enviaram um ofício ao Ministério da Educação (MEC) apontando divergências entre os dados do Enamed e informações repassadas às instituições em dezembro, por meio do sistema e-MEC.

Em resposta à Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), que representa as universidades, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) afirmou, também em ofício, que “foi identificada uma inconsistência na base dos insumos disponíveis no Sistema e-MEC”. Procurado, o MEC disse que os dados divulgados nesta semana estão corretos.

No documento encaminhado pelas instituições privadas, ao qual a reportagem teve acesso, a Abmes relata que, em vários casos, a quantidade de alunos considerados proficientes divulgada pelo MEC na segunda-feira (19) é menor do que a informada em dezembro. Segundo a associação, a diferença derrubou a nota de cursos.

“Há situações em que a diferença supera 15 ou até 20 pontos percentuais, gerando prejuízos concretos a cursos que, com base nos insumos divulgados e confirmados em dezembro, alcançariam conceitos elevados”, afirma o ofício.

Já o Inep argumenta que a divergência ocorreu porque, em dezembro, foi adotada uma nota de corte diferente da fixada em nota técnica publicada no fim do mês, que definiu o parâmetro de proficiência em 60 pontos. Com esse critério, o instituto sustenta que os dados divulgados agora estão corretos. “A conferência desses dados poderá ser realizada pelas instituições por meio dos microdados do Enamed, publicados no portal do Inep”, diz o documento.

No ofício enviado ao MEC, as universidades pedem que sejam mantidos os números informados em dezembro pelo e-MEC. Elas também relatam que o sistema ficou fora do ar após a divulgação dos novos resultados, o que, segundo a Abmes, aumenta o receio de alteração retroativa dos dados. Para a associação, mudar informações já homologadas representaria violação do procedimento e afetaria a segurança jurídica do processo avaliativo.

A disputa entre as instituições privadas e o MEC começou antes da divulgação dos resultados. Na semana passada, a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) entrou com ação na Justiça para tentar barrar a publicação das notas, mas não obteve decisão favorável.

No pedido encaminhado ao ministro da Educação, Camilo Santana, a Abmes solicita que sejam suspensos “quaisquer efeitos regulatórios” decorrentes dos resultados divulgados com base em “insumos equivocados”, até a regularização da situação.

 

* estagiária sob supervisão da editora Mariana Floriano

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