Na manhã do dia 13 de novembro, um carro pegou fogo na Avenida Deusdedit Salgado, altura do Bairro Salvaterra, Zona Sul de Juiz de Fora. O dono e condutor do veículo, Mateus Scheffer, 21 anos, estava a caminho da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), onde treinava visando ao Campeonato Mineiro de Vôlei de Praia, ocorrido no último dia 20. O incêndio não deixou feridos, mas causou a perda de materiais utilizadas por Mateus e pela equipe comandada pelo treinador Roberto Elias, no projeto que leva seu nome, a um mês do torneio estadual. Após o ocorrido, no entanto, o projeto dribla os prejuízos e segue a todo vapor, planejando saltos ainda maiores para o futuro.
“Eu saí de casa como qualquer dia normal e, quando eu cheguei no Salvaterra, um carro ao meu lado buzinou e eu senti que tinha algo errado. Fui pisar no freio por causa do radar e vi que o carro estava sem freio. Daí, eu joguei o veículo no acostamento, puxei o freio de mão e saí, quando vi que estava saindo muita fumaça”. Com o automóvel em chamas, o instinto ligar para os bombeiros e enviar mensagem para o treinador Roberto Elias, que de imediato foi socorrer um de seus oito comandados. “Após cinco minutos andando de carro, a gente avistou o carro em chamas. O veículo estava no seguro e deu perda total. Dentro dele, estava o material de treino”, lembra Elias.
Sem qualquer ferimento do aluno, a preocupação de comandante e comandado logo pairou sobre a participação no campeonato estadual, após meses de preparação. Dias depois, com a ajuda de Virgílio, supervisor da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), algumas das bolas foram recuperadas pela equipe Roberto Elias Voleibol. O empresário Geraldo Guedes, que é pai de um dos atletas do projeto, também auxiliou com a reposição da rede que foi perdida no incêndio. “A gente ia ter que parar os treinos em um momento de aprimoramento do trabalho para o Campeonato Mineiro. Mas rapidamente a gente conseguiu recuperar para fazer aquilo que nós propusemos a fazer: ter uma participação de aprendizado no Mineiro”, conta Roberto.
Projeto recente
O grupo comandado por Roberto Elias é recente, bem como a sua formação em vôlei de praia. Professor de Educação Física, Roberto praticou o esporte na infância como hobby, mas foi no basquete que teve maior sucesso, chegando a ser atleta na adolescência quando ainda morava no Rio de Janeiro. O vôlei voltou a ser prioridade quando, já adulto, cansou das discussões constantes em partidas casuais de futebol com os amigos e migrou de esporte. “Em todo jogo de futebol tinha uma discussão. Eu cansei disso, pensei: ‘vou voltar a jogar vôlei, porque não tem contato físico. Se a discussão for verbal é mais fácil de resolver, no tapa não está dando certo’. Nisso, eu resolvi montar um grupo na cidade onde eu moro, que é Pequeri (MG), para bater uma pelada”, lembra.
As partidas casuais tomaram proporções maiores, com cerca de 40 pessoas interessadas nos duelos na cidade da Zona da Mata, distante 53 quilômetros de Juiz de Fora. A partir deste interesse, Roberto fez curso para ser treinador de vôlei em 2016 e, entre 2018 e 2019, fez duas especializações em vôlei de praia, em formações oferecidas pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB). O trabalho de aperfeiçoamento do COB foi o estopim para o início, há um ano, do projeto na AABB. “Em Juiz de Fora, o vôlei de praia era muito rudimentar, era apenas a nível de pelada esporádica. Então eu entrei nessa lacuna e fico feliz que meu trabalho comece a ter algum reconhecimento”, comemora o treinador, hoje representante da Federação Mineira de Voleibol (FMV) na Zona da Mata.
Resultados no Mineiro
Após um ano do projeto, a equipe que trabalha na AABB é formada por quatro duplas. Três delas – nas categorias adulto, sub-17 e sub-19 – participaram do Campeonato Mineiro de Vôlei de Praia, realizado entre os últimos dias 20 e 22. Mateus Sheffer, motorista do veículo incendiado, é um dos atletas que estiveram no certame estadual e conquistou o quarto lugar na categoria adulto, ao lado do companheiro Gabriel Spinelli. “A competição foi fundamental para mostrarmos que somos capazes de jogar em alto nível”, destaca o jovem atleta.
O primeiro desafio – conseguir superar a perda de equipamentos pouco antes da competição – foi deixado para trás. Alcançar o alto nível do campeonato estadual era o motivador do trabalho diário dos juiz-foranos, que ainda conquistaram o ouro na categoria sub-17 com a dupla Gabriel Spinelli e Guilherme Russo e a prata no sub-19, com a dupla Yan Foresti e Felipe Guedes.
Pensando alto
Atualmente, o fator financeiro é um dos principais desafios do projeto. O treinador Roberto Elias conseguiu o espaço de treinamento na AABB de modo gratuito, oferecendo treinamentos para um projeto social para a Associação como contrapartida. Como resultado, os atletas do vôlei de praia não precisam desembolsar nenhuma quantia para praticar o esporte, conseguindo os equipamentos de treino através dos poucos patrocinadores. Nos momentos de disputa de campeonatos, como o Campeonato Mineiro, os jogadores custeiam a alimentação e, por vezes, também a hospedagem na cidade-sede.
Ainda assim, Roberto Elias é otimista. Após, em pouco mais de um ano, alcançar o patamar de representante da FMV na Zona da Mata e emplacar atletas em grandes competições, colocar um jogador em rota olímpica é o plano. “Nosso plano mesmo é, em 2024, estar tentando fazer uma corrida olímpica. Mais precisamente em 2028 ter um atleta na Olimpíada”, afirmou Roberto que, para isso, admitiu ser necessário investimento muito superior ao atual. “Nesse sentido, vamos procurar a Prefeitura, que foi uma coisa que não fizemos ainda, e vamos procurar empresas de alto calibre para conseguirmos mais patrocínios. A minha intenção é ter entre R$ 2 mil a R$ 3 mil ao mês para o projeto”, afirmou.
Superadas as intercorrências, o treinador mostra confiança no potencial do trabalho feito em Juiz de Fora. “Apesar de tudo, somos muito positivos. Foi um ano muito bom. O que aconteceu de ruim foi o acidente do carro, uma perda material. Mas a vida de atleta e de treinador é resiliência o tempo todo. O tempo todo de luta”.

