Francisco Lima divide a rotina entre corrida, pesquisa e formação no atletismo em Juiz de Fora
Atleta constrói trajetória a partir da vivência familiar, da experiência na pista e da ciência

Francisco Veríssimo Perrout Lima hoje tem 26 anos de idade, mas ainda era criança quando percebeu que a corrida deixaria de ser apenas uma atividade e passaria a ocupar outro lugar na vida. Tinha cerca de 11 anos quando decidiu participar da prova infantil da “Corrida da Fogueira”, em Juiz de Fora, depois de deixar o futebol. Começou a treinar com o pai, sem saber exatamente o peso daquele contato inicial com o atletismo.
“Eu não sabia, naquele momento, que ele tinha um histórico no atletismo”, lembra. Mas, daquela primeira prova de corrida, o que Francisco se recorda e conta à Tribuna de Minas foi a experiência da primeira competição dessa modalidade e tudo o que veio junto com ela.
Francisco venceu. E, logo depois da chegada, viveu uma sequência de situações que marcaram o início da trajetória. “Eu dei entrevista para televisão, […], encontrei com o (então) prefeito (Custódio Mattos) […] e foi a primeira vez que eu vi meu pai chorar, que foi de orgulho ali, de alegria”, narra.
O episódio, ainda na infância, funcionou como uma espécie de confirmação. “Na minha cabeça, eu falei: ‘parece que eu tô no lugar certo agora’”, brinca.
“A partir desse momento que eu falei: ‘eu sou do atletismo, eu sou da corrida, eu sou corredor, essa é a minha vida e esse é o meu ambiente’. Então esse foi um momento muito marcante”, afirma.
A partir dali, os resultados começaram a aparecer com frequência. Vieram vitórias em provas de rua e, depois, o título do Campeonato Mineiro na categoria, em 2012. O passo seguinte parecia natural: o Campeonato Brasileiro. A expectativa também.
“Eu achei que ia ganhar”, lembra Francisco, sobre a competição que ocorreu em 2018, à reportagem. Mas não ganhou. Terminou em quarto lugar, sem medalha, e voltou com uma frustração que, hoje, reconhece como ponto de virada. “Fiquei bem triste, mas foi quando eu falei: ‘agora eu vou treinar de verdade’”, garante.
O processo levou alguns anos, mas teve desfecho. Já na categoria sub-20, conquistou o título brasileiro nos 10 mil metros. “Eu não era o favorito naquele dia”, pontua Francisco. Ainda assim, venceu. E entendeu o significado da conquista. “Você fala: ‘eu sou campeão brasileiro’. Isso tem um peso muito grande”, reflete.
Rotina entre pista, treino e estudo
A relação com o atletismo, no caso de Francisco, nunca ficou restrita à pista. O ambiente familiar sempre foi marcado pelo esporte. O pai Jorge Perrout, professor universitário e ex-atleta nas categorias de base, é presença constante na construção dessa trajetória. “A gente para no café da tarde pra falar de atletismo, de fisiologia, de corrida”, elenca.
Não houve pressão. Segundo ele, o caminho sempre foi mais de incentivo. Ainda assim, houve “um ponto de virada”, quando entrou no ensino superior (Francisco é formado em Bacharelado em Educação Física) e decidiu assumir a própria condução. Mesmo com a inspiração dentro de casa e com o elo familiar, foi quando disse: “agora pode deixar comigo”.
Hoje, a rotina se divide entre três frentes: atleta, treinador e pesquisador. Papéis que nem sempre caminham juntos.
“O atleta tem que ter uma parte emocional mais forte, né? Uma coisa mais passional, às vezes até meio animalesca ali durante a prova, de ter um ‘espírito de campeão’, de superar, de ter fé, às vezes, numa coisa que não é muito provável de acontecer. O treinador tem essa questão mais estratégica, às vezes mais acolhedora, de falar ‘não, não deu certo hoje, mas vai dar certo na próxima’, […] e o pesquisador às vezes anda mais separado na parte mais técnica, de pensar qual é a parte fisiológica, o que tem que ser feito, o que tem que ser mudado e tudo, e às vezes (conduzir) uma análise mais ‘fria’”, explica Francisco.
Formado e com mestrado já concluído também em Educação Física pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), ele reconhece que a formação acadêmica influencia diretamente na forma de treinar e competir, mas sem anular a dimensão prática da experiência.

Bastidores e realidade do esporte
Se, de fora, o atletismo pode sugerir uma estrutura profissional consolidada, a leitura interna é outra. “Às vezes a gente pensa que o esporte profissional é profissional, mas na realidade, ele não é”, aponta Francisco.
A falta de patrocínio e de premiações frequentes faz com que a prática esportiva, muitas vezes, não seja financeiramente sustentável. “Não têm esse glamour financeiro tão grande na nossa modalidade”, revela o atleta, que complementa: “eu gasto mais dinheiro com atletismo do que ganho (com ele)”.
A principal fonte de renda vem do trabalho como treinador, enquanto a pesquisa e a trajetória acadêmica aparecem como projeto de médio a longo prazo. O esporte, nesse cenário, se mantém por outra lógica. “Faço porque eu amo”, argumenta.
‘Eu gosto de correr’
Mesmo com conquistas importantes, Francisco mantém uma meta em aberto: o título brasileiro adulto. No último ano, terminou em sétimo lugar, mas o atleta não tem pressa de encerrar o ciclo nas corridas: “não me vejo aposentando tão cedo”.
“Eu gosto de correr, gosto de treinar. É o momento mais feliz ali do meu dia, que eu vou dar uma corrida, às vezes, com os amigos, às vezes com os atletas. Para mim, é mais difícil ficar sem correr do que correr”, finaliza.









