JF explora pouco o potencial do lixo


Por Fabíola Costa

29/01/2012 às 07h00

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Quando o assunto é lixo, Juiz de Fora ainda é incipiente nas ações de redução, reutilização e reciclagem de resíduos sólidos. Das 380 toneladas de resíduo domiciliar coletadas por dia, conforme o Demlurb, apenas 5% do total recolhido têm como destinação final a usina de reciclagem, o que perfaz 18 toneladas. Estima-se que cada pessoa produza cerca de 700 gramas de lixo por dia. Apesar de tanta "matéria-prima" a ser utilizada, ainda são tímidas as iniciativas na cidade para transformar o que é descartado pela população em dinheiro e fonte de renda.

O ambientalista Theodoro Guerra, consultor de meio ambiente e mestre em ecologia, avalia que os resíduos domésticos e industriais possuem valor econômico significativo, principalmente os que podem ser reutilizados ou reciclados. "O segmento de reciclagem é um dos que mais cresce e gera emprego e renda." A economista Maria Isabel Alvim, professora da UFJF, considera, no entanto, que as empresas ainda não se atentaram para a potencialidade econômica da reciclagem. "Em Juiz de Fora ainda é pouco explorada."

Para a catadora Flávia Helena Dias da Silva, que é presidente da Associação dos Catadores de Papéis e Resíduos Sólidos de Juiz de Fora (Apares), tudo que está no lixo é "precioso". Junto com o marido, ela garante o sustento dos seis filhos. O trabalho começou aos 14 anos, ajudando os pais a localizar o que poderia ser reaproveitado. "Eu vi a importância que tem o lixo para o meio ambiente e para a minha vida."

O material fino, composto por metal e cobre, retirado de computadores descartados é o mais valioso, ganhando o posto antes ocupado pela tradicional e disputada latinha, cujo preço no mercado chega a R$ 2.400 a tonelada prensada (ver quadro). O papel e a garrafa PET têm saída, ao contrário das sacolinhas plásticas, que não interessam mais ao mercado.

De acordo com o material, o preço do fardo varia de R$ 0,10 (jornal) a R$ 0,70 (plástico transparente) no início da cadeia. Cada fardo reúne entre 250 e 300 quilos. Depois de tantos anos, Flávia identifica mudança de olhar da população. "Quem não gostava da gente, agora nos ajuda. Traz o material e deixa na nossa porta. Está mais fácil trabalhar, porque somos mais reconhecidos." Para ela, mais empresas deveriam se interessar pelo material reciclável, aumentando as opções de venda e elevando o preço pago aos catadores.

O sócio da Recicle Santa Maria, Luis Antônio Gonçalves Duarte, também aprendeu o ofício com o pai, um dos pioneiros no trabalho com reciclagem na cidade, ainda na década de 60. A Recicle compra todo tipo de material de empresas e catadores, realiza a triagem, embala e revende para indústrias no país. Na avaliação de Luis, o mercado está retraído. Hoje, vende cerca de 300 toneladas por mês, mas já houve tempo em que, se comprasse 100 toneladas por dia, conseguia comercializar tudo. Para ele, a crise impactou o setor.

Cadeia produtiva

Na ponta da cadeia produtiva, estão empresas como o Grupo AG. Em uma iniciativa pioneira, o grupo vai investir R$ 14 milhões em uma fábrica de reciclagem de garrafas PET em Juiz de Fora. O projeto prevê a transformação do lixo plástico em matéria prima limpa para novos produtos, como embalagens para produtos alimentícios, poliéster, peças para carros e vassouras. Segundo o diretor industrial Eduardo Costa Deotti, para alcançar a capacidade instalada de 1.400 quilos por hora serão necessários 27 milhões de garrafas PET de dois litros por mês. "Este é o maior desafio." De acordo com Deotti, a preocupação não está em clientela para o produto, mas na quantidade necessária para o processo. "A oferta é baixa." O projeto existe há quatro anos e foi idealizado quando o proprietário da empresa viu centenas de PET boiando no Rio Tietê, em São Paulo. O galpão da fábrica está em construção, e a previsão de inauguração é junho deste ano. O número de empregos diretos passa de 200. "O projeto tem importância econômica, mas principalmente social e ambiental."

 

Poder público e sociedade terão que se adequar

Em agosto, a Política Nacional de Resíduos Sólidos começa a valer, impondo responsabilidades a poder público e geradores de resíduos. A Lei 12.305 carece de regulamentação, mas prevê mudanças como a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos (que envolve de consumidores a fabricantes) e o conceito da logística reversa – retorno dos produtos após o uso pelo consumidor. A criação de um plano municipal de gestão integrada torna-se condição para que as cidades tenham acesso a recursos do Governo federal para limpeza urbana e financiamentos para o setor.

O diretor administrativo do Demlurb, Nelcimar Breder, comenta que, em atendimento à política nacional, a coleta seletiva sofrerá mudanças. Hoje o recolhimento é feito de porta em porta. O sistema, avalia, funcionaria bem em cidades com até 15 mil habitantes, em que há público menor para ser conscientizado. "O Demlurb está passando por estudos para melhoria do serviço e dos resultados," disse, considerando os 5% destinados à usina de reciclagem aquém do ideal. Breder cita a importância da logística reversa, atribuindo legalmente responsabilidade também a quem gera. "Vai obrigar, de certa forma, as empresas a assumirem o seu papel nesse processo." Afirma, ainda, que Juiz de Fora terá de fazer seu plano de gestão integrada. "É o início mais significativo da existência de um planejamento maior."

Para a professora da UFJF, Maria Isabel Alvim, o gerenciamento do lixo exige programa de educação ambiental que contemple a recusa de consumo de produtos com alta capacidade de geração de resíduos. Maria Isabel avalia que os resíduos advindos de aglomerações urbanas, processos produtivos e estações de tratamento de esgoto são um grande problema, tanto pela quantidade quanto pela toxicidade. "A solução não depende apenas de atitudes governamentais ou decisões de empresas. Deve ser fruto também do empenho de cada cidadão, que tem o poder de recusar produtos potencialmente impactantes, participar de organizações não-governamentais ou segregar resíduos dentro de casa, facilitando a reciclagem."

Para o ambientalista Theodoro Guerra, a lei inova, mas não modifica o ambiente. "É necessária mobilização da comunidade na cobrança pela efetivação e fiscalização do poder público."Na sua opinião, as empresas já perceberam que a reciclagem pode ser um item de insumo no processo produtivo, elevando a rentabilidade. Um exemplo, cita, vem da indústria de latinhas de alumínio. Reciclar as latinhas usadas provocou economia na produção, valorização do catador e menos pressão na extração de bauxita. "A preocupação com o meio ambiente é uma premissa para a exportação. As empresas têm que atentar para esta questão com seriedade e competência."