A política por trás da economia


Por Carolina Morais Sarmento e Luiz Lima

19/08/2014 às 07h00

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No fim de julho, o Banco Central anunciou medidas de estímulo ao crédito para o varejo e o arrefecimento nas regras de recolhimento de compulsório (dinheiro que os bancos são obrigados a retirar de circulação e manter junto à autoridade monetária). As duas medidas, segundo o BC, serão capazes de gerar uma liberação de R$ 30 bilhões na economia e estimular o consumo. Mas a enxurrada de liquidez ocorre justamente num momento em que a meta de inflação (limitada a 6,5% a.a.) já foi descumprida. Como mais dinheiro em circulação significa menos valor para a moeda, as medidas certamente aumentarão a pressão inflacionária.

O impacto de medidas como essas, entretanto, não se restringe à economia, se estendendo também ao ambiente político, principalmente em anos eleitorais. A adoções de políticas monetárias expansionistas (capazes de estimular a demanda) são, a grosso modo, o que caracteriza os chamados Ciclos Políticos de Negócios (CPNs). Esse é o termo técnico utilizado para sintetizar o impacto de ações governamentais no desempenho de variáveis macroeconômicas em períodos pré-eleitorais. Em linhas gerais, os CPNs se caracterizam por uma redução no nível de desemprego e acréscimo nos gastos públicos que resultam em um aumento da inflação. No período pós-sufrágio, visando reestruturar os gastos públicos e controlar a inflação, medidas contracionistas, com políticas fiscais e monetárias restritivas, acabam sendo adotadas.

O padrão vem ocorrendo com frequência no Brasil. Na eleição de 1998, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, defendendo o Plano Real, manteve a taxa de inflação no menor patamar da história do Brasil, principalmente pelo controle da taxa de câmbio em um episódio conhecido como "câmbio eleitoreiro". Na eleição de 2002, com as expectativas se deteriorando no que ficou conhecido como "risco Lula", a inflação se descontrolou menos pela política econômica do governo do que pelo viés político, com o real se desvalorizando fortemente frente ao dólar, que chegou a quase R$ 4. Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu, em 2003, adotou políticas macroeconômicas alinhadas às de seu antecessor, o que diluiu o risco, fazendo com que a inflação chegasse a apenas 3,14% na eleição seguinte, de 2006. A partir de 2006 e na esteira de crise americana de 2008, o CPN parece ter se enraizado na economia brasileira. No segundo mandato de Lula, uma mudança na orientação da política econômica, que se tornou mais expansionista, fez com que a inflação ficasse acima de 5% em dois dos quatro anos (2007 e 2009). O pleito que elegeu a presidente Dilma Rousseff, em 2010, foi marcado pelas mesmas práticas e pelo aumento dos gastos públicos. Um dos pilares do Plano Real, o superávit primário esteve sempre acima de 3% no período 2001-2008; nos anos mais recentes, entretanto, esse saldo vem se deteriorando.

Defendia o economista John Maynard Keynes que apenas o aumento da demanda seria capaz de salvar economias devastadas. Desde então, governos passaram a estimular, pela via dos gastos públicos e afrouxamento monetário, economias fragilizadas. Infelizmente, o remédio tem efeitos colaterais relevantes e não pode ser ministrado por longos períodos. Ciclos políticos de negócios, assim como os econômicos, também sofrem reversão. Para o nosso próprio bem, a história recente indica que 2015 deve ser um ano de ajuste e contração, não importa qual seja a política por trás da economia e à frente do país.

Carolina Morais Sarmento e Luiz Lima

Conjuntura e Mercados Consultoria Jr.

Faculdade de Economia/UFJF

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