Para além dos barracões: o impacto econômico dos desfiles das escolas de samba em Juiz de Fora

Festa mobiliza recursos públicos e privados, gera empregos temporários e aquece uma ampla cadeia produtiva na cidade


Por Fernanda Castilho

17/02/2026 às 06h00

A época do carnaval é um momento de blocos, desfiles de escolas de samba, fantasias e muita diversão. No entanto, para ganhar as ruas e encantar a todos, muita gente trabalha para isso e muito dinheiro é movimentado. A festa se transforma, então, em investimento e impacto econômico.

Com os desfiles das escolas de samba de Juiz de Fora, a cidade gera empregos, movimenta o comércio local e coloca dinheiro no bolso de todos os envolvidos. Das costureiras de fantasias a quem trabalha nos barracões na criação de alegorias, além de músicos, intérpretes e componentes das alas, comércio de vestuário, aviamentos, bebidas e alimentos, o carnaval impulsiona a economia de uma cadeia extensa de trabalhadores.

‘Carnaval nunca foi só festa’

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O carnavalesco Fábio Esteves e a diretora da escola Miriam Neder apresentam as fantasias para o desfile de 2026. (Foto Leonardo Costa)

Envolvida no carnaval desde a infância, a administradora Miriam Neder de Assis Falce, 54 anos, hoje é diretora da escola de samba Unidos do Ladeira. Sua participação nos carnavais da cidade começou na Acadêmicos do Manoel Honório, que, como conta, fechou as portas. Então, ela migrou para a escola do Ladeira, a convite de um amigo que anteriormente a presidiu. 

Neste ano, a escola, campeã do desfile por treze carnavais, cobiça mais um título e busca voltar ao Grupo A, apresentando um samba-enredo em homenagem ao ex-prefeito Tarcísio Delgado, que morreu em 2025. Para essa festa, a Unidos do Ladeira levou às ruas mais de 300 pessoas para compor o desfile, fazendo o Circuito Júlio Guedes, no qual o cortejo parte do Viaduto Roza Cabinda à Praça da Estação, no Centro da cidade.

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O carnavalesco e a diretora conversam sobre os preparativos para o desfile da Unidos do Ladeira (Foto: Leonardo Costa)

Além dos recursos da Funalfa para o Carnaval 2026, no valor de R$32 mil, a Unidos do Ladeira também recebeu doações e patrocínio de empresas. Quando contabiliza os gastos totais para colocar a escola na avenida, Miriam estima que as despesas tenham custado o dobro da verba pública, mais de R$60 mil. “Temos doações de amigos, fazemos eventos e trabalhamos muito o ano inteiro para esse momento. Tendo a certeza de que haverá desfile no ano que vem, nós vamos começar a trabalhar já em março. Nossa intenção é correr atrás de parcerias mais robustas, para conseguir um espetáculo melhor”.

A diretora da escola ressalta que, para além da verba pública, a confirmação do desfile e o planejamento antecipado pela Funalfa são os incentivos mais importantes para o carnaval da cidade, pois garantem prazo maior para captação de recursos, tanto públicos quanto privados. “Com a certeza de que haverá o desfile, temos um planejamento para trabalhar. Quando o dinheiro da Prefeitura vier, será apenas um complemento”.

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Aderecista dá os últimos retoques nas fantasias da Unidos do Ladeira (Foto: Leonardo Costa)

Segundo as estimativas da diretora, na pré-produção do próximo desfile, a escola conta com 17 pessoas envolvidas na confecção de fantasias e seis trabalhadores responsáveis pela criação dos carros alegóricos. Como explica, a maior parte da equipe envolvida é remunerada pelo seu trabalho: o carnavalesco, o alegorista, aqueles que produzem as fantasias e as alegorias, a comissão de frente, o mestre-sala, a porta-bandeira, os intérpretes e os músicos. “Se colocar na ponta do lápis, a gente paga diretamente umas 60 pessoas.”

Para dar conta de tanto trabalho, a escola também conta com serviços prestados por trabalhadores terceirizados, como costureiras e serralheiros, que recebem demandas de outras escolas da cidade. A diretora também conta que, para além da geração de renda, a escola também está comprometida com projetos sociais voltados à comunidade.

“Carnaval nunca foi só festa, não é só despesa, é investimento, é trabalho e geração de renda. Você imagina se conseguirmos voltar com aqueles desfiles dos anos 1980, com escolas com mais de mil componentes. Quanto gastamos e quantos empregos geramos para vestir essas pessoas e colocar na avenida? Quanto de dinheiro vem de fora, do público que vem assistir, que gira. Com o carnaval crescendo, fomentamos a economia da cidade, movimentando o comércio local, contratando mais gente.”

Movimentação da economia local

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Músicos da Real Grandeza preparam instrumentos para o desfile (Foto: Felipe Couri)

A paixão pelo carnaval também faz parte da história do advogado Renan Henriques Frattini, 30, que, desde a adolescência, participa dos desfiles da Escola de Samba Real Grandeza. Passando pelas alas e harmonia, há dois anos ele assumiu um novo posto: a presidência da escola. “A minha avó sempre desfilou aqui, trabalhava na cozinha e no bar. Meu pai também participou da escola. Por consequência, eu participo desde muito novo”.

A Real Grandeza, neste ano, levou à avenida uma homenagem à lua e sua relação com os povos e a religiosidade. Parte do Grupo A, a escola recebeu R$80 mil de recursos da Funalfa dedicados ao Carnaval 2026. Conforme o presidente, para além dessa quantia, a escola também conseguiu complementar os gastos realizando eventos na quadra de ensaios e com as doações de pessoas envolvidas. “Até o momento, dentro do nosso planejamento, nosso desfile vai ficar em torno de R$130 mil.”

Ele acredita que, com a confirmação antecipada da festa, será possível captar mais verbas públicas e patrocínios de empresas. “Estávamos nesse cenário de indefinição, sem saber se teria ou não p desfile. O anúncio do retorno foi feito há menos de dois meses, mas já vínhamos trabalhando e tínhamos muitas coisas prontas, que já estavam feitas.”

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Antes dos ensaios da escola de samba, músicos preparam a percussão (Foto: Felipe Couri)

Segundo as contas feitas por Frattini, a escola conta com dez pessoas trabalhando diretamente na preparação de fantasias e alegorias nos barracões, incluindo costureiras, serralheiros e marceneiros, muitos dos quais são prestadores de serviços terceirizados. Dentre as pessoas pagas para o desfile da avenida, estas somam cerca de 40, englobando músicos e demais componentes essenciais: o carro de som, a harmonia, a bateria, a comissão de frente e o casal de mestre-sala e porta-bandeira. “Como há uma sazonalidade, não tem como uma pessoa se dedicar somente ao carnaval. Os pagamentos ao pessoal envolvido ficam concentrados no final e no início de ano.”

Como ressalta o presidente, a festa tem impacto importante na economia de Juiz de Fora. “Tem muitas pessoas trabalhando só para a Real, imagine para as outras escolas. Movimentamos o comércio local também, com a compra de materiais em várias lojas aqui da cidade. Nós também temos um calendário de eventos fixos da escola, trabalhamos durante o ano todo, para gerar receita e renda, para pagar despesas da escola.”

Carnaval como investimento estratégico

Considerando o carnaval a maior festa popular brasileira, a Funalfa afirma que, em Juiz de Fora, o cenário não é diferente. “Trata-se de uma celebração que vai muito além do aspecto cultural: o carnaval movimenta a economia, impulsiona o turismo, fortalece a gastronomia, valoriza a classe artística, os produtores culturais e gera oportunidades para diversos prestadores de serviço.”

A fundação avalia que, do ponto de vista econômico, o carnaval é um investimento estratégico, com impacto direto e positivo em diferentes setores da cidade. “Pensando no fortalecimento e na sustentabilidade da festa, o Projeto de Carnaval de Juiz de Fora foi aprovado tanto na Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) quanto na Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Isso significa que as empresas que reconhecem o potencial do carnaval podem, para o próximo ano, destinar recursos por meio de patrocínio incentivado, associando suas marcas a um evento de grande alcance popular e relevância cultural”, declara.

Uma das expectativas da Funalfa o é que, com o apoio, o carnaval continue crescendo e movimentando a economia de Juiz de Fora, consolidando-se como um dos principais eventos do calendário cultural da cidade.

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