Comércio adia abertura de vagas temporárias

Na Galeria Tenente Belfort Arantes, lojistas fazem anúncio de liquidação; abertura de vagas para Natal ainda é dúvida (Marcelo Ribeiro/02-09-15)
Prestes a entrar na reta final, o ano de 2015 vem se confirmando como um dos mais amargos para o comércio. O segundo maior setor empregador de Juiz de Fora reduziu 1.190 postos de trabalho entre janeiro e julho. O movimento das contratações temporárias para o Natal, geralmente iniciado em setembro, é quase inexistente. Nas ruas do Centro, as vitrines das lojas não anunciam oportunidades de emprego como de costume nesta época, mas sim as liquidações que oferecem até 70% de desconto. De acordo com os lojistas, trata-se de mais uma tentativa de alavancar as vendas, mas os resultados continuam tímidos. Mesmo com a proximidade do último trimestre do ano, considerado o melhor para o setor, a abertura de vagas temporárias ainda é dúvida.
Na loja de roupas Fio de Linha, a gerente Lucélia Lippi diz que não devem ser feitas contratações neste mês. “Por conta da crise, tivemos redução do quadro de funcionários e ainda nem lançamos a nova coleção”, pontua. “As vendas estão baixas mesmo com a realização da liquidação. Se melhorarem, pode ser que surjam uma ou duas vagas a partir de outubro.” Diferente do que ocorreu em 2014, quando contratou vendedores neste período e chegou a efetivá-los, a loja de sapatos Meninas Gerais não tem previsão sobre novas vagas. “Ainda não fomos informados a respeito”, diz a vendedora Naijara Barros.
Para os trabalhadores, além da falta de vagas, há o temor de demissões. “É um momento delicado, pois a ausência de contratações acontece em meio ao aumento do desemprego. Isso é preocupante”, afirma o presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio, Silas Batista da Silva. Segundo ele, as rescisões feitas pela entidade este ano aumentaram consideravelmente em comparação com 2014. “E o agravante é que nós só fazemos a rescisão de quem tem mais de um ano de casa, sendo que os empregados com contratos mais recentes são o principal público a ser demitido.” Para Silas, não há expectativas positivas a curto prazo. “Acredito que as contratações temporárias de fim de ano serão postergadas pelos empresários e acontecerão em menor quantidade. A economia está fragilizada e não demonstra melhoras nem para 2016.”
Para os representantes do setor, é preciso manter foco e persistência para atravessar este momento, avaliado como de grande dificuldade. Na análise do presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), Marcos Casarin, a instabilidade sobre as decisões políticas e econômicas tem prejudicado o comércio. “É uma crise que também atinge o psicológico. O Governo, que deveria nos dar tranquilidade, tem nos dado incerteza. Assim, o consumidor não compra, e o empresário não investe.” Para ele, as contratações devem ser bem menores do que no ano passado. “A movimentação agora é de sobrevivência. Já está uma grande luta para garantir a manutenção dos empregos.”
O presidente do Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio-JF), Emerson Beloti, reconhece as dificuldades, mas pede otimismo aos empresários. “O ano está pior do que 2014, que já foi um desastre. O momento é realmente muito difícil, mas não podemos entregar o jogo. Precisamos continuar trabalhando e acreditando que as coisas irão melhorar.” Sobre as contratações temporárias, ele afirma que a movimentação será tardia na cidade. “As lojas vão adiar um pouco até perceber o panorama que vem pela frente. Esperamos a abertura de cerca de mil vagas, mas a partir do final de setembro e início de outubro.” Em 2013, quando o momento econômico era melhor, a expectativa do sindicato era de abertura do dobro de oportunidades.
Confiança
Mesmo com o cenário adverso, Beloti acredita em aumento das vendas de Natal. “Antes de tudo temos que ter confiança para poder sair desse sufoco. Sabemos que o comércio não irá trabalhar com grandes estoques para a data, pois agora os investimentos estão sendo feitos de forma mais realista.” A CDL orienta os empresários a não desanimarem e a se prepararem para a data. “Neste momento de dificuldade, não podemos perder venda. É preciso garantir um estoque adequado e o bom treinamento da equipe”, destaca Casarin.
A proprietária da loja Traje’s Tricot, Ana Maria Sá e Bragança, integra o time dos empresários confiantes. Mesmo com o ritmo lento das vendas, ela anuncia oportunidade de emprego na loja. “Quero contratar agora para ter tempo de treinar. O atendimento é um diferencial e contribui diretamente para os bons resultados”, avalia. “Já estou no mercado há muitos anos e vivi outras crises. A solução é trabalhar de forma planejada e não se entregar.”
Para CNC, o ano está perdido
Já a projeção da Confederação Nacional do Comércio (CNC) não é otimista. De acordo com a entidade, o comércio brasileiro pode ter um Natal com o pior desempenho desde 2004, e o setor deve encerrar o ano com redução de 6,5% dos resultados, o que é considerado uma “queda histórica”.
Apesar do último trimestre ser tradicionalmente o melhor momento para as vendas, por conta das datas comemorativas e do pagamento do décimo terceiro, a última pesquisa da CNC mostrou que o índice de confiança do empresário do comércio (Icec) atingiu o menor patamar desde o início da série histórica, em 2011. Numa escala de zero a 200 pontos, ficou em 82,2, a sétima queda consecutiva este ano. “O resultado foi afetado pela percepção das condições correntes. O país entrou em recessão e caminha para registrar o pior PIB dos últimos 25 anos, segundo o IBGE. A avaliação do empresário não ficou imune a isso”, explica o economista da CNC, Fábio Bentes.
O especialista destaca que sem confiança não há investimento, logo, a abertura de vagas temporárias para o fim de ano deve ocorrer de forma tardia e em menor quantidade em todo o país. No ano passado foram criados 135 mil oportunidades para o período. “Este tipo de contratação é uma aposta que o empresário faz. O ano tem sido difícil, e as datas comemorativas não tiveram bons desempenhos. Esperamos um Natal pior do que o do ano anterior, o que se confirmaria como o resultado mais baixo desde 2004”, diz. “Infelizmente, 2015 não tem mais salvação.”









