Luta é para manter emprego


Por FABÍOLA COSTA

06/03/2016 às 07h00

Há uma necessidade de reposição imediata e é por  ela que lutamos  Wagner França, do Sindicato dos Empregados no Comércio

Há uma necessidade de reposição imediata e é por ela que lutamos Wagner França, do Sindicato dos Empregados no Comércio

Diante do cenário                    que exige a manutenção do emprego no primeiro momento, a negociação deve ser para evitar demissões  Wilson Rotatori, professor da UFJF

Diante do cenário que exige a manutenção do emprego no primeiro momento, a negociação deve ser para evitar demissões Wilson Rotatori, professor da UFJF

Há chances  de se manter os ganhos reais, especialmente em empresas que lançam mão de inovação  Celina Ramalho, economista do Cofecon

Há chances de se manter os ganhos reais, especialmente em empresas que lançam mão de inovação Celina Ramalho, economista do Cofecon

o Desempenho do mercado de trabalho  deve ser ainda pior ante  o que passou Reginaldo Nogueira, economista e  coordenador do Ibmec

o Desempenho do mercado de trabalho deve ser ainda pior ante o que passou Reginaldo Nogueira, economista e coordenador do Ibmec

Houve um tempo em que mais da metade (68,5%) dos trabalhadores obtiveram ganho real, pouco expressivo (entre 0,01% a 1%), mas acima da inflação. Esta época foi o primeiro semestre de 2015. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) ainda não divulgou o resultado das negociações salariais no segundo semestre, mas analistas de mercado ouvidos pela Tribuna garantem que, este ano, dificilmente as categorias conseguirão ir além da reposição inflacionária – isto quando o repasse da inflação for possível. O temido achatamento salarial, já percebido no bolso por boa parte das famílias, é dado como certo.

Conforme o balanço das negociações do 1º semestre de 2015, a maioria, o equivalente a 207 negociações, resultou em aumento salarial acima da inflação no período. Deste total, em 44% ou 133, os reajustes acima da inflação se concentraram na faixa de até 1% de ganho real. O Dieese aponta, ainda, que um número significativo de negociações obteve reajustes iguais à inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), correspondendo a quase 17% do total ou 51. Os reajustes salariais que não repuseram a inflação alcançaram quase 15% das negociações. Para o estudo, foram consideradas, para análise, 302 unidades de negociação, incluindo esfera privada e empresas estatais. Já naquela época, foi percebida a sensível diminuição na proporção de reajustes com ganho real frente ao observado nas mesmas categorias nos últimos oito anos. O aumento real médio (0,51%) também caiu, apresentando o menor valor desde 2008, quando teve início a série histórica.

A prioridade nas negociações este ano não será a obtenção de ganho real, mas a manutenção do emprego, sentencia o doutor em economia, Reginaldo Nogueira, coordenador de curso do Ibmec-MG. Segundo ele, com a inflação na casa dos dois dígitos, as taxas de desemprego batendo recordes e a economia caminhando, a passos largos, para ter o pior triênio de sua história, é muito pouco provável que os trabalhadores consigam ganho real. Na sua opinião, existe a chance, inclusive, de algumas categorias não conquistarem a reposição inflacionária. Para Nogueira, pressionado por tantas variáveis econômicas negativas, o desempenho do mercado de trabalho, este ano, deve ser ainda pior ante o que passou. Isto porque, a cada semestre, o custo social da recessão em termos de desemprego e aumento da desigualdade aumenta, avalia.

O professor da UFJF, phd em Economia, Wilson Rotatori, concorda. Na sua opinião, com o crescimento do desemprego, a probabilidade é que ocorram perdas salariais. “Diante do cenário que exige a manutenção do emprego no primeiro momento, a negociação deve ser para evitar demissões.” Segundo o economista, na falta de mecanismos de indexação salarial, a chance de achatamento salarial é elevada. Esta, no entanto, não é uma regra, dependendo de particularidades de cada categoria. “É claro que uma ou outra categoria pode até conseguir ganho real, mas é pouco provável.” Na avaliação de Rotatori, uma esperada queda na inflação poderia minimizar os efeitos para o trabalhador, diminuindo as perdas, já que ganho salarial é considerado pouco provável este ano.

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Contraponto
Já a economista Celina Ramalho, integrante do Conselho Federal de Economia (Cofecon), discorda. Ela acredita que há chances de se manter os ganhos reais na formalidade, especialmente em empresas que lançam mão de inovações na busca de reposicionamento no mercado. No contexto geral, avalia, o país vive uma crise econômica que impacta a configuração do mercado de trabalho, em que cargos e salários deixam de existir. No entanto, pondera, no processo de inovação tecnológica, que se dá no cenário produtivo tanto da indústria quanto do comércio, há valorização da atividade, dos processos e dos trabalhadores. “Para operar as novas tecnologias, a grande maioria desses cargos e salários contará, no mínimo, com a reposição inflacionária ou algum ganho real.” Na sua opinião, a perda salarial, hoje em dia, é “inaceitável”. Para Celina, os sindicatos contam com um instrumento expressivo de pressão que é o poder de greve. Na opinião da economista, este ano será bastante restrito. Um reordenamento na economia, com reflexos consistentes no mercado de trabalho, só é esperado para daqui a dois anos, pelo menos.

Para o presidente da CUT Regional Zona da Mata, Watoíra Antônio de Oliveira, além do momento econômico, o ano eleitoral pode ser usado como artifício para segurar aumentos. Na sua opinião, a luta a ser travada nas negociações é, no mínimo, pela garantia da reposição inflacionária, sempre de olho na possibilidade de avanços rumo ao ganho real. Em relação ao cenário juiz-forano, a avaliação é que boa parte dos trabalhadores conseguiu o repasse dos índices inflacionários no ano passado. Em algumas categorias, foi possível ir além, mesmo mediante a constatação de que as negociações têm sido cada vez mais difíceis. “O trabalhador precisa ter em mente que ou ele conquista, ou não vai ter nada.”

No ano passado, os bancários obtiveram reajuste de 10% em salários, Participação nos Lucros e Resultados (PLR) e piso, que resultou em ganho real de 0,11%. Em 12 anos, a categoria acumula 20,83% de ganho real nos salários e 42,3% nos pisos. Desde 1986, há greve de bancários. No ano passado, a paralisação durou 21 dias. “Sabemos que este ano não será dos mais fáceis”, avalia o presidente do Sindicato dos Bancários, Robson Marques. A data base da categoria, que reúne cerca de 1.300 trabalhadores na cidade, é setembro, mas as negociações costumam começar com antecedência, com avaliação do cenário e posterior apresentação da pauta em agosto. “Estaremos focados na conquista de mais direitos, até porque, entendemos que o sistema financeiro nacional, em qualquer cenário da economia brasileira, sempre tem lucratividade.”

O vice-presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio, Wagner França, afirma que, no ano passado, a categoria recebeu reajuste de 9,9%, exatamente a reposição inflacionária. Os comerciários, que reúnem entre 30 e 35 mil trabalhadores na cidade, têm data base em outubro. A expectativa, segundo o vice-presidente, é, desta vez, avançar na conquista por ganho real. “Apesar de toda essa situação que vivemos, entendemos que o ápice já passou.” Para França, em um cenário marcado pela retração das vagas formais, o trabalhador nunca dependeu tanto de aumento salarial, em função da pressão inflacionária e da redução de renda nas famílias. “Há uma necessidade de reposição imediata, e é por ela que lutaremos.”