Para onde vão os graduados em JF


Por FABÍOLA COSTA

02/11/2014 às 07h00

Licenciada da empresa onde trabalha, em Brasília, a jornalista Juliana (ao microfone) faz doutorado em Paris

Licenciada da empresa onde trabalha, em Brasília, a jornalista Juliana (ao microfone) faz doutorado em Paris

Formado na UFJF, Thalis Nogueira decidiu retornar a Carvalhos, sua cidade natal

Formado na UFJF, Thalis Nogueira decidiu retornar a Carvalhos, sua cidade natal

A matemática é simples, mas a conta não fecha. Juiz de Fora criou, no ano passado, 2.210 empregos com carteira assinada. Este ano, até setembro, foram apenas 310. Só a UFJF injeta no mercado cerca de dois mil profissionais graduados por ano. Considerando o universo de formandos das faculdades particulares – até 500 por instituição – e o de trabalhadores sem diploma, o déficit torna-se ainda maior. Embora a cidade seja conhecida por importar estudantes dos ensinos médio e superior, costuma reter apenas uma parte dos graduados, exportando mão de obra qualificada para várias partes do país e do mundo, quando a opção não é voltar para a cidade natal.

Embora Juiz de Fora não tenha condições de absorver todos os profissionais formados aqui, os motivos que levam um trabalhador a optar por ficar no município ou escolher outro lugar para trabalhar não são de todo tangíveis. Em um primeiro momento, a baixa performance na criação de vagas formais verificada este ano – o saldo no acumulado até setembro é, pelo menos, sete vezes menor ante o do mesmo período do ano passado (2.266) – , a remuneração média paga na cidade (R$ 1.769,07) é inferior a três salários mínimos e a vocação para o setor de serviços poderiam justificar a migração. Mas há outros fatores envolvidos, como o impacto na vida do trabalhador e de sua família, além da perspectiva de retorno sobre o investimento. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), ambos do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Depois de cursar o ensino médio e concluir a graduação em odontologia em Juiz de Fora, Thalis Nogueira chegou a trabalhar no interior de São Paulo, mas decidiu voltar para Carvalhos, município com pouco mais de quatro mil habitantes localizado no Sul de Minas. Segundo ele, a “parte financeira” foi determinante. Thalis percebeu que a concorrência em Juiz de Fora e nos grandes centros estava acirrada, com mercado, em alguns casos, saturado. Apostou que, em sua cidade natal, teria mais chances e não se arrepende da escolha que fez. Além de manter um consultório em Carvalhos, o dentista divide a sua semana atuando em postos de saúde das zonas rural e urbana da vizinha Bocaina de Minas. “Em pequenas cidades ainda há falta de profissionais mais especializados.” Para Thalis, é interessante fazer esse caminho de volta, usando o conhecimento adquirido nas salas de aula em benefício de sua comunidade.

Já a jornalista Juliana Escobar decidiu “ganhar o mundo”. Natural de Santos Dumont e graduada em comunicação social em Juiz de Fora, Juliana fez mestrado no Rio de Janeiro e foi aprovada em concurso em Brasília. Há dois anos mora em Paris. Lá cursa doutorado em sociologia na Université Paris Descartes (Paris V/Sorbonne), com a orientação do sociólogo Michel Maffesoli. Ao deixar Juiz de Fora, ela pretendia ampliar os horizontes profissionais, buscando outras possibilidades de atuação e remuneração. Juliana volta ao Brasil em 2016 para atuar na empresa em que está licenciada. “Meu plano, a partir da experiência de viver fora do Brasil e dos resultados obtidos com a finalização da minha tese, é ter condições de atuar, como profissional de comunicação, em projetos internacionais da empresa.”

Decisão individual

Conforme o diretor da Faculdade de Economia da UFJF, Lourival Batista de Oliveira Júnior, o volume de profissionais formados na cidade supera – e muito – o de qualquer outro município de mesmo porte, impedindo a absorção de toda a mão de obra. Conforme o economista, a fixação – ou não – em Juiz de Fora depende da profissão escolhida. O mercado de saúde, relativamente diversificado, permite retenção de boa parte dos profissionais na cidade, avalia. Em contrapartida, em outras áreas, as formaturas ainda são insuficientes para suprir a demanda, como professores de exatas para ensino médio e fundamental. Em outros diplomas, como o de economista, a grande maioria atua na capital, em função da concentração de empresas estatais e privadas, além de bancos de maior porte.

Segundo Lourival, o fato de a oferta de graduados superar a absorção pelo mercado deve ser analisado por setor, caso a caso. Lourival comenta que a decisão de onde morar – e trabalhar – depende das oportunidades geradas, mas advém, principalmente, de uma escolha pessoal. Ele, por exemplo, nasceu em São Paulo, viveu em Guarulhos e optou por atuar em Juiz de Fora, em busca de qualidade de vida. Para o diretor, a questão da remuneração é relativa, já que é preciso comparar os salários com a estrutura de gastos de cada cidade. “Quando vou para uma cidade pequena sinto-me rico, mas quando piso em São Paulo fico pobre”, brinca.

Cidade favorece fixação de empreendedor

Segundo o professor Eduardo Magrone, que já foi pró-reitor de Graduação da UFJF, apesar da impossibilidade de o mercado local comportar todos os graduados pela instituição, a grande maioria tende a se fixar na cidade e região. Há, ainda, muitos que conseguem se estabelecer em outros estados, em virtude da qualidade dos cursos oferecidos pela universidade, avalia. Na falta de uma pesquisa quantitativa sobre o destino dos formandos, mas com a experiência de relatos obtidos em viagens a trabalho, Magrone exemplifica que os graduados em direito têm a possibilidade de prestar concurso para qualquer região do país, enquanto os médicos recém-formados costumam exercer a profissão principalmente no interior mineiro. A atuação dos engenheiros, geralmente, ultrapassa os limites juiz-foranos, enquanto a licenciatura exerce uma função mais regional. “Ao se criar um curso na UFJF não se pode olhar apenas para o mercado local. Por ser uma universidade federal, é preciso formar mão de obra para qualquer lugar do país.” Para ele, a contribuição mais decisiva da instituição para a cidade hoje não é a formação de mão de obra em nível superior, mas a pesquisa, de forma que a produção do conhecimento interfira no desenvolvimento regional.

O reitor do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES), Carlos Henrique Paixão, avalia que “um número considerável” dos formandos fica na cidade. Na instituição, o volume de graduados chega a 500 profissionais em 13 cursos por ano. O reitor destaca a fixação, principalmente, de empreendedores e profissionais liberais. “A cidade é carente de oferta em muitos segmentos. É uma realidade, infelizmente lidamos com isso. O nosso propósito é capacitar o aluno na melhor condição para que ele esteja apto a enfrentar os desafios regionais e globais.” Paixão, no entanto, identifica “demandas latentes” na cidade, como fonoaudiologia e licenciatura em letras, com baixa procura nos cursos, apesar de intensa demanda pelo mercado.

Para o coordenador do Centro de Relações Institucionais da Faculdade Machado Sobrinho, Idílio José Delgado Júnior, Juiz de Fora importa estudantes do ensino médio e superior e exporta mão de obra qualificada. A estimativa é que 60% dos empregos gerados aqui são para trabalhadores com até o ensino fundamental completo e 30% para pessoas com nível médio. O restante (10%) é direcionado a profissionais com curso superior, completo ou incompleto. “Considerando o percentual de empregos destinados para pessoas com ensino superior em contraponto ao número de formandos conclui-se que a cidade não consegue absorver a totalidade dos egressos das instituições de ensino superior, levando-os a procurarem oportunidades em outros lugares.” Por ano, a instituição forma entre 170 e 200 alunos.

A saída é empreender

Se o mercado não comporta toda a mão de obra gerada, uma alternativa é empreender, avalia o analista do Sebrae em Juiz de Fora, Gustavo Magalhães. Segundo ele, o perfil do município como polo regional favorece a atuação do profissional liberal e cria oportunidades para aqueles que, independente da formação, querem abrir o negócio próprio, como franquias e startups. Apesar de a cidade oferecer essa condição mercadológica, o analista adverte que é preciso avaliar o tipo de produto ou serviço oferecidos, para dimensionar a demanda e a efetividade do negócio.

O que vale na escolha de onde atuar

Para o especialista em recursos humanos e carreiras Marcos Vono, a escolha sobre qual município, estado ou país atuar deve considerar uma série de variáveis, como o impacto da mudança para os outros papéis do indivíduo (filhos, família e amigos) e o retorno sobre o investimento na formação profissional e na troca de endereço. Se o objetivo é a carreira internacional, deve-se considerar a cultura e a legislação trabalhistas locais, orienta. Para Vono, não é o tamanho da cidade que determina a qualidade das oportunidades. “A melhor cidade para se atuar é aquela com uma oportunidade de trabalho que permita ao profissional atuar no melhor de sua performance, crescer e desenvolver competências e, por fim, que impacte negativamente o mínimo possível nos outros papéis do indivíduo.”

Conforme o especialista, nenhuma carreira é sinônimo de garantia de atuação, mesmo em municípios de maior porte. “Todas as carreiras têm problemas para atuar em economias frágeis. Sendo assim, a escolha da cidade ou país deve considerar o momento econômico da região e o nível de desenvolvimento do país.” Além da profissão escolhida, há características que facilitam a atuação profissional, independente do mercado escolhido. São elas: qualidade da formação, capacidade de trabalhar em equipes, fluência em outros idiomas, foco em resultados e liderança, enumera o especialista.