Crise reduz vagas em concursos


Por Fabíola Costa

01/03/2015 às 06h00- Atualizada 03/03/2015 às 16h05

Nos cursinhos, preparação segue na expectativa de novas seleções

Nos cursinhos, preparação segue na expectativa de novas seleções

Em época de economia desaquecida, retração na criação de empregos e aumento do risco de demissões, a estabilidade e a remuneração acima da média oferecidas no serviço público são atrativos a mais para disputar um concurso. O ano de 2015 começou com um paradoxo. Apesar de o número de vagas autorizadas pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão ter caído drasticamente (81%) neste início de ano ante igual período de 2014, a expectativa do setor é a de que os concursos esperados para o ano passado – postergados em função das eleições e da Copa do Mundo – saiam do papel, revertendo o quadro e ampliando as oportunidades para quem está com o estudo em dia.

Conforme o Ministério do Planejamento, no ano passado foram autorizados 57 concursos e/ou provimentos entre janeiro e fevereiro (até o dia 19) . No mesmo período deste ano, foram apenas quatro, sendo dois concursos e dois provimentos (ver quadro). Em 2014, foram 4.136 vagas. Este ano, 787 no mesmo período analisado. A pasta não divulgou quantos pedidos estão em análise, mas afirmou que as avaliações levam em conta as prioridades do Governo, as necessidades de contratação de cada órgão e as condições orçamentárias e fiscais.

Questionado pela Tribuna se há alguma orientação ou tendência no sentido de reduzir as aprovações este ano, o Planejamento, por meio de sua assessoria, afirmou que “as autorizações para a realização de concursos e nomeações têm impacto orçamentário e fiscal e, portanto, estão inseridas no contexto de ajustes em curso”. Esta semana, o Governo estipulou limite de gastos, por órgão público, até abril. O objetivo é dar previsibilidade de quanto cada setor pode gastar sem a aprovação do Orçamento de 2015 pelo Congresso. A esperada aprovação da proposta orçamentária deve ser concluída pelos parlamentares na próxima semana.

Expectativa

A Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos Públicos (Anpac) calcula em 215 mil as oportunidades a serem abertas este ano nas esferas municipal, estadual e federal, órgãos do Poder Judiciário, Executivo e Legislativo, além de bancos públicos e autarquias. Conforme a Anpac, os concursos em andamento já oferecem aproximadamente 60 mil vagas. A seleção da Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais, com mais de 13 mil vagas nos níveis médio e superior, foi citada pela entidade. Neste caso, as inscrições estão encerradas.

“Os concursos mais esperados pelos concurseiros estão previstos para 2015” defende o presidente da Anpac, Marco Antônio Araújo Júnior. Na sua opinião, mesmo com a crise financeira, que deveria representar redução nas contratações, diversos concursos terão de ser abertos para permitir o funcionamento dos órgãos públicos e o atendimento à população. “Temos muitas vagas em aberto e ainda teremos mais. Há inúmeros servidores que estão em fase de aposentadoria”.

Para o presidente, o candidato que está se preparando há mais tempo tem suas chances aumentadas, mas quem pretende começar agora também pode recuperar o tempo perdido. “O candidato que já prestou algum concurso ou vem estudando há mais tempo tem uma chance maior de ser aprovado, obviamente. Entretanto, nunca é tarde para começar a se preparar.”

Identificar a carreira desejada é uma das dicas dadas pela entidade. “Não se escolhe o concurso pelo salário, nem pelo status do cargo. Deve haver uma identificação da atividade que será realizada com o propósito de vida do candidato. A vocação deve falar mais alto na hora de escolher a carreira e prestar o concurso.” Outra recomendação é estudar para uma área e não um concurso específico. “Candidatos que prestam concursos para muitas carreiras ou para carreiras muito distintas acabam perdendo o foco.” Analisar o edital de forma minuciosa é indispensável, assim como estabelecer uma rotina de estudo e segui-la, com disciplina. Cuidar da saúde, mantendo a alimentação equilibrada e o sono em dia são fatores que ajudam na concentração. “É sempre importante que o candidato realize atividades físicas e mantenha sua rotina social. Afastar-se totalmente da família e dos amigos não é indicado.”

Candidatos lotam salas de aula

O parecer cauteloso do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão contrasta com as salas de aula cheias, a abertura de novas turmas nos cursos preparatórios e o otimismo prevalente no setor em Juiz de Fora. No Curso Logos, a aposta é de um 2015 aquecido. Segundo a diretora Adriane Civinelli, após a Copa do Mundo, houve redução na procura pelos concursos influenciada pelas eleições. A expectativa dela, no entanto, é que este ano seja melhor do que o anterior, em função do aumento progressivo das vagas públicas, ano a ano, e da necessidade de reposição de aposentadorias e terceirizações.

Segundo a diretora, a demanda está elevada, e a possibilidade de realização de concursos regionais influenciam nesta procura. Ela citou o concurso da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) para o Hospital Universitário (HU), cuja expectativa é de mais 1.500 vagas nas áreas de saúde e administrativa, e o da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), com previsão de 170 vagas, que estava previsto para o ano passado. Conforme a PJF, o processo de contratação da organizadora está em curso. Não foi divulgada data para publicação do edital, em função dos prazos legais a serem cumpridos.

A expectativa do sócio e diretor do Executivo Concursos, Antonino Bellini Júnior, é que a maior parte dos editais previstos para este ano seja publicada no primeiro semestre. Na sua opinião, 2014 foi atípico, com poucos concursos abertos. Além da Copa, ele considera que a máquina pública estava direcionada para o cenário político. “Apesar de ser permitida a publicação de editais em ano eleitoral, os concursos ficaram represados, transferindo as necessidades para 2015 e 2016.” No Executivo, a procura também aumentou. Dentre tantos concursos esperados (ver quadro), Antonino avalia que o interesse do candidato por determinada seleção é influenciada por fatores como salário, número de vagas, cidade de lotação, afinidade com as características do serviço, realização pessoal e família. “Sempre orientamos nossos alunos a aproveitarem as oportunidades no momento em que elas se apresentam.”

A diretora da Unidade LFG Juiz de Fora, Jane Gouvêa Sotto Maior, avalia que, normalmente, a maioria dos candidatos opta pelas esferas federal ou estadual, por serem carreiras mais promissoras. “Nos concursos federais existe a possibilidade de o aprovado ser remanejado para seu estado de origem, caso tenha interesse”, destaca.

Já na opinião do coordenador do Plenarius – Cursos Jurídicos Integrados, Zenilton Fonseca Barros, com a situação econômica conturbada, os concursos já autorizados ou os que tramitam em caráter de urgência devem sair. O mesmo não se pode dizer em relação àqueles cuja necessidade de contratação não é tão imediata, avalia. “Não será um ano repleto de concursos.” Zenilton adverte, no entanto, que este cenário não deve desanimar o concurseiro. Ao contrário. “Ele deve se preparar bem – e o ano inteiro – para aumentar as chances de aprovação.” Para o coordenador, se o objetivo é o nível médio, o candidato deve focar o estudo em cinco matérias: português, matemática e informática, além de direito constitucional e administrativo. “Essas cinco matérias são o ‘pentapé'”, brinca.

Curso gratuito

Em Juiz de Fora, a procura pelo curso preparatório gratuito oferecido pela Prefeitura representa quase o triplo das vagas ofertadas pelo Município. Conforme a coordenação do Curso Preparatório para Concursos (CPC) II, a procura chega a 500 candidatos para as até 180 vagas oferecidas por ano. As inscrições para 2015 foram encerradas na sexta-feira.