No Arquivo Correria, Élida de Lima Lincoln registra o que a cidade não vê
Ex-moradora do Parque Burnier, fotógrafa transforma luto, cotidiano e vulnerabilidades sociais em imagem

Quando as chuvas atingiram o Bairro Parque Burnier em fevereiro, a fotógrafa Élida de Lima Lincoln, 28, estava em casa. Tinha pago o aluguel do imóvel em que morava há um dia. Sua morada não foi diretamente atingida, mas precisou ser evacuada nas datas seguintes à tragédia em Juiz de Fora. Enquanto isso não acontecia, ela trabalhava com o que tinha: uma câmera do celular, que usa desde 2019 como uma válvula de escape e uma forma de registrar vulnerabilidades sociais que atingem as comunidades. “Até pra eu poder ir em uma padaria teria que passar pelos lugares do ocorrido. Como trabalho com o urbano, aquilo me impactou, e fui fotografando”, relembra ela, sobre o cenário que deixou 22 mortos no local. Esse registro foi divulgado no Arquivo Correria, página que tem no Instagram para exibir seu trabalho enquanto fotógrafa independente, e que começou como válvula de escape para enfrentar o adoecimento da mãe.

A fotografia de um homem encarando os destroços enquanto se equilibra em meio a escombros circulou pela cidade, e mais pessoas conheceram o seu trabalho. A legenda cita que documentar também é um ato de responsabilidade, “não para expor dor, mas para que ela não seja ignorada”. Muito antes das chuvas abalarem o bairro, já era esse seu objetivo com as fotografias do perfil, que mostram pessoas em diferentes cenas urbanas: trabalhando, no transporte público e também em momentos de descontração. A ideia era mesmo, explica, “arquivar” a “correria” da vida nas cidades. “Gosto de mostrar o que normalmente a gente não tem tempo de olhar no cotidiano, para o que tá acontecendo ao nosso redor, justamente pela correria. O meu propósito é mostrar às pessoas o que acontece no cotidiano delas mesmas: ela levanta, se arruma, acorda cedo pra trabalhar, pega o busão, chega cedo no serviço, sai e vai embora. Isso chega a ser automático. E do lado de fora, o mundo tá acontecendo”, diz.
A ideia veio justamente em um momento de grande dificuldade em sua vida. “Eu sou filha única e minha mãe adoeceu no finalzinho de 2018. Lidar com a situação foi um baque muito grande pra mim, ainda mais porque lido com a depressão desde muito nova”, conta. Naquela época, ela tinha um iPhone 6s e começou a registrar o que via, no bairro em que morava e nos que frequentava em Muriaé, cidade da Zona da Mata onde nasceu. “Consegui tanto expelir o que estava sentindo naquela época quanto demonstrar para as pessoas o meu olhar”, conta. Para fazer isso, Élida explica que conversa com as pessoas em situação de vulnerabilidade sobre o que é o seu trabalho e como funciona, pedindo a autorização para as fotografarem. Mas também há muitos registros que são feitos de forma a não identificar os indivíduos, até porque, como explica, as pessoas em situação de rua criam suas defesas em relação à exposição. Ela também aproveita recursos como a iluminação e os recortes para escolher o que quer mostrar e o que não vai revelar.
Até porque, como explica, na fotografia urbana também acontece de uma foto ser clicada em um momento fugaz, que não se repetirá e que não pode ser posado, da mesma forma que registros são feitos e ela pode não vir a se encontrar com as pessoas novamente. Um exemplo é uma das primeiras fotografias que se orgulha de ter feito: um menino segurando duas pipas no Bairro Santa Terezinha, na sua cidade natal. Mas hoje, em Juiz de Fora, já com o modelo 11 da mesma marca, ela entende que esse trabalho encontrou outro público e também se ampliou: “Quando a pessoa tá conhecendo meu trabalho e eu falo que fotografo com o celular, todas as reações são as mesmas: ‘não acredito’, ‘não é possível’. O negócio é que não é o equipamento que faz a fotografia, mas o olhar.”
Fotografia em luto

O uso do preto e branco em suas fotografias surgiu, como ela explica, pelo luto que sofreu com a mãe, que faleceu no último ano, faltando apenas 5 dias para o Dia das Mães. Além desse uso, o perfil também tem como “assinatura” sempre trazer, ao lado das fotos, uma música de jazz ou soul. Élida conta que é muito fã de artistas como Coltrane e Salvanini, e que entende que essa melancolia combinava com os seus registros. Para além deles, ela também tem Jean-Michel Basquiat como uma referência de arte livre e feita a partir da comunidade.
A fotografia surgiu num momento em que ela precisava muito, e continua sendo algo que vai além de uma ocupação ou paixão — especialmente nos momentos em que precisou se afastar por demandas do trabalho ou em períodos de recaída da sua saúde mental. Atualmente, Élida mora com o marido e a renda dele atende os dois, enquanto ela busca formas de fazer com que sua arte encontre mais pessoas. “Depois de um momento muito delicado, em que eu poderia nem existir mais e nem o Arquivo Correria, eu prometi à minha mãe que ia cuidar da minha saúde e fotografaria por ela”, relembra.
A força da comunidade

Com o Arquivo Correria, Élida recebe o retorno de muitas pessoas sobre o seu trabalho — tanto através de comentários positivos quanto negativos. De um lado, estão pessoas que agradecem por ela mostrar uma realidade próxima e fazer uma denúncia de problemas sociais, enquanto de outro estão pessoas que se incomodam com a exposição dessas vulnerabilidades. “Será mesmo que eu não posso mostrar o que a gente vive?”, ela questiona.
Depois dos dias intensos acompanhando as chuvas que atingiram o Parque Burnier e buscando respostas para o que iria acontecer com em seguida, ela criou uma vaquinha on-line pedindo ajuda com os custos de uma mudança e com a procura de outro apartamento, diante da situação. Até que conseguiu ir para outro endereço, no Jardim Glória. Através da sua trajetória pessoal, mas principalmente percebendo como ocorreram as movimentações no bairro naquele dia e encontrando formas de registrar isso, ela sempre destaca que o que mais a impactou: não se refere à força da água, à velocidade com que os morros caíram ou o desespero que todos sentiram, mas “à união da comunidade” que percebeu.









