Livro resgata histórias e paisagens do berço do Rio Paraibuna em Antônio Carlos

Obra reúne expedições, relatos de moradores e registros inéditos para contar a história das origens do rio sob uma perspectiva cultural e ambiental 


Por Nayara Zanetti

26/06/2026 às 06h00

Livro resgata histórias e paisagens do berço do Rio Paraibuna em Antônio Carlos
Livro investiga as origens do Rio Paraibuna, em Antônio Carlos (Foto: Divulgação)

Uma placa discreta às margens da MG-135, em Antônio Carlos, indicando a nascente do Rio Paraibuna, foi o ponto de partida para uma investigação sobre a formação e as origens desse importante curso d’água da Zona da Mata mineira. Quase despercebida por quem passa pela rodovia, ela despertou a curiosidade dos pesquisadores André Assis e Ingrid Faria. Intrigados com a ideia de que um rio de tamanha relevância para Minas Gerais pudesse ter sua origem explicada por um único marco geográfico, eles decidiram aprofundar o olhar sobre o território e suas conexões hídricas. 

A partir dessa inquietação, os pesquisadores deram início a uma série de expedições pelo município de Antônio Carlos, percorrendo áreas de difícil acesso e acompanhando o traçado de córregos e nascentes que compõem a bacia do Paraibuna. O trabalho combinou observação direta da paisagem, registros fotográficos, imagens de satélite, voos de drone e a construção de um mapeamento próprio do território. A proposta é incentivar o desenvolvimento de políticas de proteção e o fortalecimento de um turismo pedagógico e sustentável na região. 

Ao longo do percurso, a investigação passou a incorporar também a escuta de moradores da região, que contribuíram com relatos, memórias e conhecimentos acumulados ao longo de gerações. Essas informações ajudaram a identificar caminhos, referências locais e pontos de interesse que não aparecem em registros oficiais, ampliando a compreensão sobre a formação do rio para além da leitura cartográfica tradicional. Resultado disso, é o livro “Paraibuna vivo”, escrito nesse processo pelos pesquisadores e lançado em abril deste ano.

Livro resgata histórias e paisagens do berço do Rio Paraibuna em Antônio Carlos
Participação dos moradores contribuiu para identificar diversos pontos de nascentes (Foto: Divulgação)

“Quando decidimos ir a campo, percebemos que a água não obedece a placas: o Paraibuna não nasce de um ponto só, mas de uma rede fascinante e complexa de veias ocultas. Ao ver esse quebra-cabeça geográfico e humano se montar diante de nós, entendemos que estávamos diante de uma história inédita que merecia ser eternizada em um livro”, conta Assis. 

Uma das descobertas do livro foi a Cachoeira Chuveirinho, apontada como a maior queda livre contínua em Antônio Carlos, com cerca de 44 metros de altura. O acesso ao local exigiu diversas tentativas e longas caminhadas por trilhas de difícil passagem, com trechos de mata fechada e rochas escorregadias. Segundo os pesquisadores, a chegada ao ponto só foi possível com apoio de proprietários rurais da região. 

“O Paraibuna é o personagem central que moldou a economia e o desenvolvimento da nossa região; ele ditou o fluxo do ouro no período colonial, viu nascer a Estrada União e Indústria e iluminou a pioneira Usina de Marmelos. Natureza e cultura correm juntas no mesmo leito. Quando passamos a enxergar o rio apenas como um recurso que sai de forma fria pela torneira, nós nos desconectamos do nosso território. Ao resgatar as ruínas de antigas fazendas coloniais e as histórias das rotas de caminhões de carvão, transformamos a paisagem natural em um patrimônio cultural vivo que pulsa na identidade do nosso povo”, destaca Assis. 

Saberes que ajudam a mapear o Rio Paraibuna 

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Aos 81 anos, João Alberto relembrou detalhes da história do rio ao longo do caminho até a fonte mais alta (Foto: Divulgação)

De acordo com ele, a combinação entre tecnologia, campo e saber popular foi fundamental para traçar a história da origem do Paraibuna. “A tecnologia nos dava os alvos geográficos, mas a sabedoria dos moradores locais foi a chave que abriu as porteiras do projeto.” Durante as expedições, relatos de moradores ajudaram a contextualizar áreas históricas do município e a compreender a ocupação do território ao longo do tempo. 

Assis afirma que a convivência com moradores também foi fundamental para a identificação de pontos de nascente. Em uma das situações descritas na obra, um morador de 81 anos guiou a equipe até a fonte mais alta do rio, compartilhando histórias acumuladas ao longo de décadas de observação da paisagem. “O conhecimento ancestral dessas pessoas é, sem dúvida, o sistema de preservação ambiental mais eficiente que existe.” 

Com a ajuda da população, o livro propõe um novo olhar sobre Antônio Carlos como guardião do berço do Rio Paraibuna. O pesquisador explica que a maior parte da produção acadêmica e cultural sobre o rio se concentra “rio abaixo”, o que acaba deixando o município de origem em segundo plano na narrativa histórica. 

Para eles, a mudança de perspectiva — de “local da nascente” para “guardião do berçário” — fortalece a identidade e a autoestima da cidade. “Mostramos, com dados técnicos, que a água pura que brota aqui viaja quilômetros, alimenta o Rio Paraíba do Sul e, através do Sistema Guandu, garante a segurança hídrica de milhões de pessoas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Proteger o Paraibuna em Antônio Carlos deixa de ser um capricho ecológico municipal e passa a ser uma missão de responsabilidade nacional.” 

Paraibuna Vivo – A expedição que revelou a arquitetura invisível de um gigante é uma produção do projeto Tô em Antônio Carlos (Tô em AC) e está disponível gratuitamente em versão digital no site oficial. O projeto também pode ser acompanhado pelo Instagram, onde estão disponíveis mais informações sobre a pesquisa.