Primeiro longa-metragem sobre compositor Ary Barroso chega a Juiz de Fora
Filmado em Cataguases e Ubá, documentário de André Weller é exibido nesta quinta-feira no Cine-Theatro Central

“Falar de Ary Barroso é falar de tudo.” A frase do diretor André Weller resume bem o que percebeu ao fazer seu longa “Ary” (2025), filmado em Cataguases e Ubá: o compositor de “Aquarela do Brasil” teve uma carreira diversa e exprimia na própria vida a capacidade de falar sobre assuntos múltiplos. O músico teve uma carreira sólida na rádio, passou pela televisão, pelo teatro de revista e pelo cinema, além de ter sido cronista e até vereador do Rio de Janeiro. Também teve destaque internacional e foi um dos grandes responsáveis por formar o que se entende hoje como identidade cultural brasileira. Mas, 62 anos após a sua morte, esse é o primeiro longa que trata da vida do artista — mostrando uma lacuna no reconhecimento da sua presença e no contato da sua obra com as novas gerações. O filme será exibido nesta quinta-feira (22) às 19h como parte do Festival Revela, no Cine-Theatro Central, com a presença do diretor.

O caminho de André Weller até Ary Barroso passou pela sua própria formação, que foi na Música e mais tarde na Direção de Arte do cinema. Ele começou a trabalhar com obras de músicos brasileiros, e percebeu a potência do artista. Quando lhe perguntam sobre a escolha do personagem Ary Barroso, então, ele prefere responder citando os destaques do compositor: “Além de ter feito mais de 400 músicas, entre ‘Isto aqui, o que é?’, ‘No rancho fundo’, ‘Na baixa do sapateiro’ e ‘No tabuleiro da baiana’, ele também foi um locutor esportivo marcante, o público queria escutá-lo independente do time que estivesse jogando. Foi um grande cronista com uma coluna no jornal ‘A noite’ e o primeiro brasileiro indicado ao Oscar, em 1943. O primeiro brasileiro que chegou a um milhão de execuções nas rádios americanas e foi contratado do Walt Disney. Então, por que não Ary Barroso, já que ele tem essa importância tão grande para a nossa identidade brasileira e foi um grande criador?”
Entendendo a riqueza que o personagem tinha, ele conta que teve ainda mais clareza sobre a importância de fazer o filme quando percebeu que nenhum longa tinha sido feito antes sobre Ary Barroso. A ideia, então, passou a ser não só relembrar esse personagem para quem vivenciou a época, mas principalmente apresentá-lo a novas gerações, que podem ainda não tê-lo conhecido por alguns motivos: a dificuldade de material audiovisual acessível, o distanciamento que o personagem que fazia tinha do público e a própria personalidade mais tímida do compositor. “O que mais me falam depois da sessão é que não sabiam que ele tinha feito tudo isso. Então é muito bacana a gente saber mais desse personagem, ainda mais em uma época que estamos reconstruindo nossa identidade nacional e sendo reconhecido por isso, principalmente no cinema”, destaca André.
Apesar do personagem já ser muito famoso em vida, foram deixadas poucas imagens dele em movimento, já que participou da televisão antes do VT, e as imagens não eram guardadas. A produção inclusive apresenta algumas imagens de Ary Barroso pela primeira vez, graças a pesquisa no Instituto Moreira Salles (IMS). O que o diretor optou por fazer, então, foi usar as muitas entrevistas que ele deu na época para o processo de criação: junto delas, também foram usadas suas colunas e as cartas que enviava a amigos e familiares durante suas viagens. “Eu percebi que a narrativa do filme era do próprio Ary Barroso. Juntei esses materiais e o filme é todo narrado por ele, na primeira pessoa.” Essa ideia, como ele explica, mostrava que era um filme que precisava de fôlego para ser feito, já que são mais de 20 músicas apresentadas, com uma pesquisa editorial e fonográfica. O encontro com o polo audiovisual de Cataguases foi essencial para que conseguisse isso: “É um filme que eu sempre quis fazer, mas que o tamanho do palco desse filme fizesse jus ao personagem”.

Conversa ao pé do ouvido
Percebendo que a alma do filme era o texto do próprio Ary, o diretor percebeu outra lacuna: não podia usar a voz do compositor para narrar o filme. Mas disso fez um encontro entre dois gigantes da cultura brasileira. “Convidei um outro mineiro, dos rincões de Minas Gerais, que também veio para o Rio de Janeiro, foi para o rádio e explodiu na televisão, que é o Lima Duarte. Ele interpreta o Ary Barroso com o texto do Ary Barroso”, conta ele, que destaca a importância de um ator desse porte para interpretar essa voz em primeira pessoa. Dessa forma, o processo incluiu histórias engraçadas e curiosas, como a morte dos seus pais e o leito de morte do compositor.
O uso desse texto, então, proporcionou um encontro que quase aconteceu na vida real. “O texto do Ary é muito profundo, fala coisas muito profundas contando seus pensamentos, mas também é irônico e contém sutilezas. O Lima como testemunha ocular disso, porque ele é da época do Ary, ainda que mais novo, conhecia essa atmosfera e é um grande ator da nossa dramaturgia”, conta. Na hora de escolher o tom que deveria dar para a narração do personagem, André Weller orientou que o ator narrasse como uma “conversa ao pé do ouvido”. “A ideia era trazer pra perto esse personagem, que por uma série de situações está muito distante hoje em dia, apesar das suas músicas estarem muito vivas. Ele trouxe esse calor e afeto.”
Brasil brasileiro
O documentário “Ary” estreou no Festival do Rio e continua circulando pelo Brasil, em um momento que André também entende que faz todo sentido. A geração que o artista fez parte, tendo nascido em 1903, afinal, estava justamente pensando o Brasil. “Eram jovens que entenderam que o Brasil, com seu tamanho continental, seis biomas, gente do mundo inteiro e tantas culturas, era preciso criar uma imagem do país. Através da arte, eles criaram: o Dorival Caymmi com as canções praieiras, o Luiz Gonzaga o baião e o Ary com o samba exaltação. Eles foram criando códigos que identificavam os brasileiros a partir da sua cultura.”
Ary Barroso e Carmen Miranda foram muito responsáveis por vender um “Made in Brasil” fora do país, mas também é notável que o “Brasil brasileiro” foi se formando em suas letras. É isso que conecta a obra com o presente: “Hoje, estamos reconstruindo essa nossa identidade nacional. E estamos percebendo cada vez mais que quando a gente conta as nossas histórias, e da nossa maneira, somos reconhecidos por isso”.