
Em Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa escreve: “O real não está na saída nem na chegada. Ele se dispõe pra gente é no meio da travessia”. A fé necessária para se aventurar em uma jornada como essa é ideia conhecida pelos tropeiros que, durante décadas, cruzaram o Caminho do Comércio conduzindo bois, porcos, galinhas e queijos, para retornar pra casa com produtos como sal, azeite, vinho, vinagre, ferramentas e vidros. O trajeto foi aberto oficialmente em 1811 como alternativa à Estrada Real, com objetivo de alimentar a corte com produtos de consumo. Isso transformou o trajeto que vai de São João del Rei ao Rio de Janeiro, passando pelos distritos de Rio das Mortes e Cajuru em direção a Madre de Deus de Minas e chegando em cidades como Andrelândia e Bom Jardim de Minas — foi um marco no desenvolvimento do interior do estado e deixou características marcantes nos municípios. Este ano, um projeto de lei reconheceu essa mesma rota como um destino turístico de importante manifestação da cultura nacional, levando tantos outros, mais uma vez, a atravessarem o caminho em busca do real.
O reconhecimento da importância do Caminho do Comércio para o território mineiro veio através do projeto do deputado federal João Leite (PSDB), mas faz parte de um movimento de pesquisadores liderados pelo historiador Marcos Paulo Miranda, que resolveu estudar a relevância desse trecho para a região. Um dos integrantes do movimento é José Francisco Matos e Silva, conhecido como Chiquinho (MDB), prefeito de Bom Jardim de Minas. “O Caminho está no nosso coração há muito tempo. Sabíamos que existia e que passava pela nossa região pela tradição oral dos nossos avós e bisavós, que eram quase todos tropeiros”, conta. O caminho inclui, ainda em Minas, municípios como Arantina e Rio Preto, e ingressa no Rio de Janeiro por Valença, Rio das Flores, Vassouras, Miguel Pereira e Nova Iguaçu. As mercadorias, então, seguiam embarcadas até a Baía da Guanabara e chegavam à capital carioca.
O que o grupo de pesquisadores foi percebendo é que o caminho era responsável por muitas de suas características, como o acolhimento, que era necessário para o comércio acontecer. É isso que Chiquinho explica, acrescentando que os processos migratórios para o interior e a influência das culturas cigana, árabe e libanesa deixaram reflexos que podem ser vistos ainda hoje. Aliás, não só vistos: mas estudados. “Temos muito a aprender com o caminho do comércio, inclusive para entender a sociologia e a antropologia do nosso povo”, conta ele, acrescentando que já foram encontrados relatos, por exemplo, de 48 mil cabeças de gado saindo do interior de Minas passando em Bom Jardim de Minas e chegando no Rio, para se ter ideia da dimensão do trajeto.
Passaporte
A ideia com a rota, então, passou a ser valorizar essa história, como explica a Secretária de Cultura e Turismo de Andrelândia, Fernanda Campos. “Estamos felizes, porque é uma forma de atrair as pessoas para conhecerem nossa região e as cidades próximas”, conta ela, que também explica que, com o reconhecimento, passa a funcionar um “passaporte” do Caminho do Comércio, em que o turista pode recolher carimbos atestando sua passagem pelos destinos ao longo do trajeto. Para o bonjardinense, essa é também uma forma de fortalecer a economia das cidades: “Estamos lançando para ser um fator de desenvolvimento turístico, da mesma maneira que foi um fator de desenvolvimento social e econômico no século XIX e início do século XX”, explica.
Esta é a última matéria da série “Caminhos da Mantiqueira”, em que a Tribuna foi convidada pelo Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG) e da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge) para uma press trip e conferiu de perto as atrações dessas duas cidades.
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‘Uma cidade complementa a outra’
Se antes os tropeiros faziam a travessia em busca de sustento, hoje os turistas podem percorrer o mesmo caminho para experimentar iguarias da gastronomia mineira desenvolvida a partir do intercâmbio de mercadorias. É o caso da comida feita em fogão de lenha, dos queijos minas artesanais, doces de leite, torresmos, goiabada e até das cachaças. Ou mesmo de belezas naturais, como cachoeiras, patrimônios culturais e festas religiosas. Toda a cultura sertaneja da região, como explica Chiquinho, está relacionada a essa época. Por isso, é uma viagem que também convida a experimentar “a vida do interior” e ir encontrando em cada cidadezinha um diferencial. Como ele acrescenta: “O que tem em Andrelândia não tem aqui. O que tenho aqui completa lá. E isso fazemos também com São Vicente, Arantina, Rio Preto. Vamos criar um intercâmbio de relações como nos séculos passados, mas de maneira diferente”.
O projeto, atualmente, engloba as cidades que estão em Minas, mas já está se articulando com os municípios do Rio para aumentar o alcance por todo os 280 km de seu território. Além disso, o deputado federal Pedro Aihara (PRD) também apresentou um projeto que reconhece a rota como manifestação da cultura nacional. O que eles querem, como explica Chiquinho, é um fortalecimento conjunto. “Buscamos, com essa história, vender um turismo sustentável e que preserve o meio ambiente dessa região e o nosso patrimônio histórico”, conclui ele. As pesquisas, ainda, resultaram no livro “Caminho do Comércio: História e itinerário de uma rota oitocentista ligando Minas Gerais ao Rio de Janeiro”, escrito pelos historiadores Marcos Paulo de Souza Miranda e Rodrigo Magalhães, que aprofunda ainda mais a pesquisa do Caminho do Comércio através de documentos e relatos, abordando desde os seus primórdios até os dias atuais.
