Compromisso com a memória


Por MARISA LOURES

21/03/2013 às 07h00

Em texto de abertura do livro de fotografias "Tribuna de Minas 30 anos", lançado em setembro de 2011, o diretor-presidente Juracy Neves reassumiu o compromisso, assumido na edição número zero, publicada em 1981, de "registrar não só a história da cidade, mas também de participar do ciclo de mudanças ora em curso". Entendendo que "não se eximir de sua função social, ou seja, da difusão de valores morais, culturais e políticos que reforcem a coesão nacional e a solidez do pacto social", conforme escrito no primeiro editorial, é, também, colaborar com a preservação da memória de Juiz de Fora, o jornal acaba de dar mais um passo nesse direcionamento. Além da Biblioteca Municipal Murilo Mendes, a Universidade Federal de Juiz de Fora passa a contar agora com todo o acervo físico da Tribuna de Minas.

Em cerimônia realizada ontem na Tribuna, com a presença do reitor Henrique Duque e do pró-reitor de Cultura Gerson Guedes, além do editor geral do jornal, Paulo César Magella, Juracy assinou o termo que oficializa o envio de todo o arquivo, encaminhado para a UFJF na semana passada. "É um registro de tudo o que aconteceu na cidade durante esses 31 anos. Como não dispomos de espaço para receber estudiosos que dependem do arquivo para pesquisas, a universidade é o local mais indicado para isso. É preciso chamar a atenção dos estudantes para a conservação da nossa história", diz Juracy Neves. Ele confirmou também que o jornal manterá seu acervo numa plataforma digital.

Henrique Duque destaca a importância da iniciativa para a comunidade acadêmica e garante que o material estará disponível ao público até o início do segundo semestre de 2013. A espera se deve às obras de reestruturação da Biblioteca Central, que servirá de abrigo ao acervo. "Recebemos a doação de coração aberto. Com certeza, será de grande valia no ensino, pesquisa e extensão. Nós temos condições de reconstituir algum problema devido ao mau manuseio, o que garantirá vida longa ao material", assegura o reitor, adiantando em primeira mão que, para o aniversário da cidade, em maio, o juiz-forano contará com a abertura do acervo literário do jornalista Dormevilly Nóbrega, morto em abril de 2003. Gerson Guedes, que coordenou o processo, também complementa que a doação vem ao encontro da proposta de aproximar a comunidade da instituição. "É um arquivo muito especial. É mais um motivo para juiz-foranos, em especial estudantes e professores, irem à universidade. Relato mais fidedigno que este, construído cotidianamente, não existe. O material está em ótima conservação", reforça Gerson Guedes.

 

Fonte de pesquisa

Nestas mais de três décadas, não foram poucos os acontecimentos marcantes e, para alguns, desconhecidos, captados pelo faro aguçado dos repórteres e fotógrafos da Tribuna. Com 31 anos de história, seria leviano eleger um ou outro momento como mais importante, fechando ou limitando caminhos de busca no acervo que hoje está sob responsabilidade da UFJF. Contudo, é dever do jornal jogar luzes sobre alguns fatos que poderiam servir de base para estudos nas áreas de cultura, esporte, saúde, educação, economia, polícia, entre outras.

Se as pesquisas apontarem para a década de 1980, entre muitas reportagens, chamam atenção a inauguração do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, que foi aberto mantendo as características da antiga fábrica para abrigar o mercado municipal, galerias e galpões, em 1986; e a despedida do Zico do futebol em partida no Estádio Municipal, onde o Flamengo goleou o Fluminense por 5 x 0, no ano de 1989; Já em 1990, a Tribuna estava entre os veículos de comunicação que repercutiram o sequestro mais longo da história de Juiz de Fora. Depois de manterem encarcerados quatro militares, cinco detentos de Contagem renderam uma família por 12 dias, na Rua das Margaridas, no Bairro Aeroporto. Antes de ser entregue à polícia, um dos reféns foi morto. No mesmo período, a queda de uma aeronave que vinha do Rio de Janeiro, transportando dinheiro para pagar funcionários públicos estaduais, matando duas pessoas, o acampamento de famílias às margens da BR-040, no canteiro de obras da Mercedes Benz em busca de emprego, e a aglomeração, no Parque Halfeld, de pessoas que queriam acompanhar, a cada instante, a votação para abertura do processo de impeachment de Fernando Collor, não saíram ilesos aos profissionais da Tribuna.

Outro momento marcante foi a reinauguração do Cine-Theatro Central, em 1996: 2.300 convidados puderam conferir o resultado da recuperação do teatro de 1929, que tem arquitetura de Rafael Arcuri e pinturas de Angelo Biggi, ao som da Orquestra Sinfônica Brasileira. Direcionando as buscas para os anos 2000, o arquivo doado também compreende as séries de reportagens que compõem o "Dossiê Santa Casa"- conjunto de 50 matérias que revelou a crise financeira do hospital, cuja dívida ultrapassava R$ 18 milhões, levando à queda da diretoria e renúncia do provedor. Bem mais próximo, em 2008, a Tribuna registrou a prisão de Carlos Alberto Bejani e mais 15 prefeitos pela Polícia Federal, na Operação Pasárgada, e a renúncia de Vicente de Paula Oliveira (Vicentão) do cargo de vereador, após o jornal ter apontado ligação entre o parlamentar e a Koji empreendimentos.

"Muita coisa ficou de fora do livro por falta de espaço. O acervo que foi para a universidade é ainda mais rico por não ser só um recorte", comenta o editor de fotografia e responsável pela pesquisa e edição fotográfica do livro "Tribuna de Minas 30 anos", Roberto Fulgêncio.

Paralelamente à pesquisa acerca da memória do município, os grossos volumes que guardam os 31 anos de cobertura também servem como base de estudo para a evolução pela qual passou a linguagem jornalística. Até meados da década de 1990, o que se vê são frutos de um trabalho quase artesanal. No lugar das cores, somente preto e branco. "Para o estudante de jornalismo, é uma fonte farta de conhecimento, pois mostra as transformações do ponto de vista gráfico e de estilo. Da fundação até hoje, houve um salto gigantesco nesse sentido", observa Juracy Neves.

"As mudanças são nítidas. O que fica não é só a lembrança que o texto traz. São cliques que demonstram até mesmo a mudança da qualidade dos equipamentos e a maneira de se trabalhar o olhar", comenta Fulgêncio. "A meninada hoje só quer saber de internet. O material físico guarda detalhes que as mídias digitais não oferecem. É fácil enxergar que a maneira de tratar conteúdo e imagem mudou", enfatiza Gerson Guedes.