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Como fazer da palavra um lugar?

livro de artista
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Josimar Freire transita entre as formas de artes e os espaços de circulação para que seu trabalho chegue a mais pessoas (foto: João Paulo Souza/Divulgação)
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As histórias podem ser contadas de várias formas. O livro como suporte, parte da história, é um caminho. O livro como objeto na estante é outro. Nesta terceira montagem da Sala da Casa, a pluralidade do conceito livro de artista fica escancarada. O espaço, que reúne obras de artistas de várias partes do mundo, todos com os olhares voltados a essa forma de fazer, dessa vez não tem artista único na programação, que teve início no dia 27 de janeiro e vai até o dia 24 de fevereiro. A casa expõe as diversas formas que os livros de artista permitem, sempre usando o livro como parte da maneira de contar história, inclusive por sua materialidade.

Agora, a sala já parece outra. Uma “passada de olho” não seria suficiente para penetrar nas obras dos artistas selecionados pela curadora Mariana Bretas. É necessário parar, ler cada livro. Alguns, inclusive, são grandes: precisam de tempo. Outros, são pequenos zines (pequenas revistas dobráveis): precisam de delicadeza. A indicação é passar uma tarde visitando cada parte, ou ir vários dias. Entre esses tantos, estão os do artista visual juiz-forano Josimar Freire. Apenas os impressos, já que sua produção vai além de qualquer papel, caneta, câmera, som ou parede. “Eu tenho um livro de artista, um livro de estudo, duas revistas, e mais um monte para sair.”

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Na Sala da Casa, Josimar expõe três de seus trabalhos. Ele começou a fazer livro de artista antes mesmo de saber o que era, ainda na infância. O que tem nessa montagem é processo de maturação. Um papel pardo dobrável guarda duas folhas A3 com oito pinturas divididas pelas páginas. O nome é “Grave # 1”. Com nanquim, ele faz linhas contínuas no papel que fazem referência aos significados da palavra “grave” – significados esses políticos, sonoros e visuais. Esse faz parte de uma série que não se restringe ao livro de artista, ocupando também outros espaços. Josimar afirma ser essa a sua vontade: estar em vários lugares e, por que não, ao mesmo tempo. “Eu tenho necessidade de comunicar. De veicular as coisas que eu faço.” Como forma de ampliar o acesso, ele também produz vídeos, assim como vez com esse livro de artista, capturando os processos de fazer. Eles estão disponíveis no YouTube de Josimar.

Uma outra publicação é como uma revista, e tem o nome de “Texto simples”. Sua intenção com ele é explorar a tipografia. Josimar faz da palavra uma pintura. Não como um designer. Mas, sim, como um pintor. É uma pesquisa que ele, em momento algum, associa à academia, somente a sua curiosidade em transitar entre vários formatos, ainda que no fundo tudo dialogue e converse com o mundo, como ele diz, “skatavel” (do skate), desde suas pesquisas musicais – já que ele é também DJ – às intervenções artísticas.

Também em formato de revista, “Colapso”, Josimar diz que fez uma espécie de diário da realidade política, pegando fragmentos do que via na mídia e transformando em uma narrativa das citações, também mexendo com tipografias e formas das palavras. O final, de acordo com ele, é, ao contrário do começo, é positivo, “para que a gente não perca as esperanças”. Como ele sempre tem vontade de fazer circular sua produção, com esse ele fez uma bandeira com a palavra “colapso” e a levou para a feira da Avenida Brasil, em um domingo próximo às eleições municipais. O resultado também está em vídeo.

Parte do trabalho “Colapso”, de Josimar (foto: Divulgação)

O nó do simples

Em seu trabalho, Josimar diz mostrar o conflito, um nó, mas através do simples, da escrita direta. “Eu faço o simples não ser simples, mostrar que tudo tem um conflito.” Com atenção à rua, principalmente por ele ter relações com os muros, pela pintura, e com os passeios, pelo skate, ele capta as transformações e os significados das palavras, e usa isso como instrumento de criação, a partir do banal e do cotidiano. “Tudo faz parte do cotidiano e o livro capta essa realidade e transpõe para uma nova realidade e narrativa”, ele acredita. Sobre isso, Mariana, a curadora, questiona o lugar da palavra na própria cidade, já que ela é quase onipresente, e qual é o impacto dela tanto aos desatentos quanto àqueles que a transforma. O próprio leitor, seja ele qual for, para ela não é mero espectador. O livro é usado. “Exige participação ativa”, ela diz.

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Como fazer da palavra um lugar é um outro questionamento. Por mais que o livro de artista seja o foco, é a palavra que ganha destaque em suas formas de dizer e dialogar. Além de poder passar pelos livros e manusear cada um deles – o livro de artista precisa do tato da textura e do passar as folhas -, a Sala da Casa também apresenta a videoperformance da artista Kátia Maciel, “Autobiografia”, feita para ver em looping. Nele, ela percorre por uma estante e são os livros que a sustentam. Além dele, tem também o “Via”, em que ela caminha pela mesma estante e transita entre os títulos. Ao fundo, como trilha para passear entre as obras, uma gravação com a voz de Rosane Preciosa lendo alguns dos poemas da Kátia presente no livro “Slides”.

Pela primeira vez, Sala da Casa recebe livros de artista de artistas de vários lugares do mundo (foto: Mariana Bretas/Divulgação)

Serviço

A Sala da Casa fica na Rua Oswaldo Aranha 163, no São Mateus, e funciona de quarta a sexta-feira, de 15h a 19h. Com exceção dos dias 16 de fevereiro e 2 e 16 de março, que o espaço fecha às 18h.

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