Kamisa 10 aposta no clima de Copa do Mundo em novo projeto
Em entrevista à Tribuna, Angelino fala sobre identidade, expansão e a aposta em ‘Razão e perdão’

Entre mudanças na formação e um novo projeto em circulação, o Kamisa 10 chega a mais um momento de virada na carreira. Sob o comando de Angelino, o grupo goiano lançou o audiovisual “Hoje tem folga” na última quinta-feira (2), em um trabalho temático inspirado na Copa do Mundo e pensado para entrar no clima do torneio, que começa em junho.
Formado em Goiânia, em 2014, o K10 ganhou projeção nacional e consolidou espaço no pagode com faixas como “Lance livre”, “Pendências” e “Você me usava”, construindo uma trajetória marcada por repertório popular e forte alcance nas plataformas digitais, somando dois bilhões de streams.
No novo trabalho, o grupo reúne 20 faixas entre releituras, medleys e inéditas, mas o principal destaque é “Razão e perdão”, escolhida como foco do lançamento e aposta central deste novo momento.
Confira a entrevista completa com o Kamisa 10
Tribuna: “Hoje tem folga” já é um projeto conhecido do público, mas essa nova edição chega em um momento de consolidação do Kamisa 10 no cenário nacional. De que forma esse lançamento dialoga com a fase atual da carreira de vocês – mais como reafirmação de identidade ou como um movimento de expansão estética e de público?
Angelino: É um pouco dos dois. Tem uma reafirmação muito forte da minha identidade, porque o “Hoje tem folga” já virou uma marca do K10, algo que o público reconhece de cara. Mas ao mesmo tempo, eu vivo um momento de expansão da carreira, seja no som, na estética ou de público mesmo. É como se eu estivesse reforçando minha essência, mas trazendo novidades também.
O projeto assume uma atmosfera inspirada no clima de Copa do Mundo, que carrega elementos de celebração coletiva, pertencimento e emoção compartilhada. Como vocês traduziram esse imaginário para a linguagem do pagode – tanto na escolha do repertório quanto na construção do audiovisual e da performance?
A Copa tem esse poder de unir todo mundo, né? É emoção coletiva, é energia, é todo mundo cantando junto, e o pagode também tem muito isso. Então eu trouxe essa sensação de celebração, de fazer parte de algo maior. No repertório, escolhi músicas que despertam esse sentimento, e no audiovisual trabalhamos essa estética de festa, de união. A performance também veio mais voltada pra conexão com o público, pra esse clima de roda, de galera junto.
O Kamisa 10 transita entre o romantismo tradicional do pagode, uma leveza mais contemporânea e um swing muito característico do grupo. Quais são os critérios musicais e até intuitivos que vocês utilizam para equilibrar esses elementos sem diluir a identidade que o público já reconhece?
Isso vem muito de feeling, mas também de respeito à nossa essência. Eu nunca abro mão da base do pagode, mas também estou conectado com o presente, com novas sonoridades. O equilíbrio vem de não forçar nada. Quando a música pede algo mais moderno, eu vou; quando pede algo mais raiz, eu respeito. O principal critério é sempre: isso ainda soa como K10?
O repertório reúne 20 faixas, entre releituras, medleys e músicas inéditas, o que sugere não só variedade, mas também uma construção de narrativa ao longo do álbum. Como foi o processo de curadoria dessas músicas e que tipo de “história” ou percurso emocional vocês quiseram propor ao ouvinte?
Esse repertório foi pensado como uma experiência completa. Não foi só juntar músicas, foi construir um show mesmo. Eu quis levar o público por uma jornada, com momentos de leveza, de celebração, de romance e também de festa. As releituras trazem memória afetiva, músicas que eu sempre gostei muito. É como viver uma noite de pagode do começo ao fim.
“Razão e perdão” foi escolhida como faixa foco em um projeto com múltiplas possibilidades de destaque. O que essa música sintetiza do momento do grupo – seja em termos de linguagem, mensagem ou estratégia – para ter sido posicionada como carro-chefe?
Razão e perdão” representa muito bem o projeto. Tem uma letra muito boa, que conecta rápido, que o público se identifica, e uma melodia que gruda na cabeça. Por isso acabou se tornando o carro-chefe.
Em um álbum com tantas faixas, é comum que algumas ganhem força orgânica com o público, às vezes até além da estratégia inicial. Entre as inéditas, existe alguma que vocês enxergam como uma possível “surpresa”, seja por sonoridade, tema ou identificação, e por quê?
Sempre tem aquelas que eu sinto que podem surpreender. O que a o eu aprendi na prática é que as músicas que crescem de forma orgânica é porque o público se identifica de um jeito inesperado. Então o repertório em si é muito com base em histórias que acontecem mesmo. Situações que se você não passou conhece alguém que passa.
Com bilhões de streams, o ambiente digital se torna central não só na distribuição, mas na própria concepção dos projetos. De que maneira esse cenário influencia decisões criativas como escolha de repertório, duração das faixas ou formato dos lançamentos sem comprometer a essência artística do grupo?
O digital hoje faz parte do processo, não tem como ignorar. Eu penso, sim, em como a música vai chegar, como ela pode performar, mas isso nunca vem antes da verdade da música. O que eu faço é adaptar estratégias, como formato de lançamento, mas a criação continua sendo muito verdadeira, muito do coração.
Considerando o alcance deste lançamento e a fase atual do grupo, quais são os próximos passos do Kamisa 10 em termos de expansão – seja em novos formatos, parcerias, turnês ou até internacionalização do pagode?
Eu estou muito focado em expandir. Quero rodar mais o Brasil, principalmente com esse projeto do Hoje Tem Folga, chegar em lugares onde ainda não fui. Parcerias também estão no radar, inclusive com artistas de outros gêneros, sempre buscando somar e levar o K10 para novos espaços.
O grupo construiu uma identidade popular sem abrir mão de personalidade. Em um mercado em que muitos artistas acabam pressionados a seguir tendência, em que momentos vocês já precisaram escolher entre o que estava “bombando” e o que realmente fazia sentido para o Kamisa 10?
Isso já aconteceu algumas vezes. Tem momentos em que eu olho para o mercado e vejo tendências, mas nem tudo faz sentido. E nesses momentos, prefiro manter a identidade do K10. Claro que eu me atualizo, mas nunca abrindo mão do que acredito. O público percebe quando é verdadeiro.
O pagode vive uma fase de grande visibilidade, com novas linguagens, cruzamentos com outros gêneros e forte presença digital. Na visão de vocês, o que o Kamisa 10 ajudou a colocar nesse movimento e o que ainda falta o mercado entender sobre o pagode de hoje?
O pagode hoje está mais aberto, mais plural. E acho que o K10 ajudou a trazer essa mistura com leveza, dialogando com um público mais jovem e com o digital, sem perder a raiz. Mas ainda existe uma certa subestimação do gênero. Muita gente não entende a força cultural e a capacidade de reinvenção do pagode. Ele está vivendo um momento gigante, posição de protagonismo, e ainda pode crescer muito mais.
Em muitos grupos, o sucesso amplia a estrutura, mas pode afastar da espontaneidade inicial. O que vocês fazem para preservar a verdade do Kamisa 10 agora que o projeto está em outro patamar de alcance e cobrança?
Eu tento me reconectar o tempo todo com o começo. Lembrar de onde vim, do porquê comecei. Manter a roda de pagode, o contato direto com o público, a simplicidade no processo criativo. O crescimento traz estrutura e responsabilidade, mas a essência não pode mudar. O K10 só chegou até aqui sendo verdadeiro, e é isso que a gente quer preservar.
*Estagiária sob supervisão da editora Cecília Itaborahy
Tópicos: Kamisa 10









