“Com sinceridade”, diz, “só não fui porque estava muito calor.” Acostumada com o ritmo da praça, que aos sábados recebe uma feira de artesanato e com alguma frequência pequenos shows e festas, como o descolado Mercado Aberto, Elisa considera importante a ocupação do espaço onde está seu prédio. “Deveria ter mais. É muito bom para a praça”, comenta. No último sábado, dia do “Meu concreto tá armado”, ela conta que “olhava, conversava com algum conhecido que passava e, às vezes, entrava”. A sujeira, para ela, é um ponto negativo. Este ano, porém, acordou de madrugada, viu pilhas de garrafas de cerveja que, logo pela manhã, já haviam desaparecido. “Tudo correu bem.”
Questão de direitos
A opinião de Elisa está longe de ser uma unanimidade entre os juiz-foranos. Com a proliferação e o fortalecimento dos blocos nos últimos anos, no Centro e em bairros da cidade, a solução encontrada para os vizinhos insatisfeitos foi adiantar a folia. Na programação do carnaval de Juiz de Fora, nenhum evento em espaço aberto foi agendado para depois das 20h. Esse, por sinal, foi o trato feito entre o bloco da praça de São Mateus com a Prefeitura. Às 20h o som parou, ainda que muitos foliões tenham permanecido no local.
Ameaçado de não desfilar pelo Alto dos Passos em 2016, o bloco Come Quieto ganhou a permissão da associação de moradores após comprometer-se a atender uma série de providências. Uma das garantias cobradas pelos residentes do bairro na Zona Sul era o término pontual às 20h, atendido, e a dispersão e limpeza imediata das vias, dentre outros requisitos.
Para o bancário aposentado Geraldo Mizael Resende, 67, morador de um prédio bem defronte à concentração do bloco, uma solução para si mesmo foi sair ao meio-dia e regressar no anoitecer. “Com certeza, gostaria que não fosse aqui, mas, sendo, não posso reclamar. As pessoas têm o direito de brincar”, diz ele, que preferiu não se juntar à “boleira”, apesar de, em outros tempos, ter sido, até, diretor de uma escola de samba no bairro. Há 33 morando no mesmo prédio, rodeado por bares, Geraldo observa o perfil da região. “Ainda tento me acostumar.”
No calor da folia, em meio aos foliões, houve quem se divertia da calçada. “Super aprovo o desfile. O que acontece nesse dia não é nada do que não acontece em dias de campeonato brasileiro, por exemplo, quando os bares ficam lotados. Este ano teve muito policiamento e bombeiro. Cheguei da pós-graduação e entrei tranquilamente na minha casa”, contou a moradora Gislaine Moreira, 31. “É tudo maravilhoso. As crianças ficam brincando em frente de casa e se divertindo. E quem é que quer sair de casa nesse dia? A gente quer é curtir”, reforçou o coro a turismóloga Carolina Cabral, 31.
Convivência forçada
Concentração de diversos blocos, como o do Batom, na última terça, e o Pintinho de Ouro, na sexta, o Parque Halfeld também serviu de palco para apresentações musicais, como a roda de samba no domingo passado. Do segundo andar do prédio que ladeia a Câmara Municipal, a folia não passou despercebida para o comerciante aposentado Adérito Rodrigues, 83. Contudo, não lhe surpreendeu, diz. “Realmente não é bom, mas precisamos conviver. Já me acostumei, conheço o ambiente e passei a não me incomodar”, pondera, contando já ter trabalhado na noite e morado na Avenida Rio Branco. “O Parque Halfeld tem sempre isso, de protesto a show.” O que ele faz? “Vou para um quarto onde o barulho não chega.”
Alguns andares acima, um morador que prefere não se identificar, mesmo fechando as janelas, não deixa de ouvir o barulho. “Priva a gente do sossego. Isso aqui virou um palanque. Na minha opinião, não é lugar para isso, é uma área residencial. Aqui deveria ser usado de uma maneira melhor”, pontua, sugerindo a transferência de eventos assim para espaços como o Terreirão do Samba.
Para o corretor de imóveis Adriano de Azevedo, 35, não precisa. Ele mora no 11º andar de um prédio na Avenida dos Andradas, bem de frente para a concentração da Banda Daki, e até desce para a folia. “A única intransigência são os impedimentos do trânsito”, diz. Pai de um bebê, não reclama do barulho. “É pouco tempo. Um dia só”, destaca, para logo acrescentar, aos risos: “A buzina do trem incomoda muito mais. Principalmente à noite. É horrível. É todo dia.”
* Colaborou Marisa Loures

