Confeiteiro de Juiz de Fora cria universo de bolos com personagens e histórias
Com atendimento feito por figuras do próprio imaginário, a marca de Rafa Furiati aposta em storytelling e quadrinhos no Instagram

Em um universo em que confeitaria e arte se encontram a cada encomenda, o chefe Rafa Furiati dá forma, em seus bolos, a um mundo próprio: a Caketopia. As histórias que ele inventa viram personagens, sabores e narrativas, e cada pedido leva um pedaço desse imaginário para a mesa do cliente.
Formado em Marketing, Rafa conta que a paixão por doces sempre esteve presente, mas por muito tempo ficou restrita ao que ele chama de “bolha” de ingredientes populares, como Nutella, Ovomaltine e brigadeiro, combinados a bolos e brownies. “Era uma pequena bolha de coisas de mercado que as pessoas misturam”, lembra. Com o tempo, o paladar saiu das prateleiras do supermercado e abriu caminho para algo mais autoral.
As sobremesas que o mapa escondia
A mudança começou nas viagens frequentes ao Sul do país, para visitar amigos. Em Joinville, cidade marcada pela influência alemã, suíça e norueguesa, ele entrou em contato com sobremesas que pouco tinham a ver com o repertório que conhecia. “Eram doces muito mais refinados. Eu aprendia a gostar de coisas que eu não gostava”, conta.
O município virou referência. Com o tempo, Rafa criou uma rede afetiva na cidade e passou a frequentar casas com hábitos e gostos diferentes dos seus. Foi nesse convívio que aprendeu a apreciar outras sobremesas até então fora do repertório. Também ali ele preparou o primeiro cheesecake com as próprias mãos, em um passo inicial do que, mais tarde, se transformaria na Caketopia.
De volta a Juiz de Fora, ele trouxe na bagagem uma receita de família: o cheesecake de amora aprendido em Joinville. O doce virou presente para amigos e familiares, e o hábito de cozinhar foi ganhando espaço aos poucos. O marco definitivo, porém, veio em 2016.
Naquele ano, perto do aniversário, Rafa procurou um bolo específico, com recheio cremoso e estrutura bem montada, mas não encontrou nada parecido nas confeitarias da cidade. Em uma delas, ouviu uma resposta que guardou: “Meu querido, esse bolo que você quer só existe nos seus sonhos”.
O bolo como ponto de virada
A frase, em vez de desanimar, funcionou como gatilho. Rafa passou dias pesquisando, estudando técnicas e tentando entender como chegar ao bolo que imaginava. O resultado foi um bolo que, segundo ele, fez sucesso e acabou puxando novos pedidos.
Em festas de família e entre amigos, ele repetia a mesma receita com leite ninho. A insistência refinou a combinação. A cada tentativa, um ajuste, um ingrediente a mais, o que ele chama de “pozinho mágico”. Com o tempo, o recheio foi ficando mais autoral, até chegar ao sabor que buscava desde o início. Ele ganhou nome: Magic Frozen, desenvolvido do zero e, até hoje, descrito pelo chefe como um recheio de difícil identificação para quem prova.
“O Magic Frozen tem um sabor muito suave, que lembra chocolate branco, leite ninho, baunilha. É muito cremoso, muito leve e não é muito doce, porque isso é uma coisa que eu sempre quis na minha confeitaria: trazer coisas saborosas que não precisassem ter muito gosto de açúcar”, afirma.
Com a demanda crescendo, veio o conselho de transformar os bolos em fonte de renda. “Dali para frente, eu comecei a expandir o Frozen. Aí eu descobri, por mim mesmo, que aquela base que eu tinha criado não era só um sabor – aquilo era uma técnica”, diz.
Rafa passou a tratar o bolo como método, e não apenas como receita. Ele compara o processo ao dos gelatos, que partem de uma base e se desdobram em variações. “Descobri que o Frozen podia ter qualquer sabor que eu quisesse”, conta. A partir daí, ele começou a incorporar às receitas referências acumuladas em viagens, convivências e experiências gastronômicas.
‘Deguste seus sonhos’

Apesar do avanço na confeitaria, a rotina ainda era dividida com outro trabalho. Rafa atuava em um hospital em Juiz de Fora e cuidava da mãe, em tratamento contra o câncer. Nesse período, os doces deixaram de ser apenas hobby e passaram a completar a renda.
As redes sociais abriram uma nova vitrine. Com o crescimento do Instagram, ele encontrou espaço para mostrar o trabalho e construir posicionamento. Foi quando resgatou a frase ouvida anos antes e a transformou em slogan: “Deguste seus sonhos”.
A proposta se distanciava do modelo tradicional. Em vez de cardápio fixo, a base era a escuta. Cada cliente chegava com uma vontade, uma referência, uma memória, e ele tentava transformar isso em bolo. “A pessoa era como se fosse a cobaia do meu bolo. Eu trazia todas as referências para dentro da minha confeitaria”, diz. As encomendas viravam fotos publicadas nas redes, e o cliente reconhecia ali o que havia levado para casa.
Assim, de pedido em pedido, surgiu o que viria a se consolidar como cardápio fixo. Muitos dos bolos permanentes da Caketopia nasceram nesse período, quando a marca ainda se chamava RFURIATI Confeitaria Artesanal.
A virada seguinte veio junto de uma perda. Em 2019, após a morte da mãe e o desgaste de anos conciliando trabalhos, Rafa decidiu parar. Tirou um ano sabático e viajou. Passou pela Tailândia, pela Indonésia e por países da Europa, em uma jornada de mochilão. O período foi dedicado a ele mesmo.
A confeitaria não desapareceu por completo. Nos intervalos em que voltava a Juiz de Fora, ele ainda atendia encomendas, mas em outro ritmo. O que se impôs, naquele momento, foi a imersão em culturas, sabores e experiências que alimentariam os próximos passos. No fim de 2019, já de volta, Rafa tomou a decisão de fazer a sua marca crescer.
Era uma vez um mundo feito de açúcar
Em 2020, enquanto o mundo enfrentava paralisações, ele iniciou a construção do que queria chamar de marca. Passou a se expor mais nas redes e a pensar em uma identidade visual que fosse além do nome anterior. “Aquilo era o que eu fazia, mas chegou uma hora que eu não queria mais ser o que eu fazia. Eu queria ser eu e mostrar o que eu fazia”, explica.
Foi nesse processo que ele chegou ao ilustrador Davi Severiano, conhecido por trabalhos com Felipe e Lucas Neto. Ao conversar sobre referências, Davi fez a pergunta que reorganizou a ideia: se Rafa gostava tanto de viajar, videogame e desenho animado, por que não transformar a confeitaria em um mundo? Rafa conta que a reação foi imediata. “Era meu sonho. Mas como eu vou fazer isso? É impossível.” Davi pediu uma semana.
Quando voltou, trouxe dois personagens desenhados: Lady Cartola e Golden King. Não eram apenas bolos com rosto, eram figuras de um universo que estava nascendo, a Caketopia.
A partir daí, cada produto ganhou nome, história e personalidade. O Golden King, por exemplo, é um bolo de caramelo que lidera a família Golden, que vive no Deserto de Caramelo. A Golden Queen, bolo de pudim, viralizou nas redes em 2023, com quase oito milhões de visualizações. A filha, Salty, é recheada de caramelo salgado e está entre as mais pedidas da marca. Já Lady Cartola é apresentada como guardiã da Ilha de Chocolate. O Barão Tiramissu comanda os Campos de Café, e a Voz Aura, inspirada na avó de Rafa, habita o topo das Montanhas de Creme.
A diferença como ingrediente

Os personagens também ganharam função no atendimento. Quem envia mensagem para o perfil da Caketopia pode ser respondido por um deles, cada qual com modo próprio de falar e se relacionar com o público. Para Rafa, a lógica passa pelo enredo. “Não fazia sentido fazer um marketing em cima de produto igual todo mundo faz. Fazia muito mais sentido fazer um storytelling, as pessoas se apaixonarem pelos personagens e, por osmose, quererem provar o Golden King depois que o conhecessem”, afirma.
Rafa diz que pesquisou e não encontrou iniciativa semelhante. A Caketopia, hoje, reúne histórias em quadrinhos publicadas no Instagram, criadas por ele, e segue em expansão. O chefe trabalha em um rebranding que prevê a remodelagem dos personagens e do universo, com previsão de conclusão para julho.
O plano, segundo ele, é levar a Caketopia além da confeitaria, com jogos de tabuleiro, jogos de cartas, action figures, camisas e outros produtos. “Eu nunca quis ser o melhor. Eu sempre quis ser o mais diferente. Ser o mais diferente de todos e fazer as coisas mais malucas que ninguém faz”, resume.
*Estagiária sob supervisão da editora Cecília Itaborahy
Tópicos: juiz de fora