‘Raparigou ou não raparigou?’: ator mineiro Carlos Francisco vive Seu Alexandre em ‘O agente secreto’
Carreira do ator começou no teatro e passou para o cinema a partir da produtora de Contagem Filmes de Plástico; desde então, esteve em filmes como ‘Marte um’, ‘Bacurau’ e ‘Estranho caminho’

Em “O agente secreto”, o ator Carlos Francisco faz o sogro de Marcelo/Armando, o protagonista. Ele é o projecionista Seu Alexandre, baseado na figura real que o diretor, Kleber Mendonça Filho, descobriu durante a produção de “Retratos fantasmas”. A cena em que o mineiro pergunta “Raparigou ou não raparigou?” para o personagem de Wagner Moura é uma das que mais repercute depois do filme, e que inclusive viralizou nas redes sociais. O mesmo acontece com o personagem que ele fez em “Bacurau”, primeira parceria com Kleber Mendonça Filho, na qual interpreta o homem do casal pelado que resiste aos forasteiros que invadem a cidade. Nos dois momentos, o timing da cena foi a chave: “É tentar entender bem o personagem e aproveitar as brechas que são dadas para fazer o que o diretor pensou”.
Carlos Francisco tem 64 anos, e já tinha uma longeva carreira no teatro antes de estrear nos cinemas. Isso aconteceu quando foi chamado pela produtora de Contagem Filmes de Plástico, para fazer o filme “Um homem que voa: Nelson Prudêncio”, de Maurílio Martins e Adirley Queirós. Em seguida, fez “Marte um”, de Gabriel Martins. “São filmes que tratam o Brasil com a pluralidade que ele merece, e que respeitam as diferenças trazendo humanidade para elas. Como é na vida”, reflete.
Já o personagem Seu Alexandre chegou a partir de uma ligação da produtora do filme, Emilie Lesclaux, contando que o diretor tinha pensado nele para o papel. “Ele é um projecionista, é uma pessoa que tem uma importância na cadeia de exibição do filme. Ele é o exibidor e cuida, em última análise, para que a pessoa veja o filme da melhor maneira possível”, conta. E, na ficção, Carlos complementa que é um avô preocupado com a família e tentando mexer dentro das possibilidades para salvá-los do pior. “É um personagem com uma dignidade imensa, fico muito grato por isso”, comenta.
Para a criação do personagem, que aparece no filme sendo defendido como outro ideal de masculinidade, se inspirou nas referências da própria vida. “Eu venho de comunidade quilombola. De uma forma geral, temos nos homens dessas comunidades uma certa generosidade, que é própria do convívio com a natureza, da terra e com os animais, que dão um certo tipo de humanidade diferente, que trata ser como ser”, conta. Apesar de não querer romantizar essas figuras, entende que é em comunidades nas quais as pessoas se conhecem e se envolvem umas nos problemas das outras que ainda mais se encontram homens assim. E conclui: “É muito legal que isso seja colocado na pele de um homem negro, porque as minhas maiores referências foram assim. Foram neles, na comunidade, que me inspirei pra ser uma pessoa legal com os meus, com o meu trabalho, e ser correto nas coisas que me proponho a fazer”.