Em Juiz de Fora, Arlindinho fala sobre legado, samba-enredo e o audiovisual ‘Minha vida é um enredo’
Cantor lança “Minha Vida é um Enredo” nesta sexta e fala sobre samba-enredo, rodas e profissionalização do gênero
Tribuna: Estreia nesta sexta-feira, o audiovisual “Minha vida é um enredo”, gravado no Baródromo, com um repertório que reúne sambas-enredos marcantes da sua história, composições suas e obras do Arlindo Cruz. Como você construiu essa curadoria e que parte da sua trajetória você quis contar ao transformar a sua vida em “enredo”?
Arlindinho: Esse audiovisual é um desejo antigo meu. Assim como meu pai e minha mãe que são muito ligados ao carnaval, eu também dei meus primeiros passos como compositor e intérprete de samba-enredo. Acompanhava minha mãe nos ensaios quando ela era porta bandeira e meu pai nas disputas de samba. Então quis contar um pouco disso por meio de sambas que ganhamos e que hoje fazem parte da nossa história.
Recentemente, você gravou um novo audiovisual em Manaus para marcar os sete anos do projeto “Arlindinho das Antigas”. O que te motivou a registrar esse momento fora do Rio de Janeiro, seu território natural, e por que a escolha de Manaus para essa celebração?
Esse projeto é muito relevante, porque ele de certa forma marcou o meu recomeço após o AVC do meu pai. Era um momento de muitas dúvidas e esse projeto me mostrou que eu era capaz de seguir sem a presença física dele ao meu lado. Nós gravamos algumas edições do nosso pagode no beco e o retorno que a gente teve em vários pontos do país era muito grande. Optamos por Manaus por ser um dos lugares que mais interagia com a gente nas redes e que mais pedia para que fizéssemos um show lá. A escolha foi muito acertada e vivemos uma noite mágica lá.
O “Arlindinho das Antigas” nasceu como uma roda de samba e, ao longo desses sete anos, se consolidou como um ponto de encontro tradicional para músicos e amantes do gênero. Na sua avaliação, o que explica a força e a longevidade do projeto, especialmente mantendo uma apresentação semanal?
Acho que o segredo foi a perseverança, uma vez que os primeiros anos foram muito difíceis, às vezes a roda não se pagava e a gente botava dinheiro do bolso para completar o cachê dos músicos. Outro ponto importante é o caráter totalmente informal do evento. A gente canta o que vem a cabeça, os amigos surgem do nada para cantar um samba com a gente e com isso vamos seguindo com casa lotada a cada semana.
Você também construiu uma trajetória como compositor de samba-enredo e já assinou obras em escolas pelas quais seu pai também passou: Império Serrano, Grande Rio, São Clemente e, agora, a Vila Isabel. Como é, para você, seguir esse caminho no carnaval carregando esse legado familiar e, ao mesmo tempo, afirmando sua própria identidade?
O samba-enredo é minha “zona de conforto”, é uma coisa que eu amo fazer e que graças a Deus eu tenho feito grandes sambas. Seguir os passos do meu pai é um caminho quase que natural para mim, mas confesso que tem sido bem gratificante conquistar o meu espaço e ser reconhecido não só como filho do Arlindo Cruz, mas também como um nome importante no meio e que já assinou belas obras que passaram por aquela avenida.
Neste ano, na Vila Isabel, que chega forte na briga pelo título, você está entre os compositores do samba-enredo. O que foi mais marcante pra você nos bastidores desse processo, do nascimento do samba até a disputa que definiu a obra?
Foi tudo especial. A Vila era a única escola das que meu pai ganhou samba na qual eu não tinha ganhado ainda, e André Diniz e Bocão eram dois grandes parceiros dele. Então os bastidores foram leves e eu me joguei de cabeça dentro da parceria, porque a ideia deles era de fazerem o samba só os dois. Eu cheguei, apresentei uma ideia, eles gostaram e me convidaram para a parceria. Agora só tenho que agradecer.
Como você avalia o momento atual do samba no Brasil, entre rodas tradicionais, grandes palcos, audiovisuais e redes sociais? Na sua visão, o que está fortalecendo o gênero hoje e quais são os principais desafios para manter a essência sem deixar de dialogar com novas gerações?
Acho que depois de muito tempo, o samba voltou a ser respeitado e também a se dar ao respeito. Nós estamos mais profissionais, mais estruturados. Quem vai aos shows hoje espera além de ouvir boa música, ter uma experiência visual diferente também. Então o samba começou a investir em luz, cenário, balé e outras coisas que atreladas a boa música, fazem com que os espetáculos sejam experiências mais interessantes de se assistir. Para atingir esse novo publico, é preciso falar também a linguagem deles.
Você estreou recentemente no BBB ao lado do Diogo Nogueira, levando o samba para um dos programas de maior audiência do país. Como surgiu o convite e como foram os bastidores de uma apresentação em um programa desse porte, tão diferente do ambiente da roda e do show tradicional? O que essa participação representou para você e que repercussão você sentiu depois?
Foi uma experiência incrível. Dividir o palco com o Diogo Nogueira por si só já é um prazer, uma vez que somos amigos e parceiros de samba. Fazer isso em um dos programas mais importantes e de maior audiência do país é inexplicável. Ser convidado a participar de algo assim só me mostra que estamos no caminho certo e que seguimos adquirindo o respeito e o reconhecimento que sempre buscamos.
*Estagiária sob supervisão da editora Cecília Itaborahy
