Em Juiz de Fora, Arlindinho fala sobre legado, samba-enredo e o audiovisual ‘Minha vida é um enredo’

Cantor lança “Minha Vida é um Enredo” nesta sexta e fala sobre samba-enredo, rodas e profissionalização do gênero


Por Mariana Souza*

04/02/2026 às 13h03- Atualizada 04/02/2026 às 13h08

arlindinho em juiz de fora
Prestes a subir no palco em Juiz de Fora, Arlindinho celebra carnaval e legado da família do samba (Foto: Aka Vitão/ Divulgação)

Herdeiro de uma das linhagens mais respeitadas do samba, Arlindinho construiu carreira própria como cantor, compositor e percussionista, equilibrando a tradição do carnaval com uma presença constante nas rodas e nos palcos. Ligado ao samba-enredo desde a infância – entre ensaios e disputas acompanhando a família -, ele se firmou como um nome reconhecido no meio, com sambas premiados e assinatura em escolas por onde seu pai também deixou marca, como Império Serrano, Grande Rio, São Clemente e, mais recentemente, Vila Isabel.

Nos últimos anos, o artista também ampliou o alcance do trabalho fora da avenida. Um dos destaques é o “Arlindinho das antigas”, projeto que completa sete anos e virou ponto de encontro semanal do samba, com caráter informal e participação espontânea de convidados — uma fórmula que, segundo ele, se sustenta na perseverança e na troca direta com o público. A iniciativa ganhou um novo registro audiovisual, gravado em Manaus no mês passado, cidade escolhida pela força do engajamento nas redes e pela demanda local, e se somou a uma turnê pela Europa, levando seu repertório a diferentes cidades do continente.

Agora, Arlindinho lança nesta sexta-feira (6) o audiovisual “Minha vida é um enredo”, gravado no Baródromo, no qual transforma a própria trajetória em narrativa a partir de sambas-enredos marcantes, com composições autorais e obras do pai, Arlindo Cruz. Em entrevista à Tribuna – antes de subir ao palco para se apresentar no pré-carnaval de Juiz de Fora, na última terça-feira (3) -, o artista disse que o projeto realiza um desejo antigo e resgata seus primeiros passos como compositor e intérprete no carnaval. Arlindinho também celebrou o momento atual do samba, que ele vê mais profissional e estruturado.

Tribuna: Estreia nesta sexta-feira, o audiovisual “Minha vida é um enredo”, gravado no Baródromo, com um repertório que reúne sambas-enredos marcantes da sua história, composições suas e obras do Arlindo Cruz. Como você construiu essa curadoria e que parte da sua trajetória você quis contar ao transformar a sua vida em “enredo”?

Arlindinho: Esse audiovisual é um desejo antigo meu. Assim como meu pai e minha mãe que são muito ligados ao carnaval, eu também dei meus primeiros passos como compositor e intérprete de samba-enredo. Acompanhava minha mãe nos ensaios quando ela era porta bandeira e meu pai nas disputas de samba. Então quis contar um pouco disso por meio de sambas que ganhamos e que hoje fazem parte da nossa história.

Recentemente, você gravou um novo audiovisual em Manaus para marcar os sete anos do projeto “Arlindinho das Antigas”. O que te motivou a registrar esse momento fora do Rio de Janeiro, seu território natural, e por que a escolha de Manaus para essa celebração?

Esse projeto é muito relevante, porque ele de certa forma marcou o meu recomeço após o AVC do meu pai. Era um momento de muitas dúvidas e esse projeto me mostrou que eu era capaz de seguir sem a presença física dele ao meu lado. Nós gravamos algumas edições do nosso pagode no beco e o retorno que a gente teve em vários pontos do país era muito grande. Optamos por Manaus por ser um dos lugares que mais interagia com a gente nas redes e que mais pedia para que fizéssemos um show lá. A escolha foi muito acertada e vivemos uma noite mágica lá.

O “Arlindinho das Antigas” nasceu como uma roda de samba e, ao longo desses sete anos, se consolidou como um ponto de encontro tradicional para músicos e amantes do gênero. Na sua avaliação, o que explica a força e a longevidade do projeto, especialmente mantendo uma apresentação semanal?

Acho que o segredo foi a perseverança, uma vez que os primeiros anos foram muito difíceis, às vezes a roda não se pagava e a gente botava dinheiro do bolso para completar o cachê dos músicos. Outro ponto importante é o caráter totalmente informal do evento. A gente canta o que vem a cabeça, os amigos surgem do nada para cantar um samba com a gente e com isso vamos seguindo com casa lotada a cada semana.

Você também construiu uma trajetória como compositor de samba-enredo e já assinou obras em escolas pelas quais seu pai também passou: Império Serrano, Grande Rio, São Clemente e, agora, a Vila Isabel. Como é, para você, seguir esse caminho no carnaval carregando esse legado familiar e, ao mesmo tempo, afirmando sua própria identidade?

O samba-enredo é minha “zona de conforto”, é uma coisa que eu amo fazer e que graças a Deus eu tenho feito grandes sambas. Seguir os passos do meu pai é um caminho quase que natural para mim, mas confesso que tem sido bem gratificante conquistar o meu espaço e ser reconhecido não só como filho do Arlindo Cruz, mas também como um nome importante no meio e que já assinou belas obras que passaram por aquela avenida.

Neste ano, na Vila Isabel, que chega forte na briga pelo título, você está entre os compositores do samba-enredo. O que foi mais marcante pra você nos bastidores desse processo, do nascimento do samba até a disputa que definiu a obra?

Foi tudo especial. A Vila era a única escola das que meu pai ganhou samba na qual eu não tinha ganhado ainda, e André Diniz e Bocão eram dois grandes parceiros dele. Então os bastidores foram leves e eu me joguei de cabeça dentro da parceria, porque a ideia deles era de fazerem o samba só os dois. Eu cheguei, apresentei uma ideia, eles gostaram e me convidaram para a parceria. Agora só tenho que agradecer.

Como você avalia o momento atual do samba no Brasil, entre rodas tradicionais, grandes palcos, audiovisuais e redes sociais? Na sua visão, o que está fortalecendo o gênero hoje e quais são os principais desafios para manter a essência sem deixar de dialogar com novas gerações?

Acho que depois de muito tempo, o samba voltou a ser respeitado e também a se dar ao respeito. Nós estamos mais profissionais, mais estruturados. Quem vai aos shows hoje espera além de ouvir boa música, ter uma experiência visual diferente também. Então o samba começou a investir em luz, cenário, balé e outras coisas que atreladas a boa música, fazem com que os espetáculos sejam experiências mais interessantes de se assistir. Para atingir esse novo publico, é preciso falar também a linguagem deles.

Você estreou recentemente no BBB ao lado do Diogo Nogueira, levando o samba para um dos programas de maior audiência do país. Como surgiu o convite e como foram os bastidores de uma apresentação em um programa desse porte, tão diferente do ambiente da roda e do show tradicional? O que essa participação representou para você e que repercussão você sentiu depois?

Foi uma experiência incrível. Dividir o palco com o Diogo Nogueira por si só já é um prazer, uma vez que somos amigos e parceiros de samba. Fazer isso em um dos programas mais importantes e de maior audiência do país é inexplicável. Ser convidado a participar de algo assim só me mostra que estamos no caminho certo e que seguimos adquirindo o respeito e o reconhecimento que sempre buscamos.

*Estagiária sob supervisão da editora Cecília Itaborahy

Os comentários nas postagens e os conteúdos dos colunistas não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir comentários que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.