O Bairro Industrial, na Zona Norte de Juiz de Fora, foi um dos principais atingidos durante a tragédia causada pelas chuvas de fevereiro. Contudo, como noticiado pela Tribuna na época, os problemas no local são recorrentes há anos – especialmente com alagamentos na região. Da mesma forma, a população também destaca que ocorrências motivadas por chuvas não pararam no início do ano.
“Na madrugada do dia em que caiu, durante a última chuva forte no mês de junho, os moradores do entorno confundiram o barulho com trovões. Quando acordaram, descobriram que o paredão em volta do córrego cedeu”, conta Jucélia Barbosa, comerciante no bairro há quase 30 anos. Uma parte do muro nas margens do Córrego Humaitá, que atravessa a Avenida Lúcio Bittencourt, cedeu e uma quantidade considerável de pedras caiu dentro da água.
Preocupada com a mãe, que mora no bairro há 56 anos – no momento, em frente ao córrego -, Jucélia acrescenta que o perigo na região é constante. “Já caíram trechos de ambos os lados e ninguém vem olhar. Se olha, vai embora sem fazer nada. Estamos aguardando para ver se as obras serão realizadas com eficiência.” Ela se refere a uma parte bem próxima à que cedeu, justamente do outro lado do córrego, em frente a um posto de combustível.
O trecho danificado ainda complementava o passeio no entorno do córrego, o que atrapalhou a mobilidade de quem passa pelo local. É o caso de Alcebides Sérgio Leandro, pedreiro aposentado. “Moro aqui há 52 anos e, desde então, convivo com problemas relacionados ao córrego. O muro que cedeu traz perigo para a minha família. É um trecho que percorria diariamente para levar minha neta à escola. Não fazemos mais por receio. No outro lado do córrego, ao lado do posto, faz cerca de dois anos que o paredão cedeu e nunca fizeram nada.”
Um morador do bairro que preferiu preservar a identidade contou à Tribuna que um amigo caiu dentro do córrego, no trecho onde o muro caiu. “Colocaram a mureta em volta do córrego após as obras, mas sempre foi um perigo danado. À noite, a iluminação é quase inexistente. Quem sai do posto e até quem vai fazer manobra por este lado, tem que tomar muito cuidado para não cair. As obras claramente não foram suficientes”, diz.
Pontes e lixo também preocupam
Além do trecho que cedeu com as chuvas, as pontes que atravessam o córrego também representam perigo para quem as atravessa ao longo do dia. É possível notar rachaduras na estrutura, assim como algumas passagens sem apoio lateral e algumas delas, inclusive, tortas.
Ainda há, recorrentemente, uma quantidade considerável de lixo no entorno do córrego, como contaram os moradores da região. Eles reforçaram que “já fizeram reclamações e não tiveram resultados”. O lixo, somado às rochas que caíram do muro, pode obstruir a passagem da água no córrego, na visão de quem passa diariamente pelo local.
“Ficamos na dúvida sobre quando irão, finalmente, fazer algo. Já houve diversas enchentes. Nas chuvas de fevereiro, a água atingiu cerca de um metro na minha casa, na altura da minha cintura. E olha que nem moro tão perto assim. Algumas das pontes que atravessam o córrego deveriam ser derrubadas para não representar perigo, pois as condições para passagem são bem precárias”, acrescenta Alcebides.
A Tribuna questionou a Prefeitura a respeito dos problemas relatados pela comunidade, além das obras de macrodrenagem na região. Em nota, foi informado que a obra na região vai começar exatamente pelo local afetado. “O projeto executivo está em fase final de preparação. A expectativa é de que a construção seja iniciada no próximo mês e seja concluída até o final do ano. O local segue sendo monitorado pela Defesa Civil e pela Secretaria de Obras”, finaliza.
Obras de macrodrenagem
A empresa que venceu a licitação das obras de macrodrenagem na região da bacia do Córrego Humaitá e do Rio Paraibuna iniciou, em 23 de março deste ano, a vistoria em todos os imóveis da região – parte das etapas preparatórias para o avanço das intervenções de drenagem e esgotamento sanitário previstas no Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
À época, a Prefeitura de Juiz de Fora informou que as vistorias cautelares da intervenção no Córrego Humaitá seguiriam até que todos os imóveis envolvidos fossem registrados. “O procedimento é realizado pela empresa contratada para a obra, a Empreendimentos e Tecnologia em Construção (ETC), e é necessário para entender o estado atual dos imóveis e registrar caso ocorra algum problema estrutural após as intervenções. É um resguardo tanto pra empresa quanto para os moradores.”
O prazo para finalização do projeto, conforme a PJF, era de 90 dias, e as intervenções, com previsão de dois anos de duração, terão início após a conclusão dessa etapa. “Também já está em andamento o trabalho social junto à comunidade alcançada pela obra”, completa.
De acordo com a Prefeitura, a intervenção no Industrial tem como objetivo enfrentar um problema histórico de alagamento no Córrego Humaitá, que persiste há mais de 50 anos. Antes do início efetivo da obra, foi informado que será feita a limpeza do córrego e uma drenagem preliminar para viabilizar a execução dos serviços. A intervenção foi formalizada no dia 27 de fevereiro, quando a prefeita assinou contrato de R$ 95 milhões com a ETC.
