Movimento ‘Marsha Trans’ marca a luta pelos direitos LGBTQIAPN+ em Juiz de Fora

Luta pelas cotas trans na UFJF é tema da manifestação pelo segundo ano consecutivo; Semana da Visibilidade Trans é realizada entre os dias 29 e 31 de janeiro


Por Júlia Valgas

29/01/2026 às 06h26- Atualizada 29/01/2026 às 13h29

Marsha Trans marca a luta pelos direitos LGBTQIAPN+ em Juiz de Fora
Foto: Sol Mourão/ Arquivo Pessoal

Entre o orgulho de (re)existir e a luta por direitos básicos, a comunidade de transgêneros, transexuais e travestis de Juiz de Fora se reúne no Parque Halfeld, às 17h30, nesta quinta-feira (29), Dia Nacional da Visibilidade Trans, para reivindicar, entre outras pautas, a inclusão das cotas trans na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A “Marsha Trans” integra a programação da Semana da Visibilidade Trans, que também conta com um mutirão de empregos com prioridade para pessoas LGBTQIAPN+, na sexta-feira, e um café da manhã voltado para o acolhimento de pessoas transexuais em situação de vulnerabilidade, com a exibição do documentário “Elas na Rua – Visibilidade Trans”, produzido pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, no sábado.

Realizada pela Associação de Travestis, Transgêneres e Transexuais de Juiz de Fora (ASTRA-JF), com o apoio de movimentos LGBTQIAPN+ do município, o ato está na sua quinta edição na cidade. A presidente da ASTRA-JF, Sol Mourão, explica que a Associação foi fundada durante a pandemia e, assim que as condições sanitárias permitiram, a primeira edição da marcha foi realizada. O nome “Marsha” homenageia Marsha P. Johnson, mulher trans que lutou pelos direitos das pessoas LGBTQIAPN+ e hoje inspira a luta contra a transfobia em Juiz de Fora.

Cotas Trans na UFJF

Uma das principais reivindicações do ato é a adoção de cotas para pessoas transgênero, transexuais e travestis também na graduação da UFJF, ampliando políticas já existentes de acesso ao ensino superior. A instituição implementou a política de ações afirmativas para pessoas negras, de baixa renda e oriundas de escolas públicas em 2004. Em 2021, as cotas trans também foram implementadas, mas apenas nos programas de pós-graduação.

Já em 2024, quando o Governo federal atualizou a política de ações afirmativas para inclusão de pessoas quilombolas, os movimentos estudantis da instituição iniciaram um movimento em prol da inclusão também de cotas trans – para pessoas transgênero, transexuais e travestis – nos campus de Juiz de Fora e Governador Valadares.

Gustavo Perry integra o movimento estudantil pela aprovação das cotas e faz parte da atual gestão do Conselho Municipal de Direitos Humanos da população LGBT de Juiz de Fora. Ao contextualizar a mobilização, ele afirma que a proposta dialoga com a ampliação do acesso à universidade e com as barreiras enfrentadas por essa população ao longo da trajetória escolar

“Essa acaba sendo uma luta anexa a um ideal mais amplo de que todas as pessoas tivessem acesso ao ensino superior […]. A gente entende que as cotas são um dos mecanismos para atenuar esse descompasso na educação, principalmente para as pessoas trans que são uma população extremamente vulnerabilizada.”

Procurados, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e a UFJF se manifestaram por meio de notas. O DCE informou informou que a proposta de política institucional será encaminhada ao Conselho Superior da Universidade (Consu), instância responsável por deliberar sobre normas e diretrizes da instituição, mas que o envio ainda depende de uma reunião do grupo de trabalho que discute o tema. Já a UFJF afirmou manter compromisso com a política de inclusão da comunidade trans, porém ressaltou a necessidade de um debate amplo, responsável e coletivo antes de uma decisão.

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Foto: Sol Mourão/ Arquivo Pessoal

Comunidade Trans

A comunidade trans é formada por pessoas transgênero, transexuais e travestis. Para compreender o que cada um destes termos significa, é necessário entender a diferença entre sexo biológico e gênero: enquanto o primeiro diz respeito aos órgãos genitais de um indivíduo, gênero refere-se às construções sociais atribuídas à cada sexo – como a expectativa de que mulheres sejam doces e empáticas, enquanto homens se sejam provedores e viris.

Dessa forma, as pessoas transexuais são aquelas que não se identificam com o sexo biológico com que nasceram. Já as pessoas transgênero – grupo que também inclui as pessoas transexuais – não se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascerem –  masculino ou feminino. A comunidade trans ainda engloba as travestis: pessoas que nasceram como “homens”, mas se identificam com o gênero feminino. Entretanto, elas não reivindicam a identidade de “mulher”.

Algumas pessoas não-binárias também consideram-se parte da comunidade. O termo não-binário, por sua vez, refere-se às pessoas que não se identificam nem como homens, nem como mulheres e vivem suas vidas sem se ater às construções de gênero.

Confira na íntegra as notas do DCE e da UFJF

“Hoje, na Universidade Federal de Juiz de Fora, temos avançado de forma significativa na construção de uma política fundamental para aprofundar a democratização do acesso à educação em nossa instituição.

Esse processo tem sido fruto de uma construção ampla e coletiva, realizada em diálogo com os movimentos estudantis, movimentos sociais e organizações do movimento LGBT, além da própria Administração Superior da Universidade. A partir desse acúmulo, foi elaborada uma minuta para a implementação da política na UFJF, resultado de um debate responsável e comprometido com a inclusão.

Ao longo desse percurso, foram promovidas diversas atividades de debate e mobilização junto à comunidade estudantil, com o objetivo de discutir a política e evidenciar sua importância. Esses espaços também permitiram explicitar uma realidade preocupante: a população trans representa menos de 3% dos estudantes matriculados nos cursos de graduação no país, dado que expressa as profundas barreiras de acesso ao ensino superior enfrentadas por esse segmento.

Essa realidade revela não apenas a exclusão educacional, mas também a dificuldade de romper com o ciclo histórico de marginalização social e de ausência de inserção no mercado formal de trabalho. Diante disso, reafirmamos nossa convicção de que o acesso à educação, articulado a outras políticas públicas estruturantes, é uma das principais ferramentas para a transformação da realidade e para o enfrentamento das desigualdades sociais.

Para que essa política seja efetivamente aprovada na UFJF, é necessário que ela seja apresentada e votada no Conselho Superior, instância máxima de deliberação da Universidade. Antes disso, contudo, ainda é fundamental a realização da última reunião do Grupo de Trabalho responsável pelo debate da política, com o objetivo de realizar os ajustes finais na resolução. Somente após essa etapa o texto será encaminhado ao Conselho Superior para apreciação e deliberação.

Temos confiança de que o Conselho Superior da UFJF estará à altura desse debate e aprovará essa política, reafirmando o compromisso histórico da Universidade com a democratização do acesso à educação e com a construção de uma instituição que reflita, em sua diversidade, todas as cores e a realidade do nosso povo.”

UFJF

“A Diretoria de Ações Afirmativas compreende que as cotas para pessoas trans constituem uma política afirmativa relevante no enfrentamento das desigualdades históricas que atingem essa população, especialmente no que se refere ao acesso, à permanência e à conclusão no ensino superior.

Ao longo de 2025, a Universidade Federal de Juiz de Fora promoveu atividades voltadas à temática, construídas de forma dialogada com a comunidade interna e externa, contribuindo para o amadurecimento institucional da pauta e reafirmando o compromisso da UFJF com os direitos humanos, a diversidade e a inclusão.

Atualmente, a proposta de implementação das cotas trans encontra-se em fase de construção, com previsão de apresentação às instâncias competentes da Universidade, respeitando a análise técnica necessária, o diálogo institucional e a tramitação regular, em consonância com o Estatuto, o Regimento Geral e os princípios democráticos que orientam a governança universitária.

A UFJF adota, como princípio, que políticas institucionais dessa natureza sejam debatidas de forma ampla, responsável e coletiva, em observância aos fluxos decisórios e às instâncias deliberativas da Universidade.

A Universidade reafirma seu compromisso com a promoção da equidade e seguirá conduzindo esse debate com responsabilidade institucional, diálogo permanente e respeito às suas instâncias, visando à construção de políticas afirmativas sólidas, legítimas e socialmente referenciadas.”

*Estagiária sob a supervisão da editora da Carolina Leonel

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