Debate urbano em Brasília ocorre sem representantes da Prefeitura de Juiz de Fora em meio às chuvas

Conferência Nacional das Cidades debate as políticas públicas urbanas no país, que incluem as questões climáticas


Por Julia Valgas*

27/02/2026 às 07h00

Brasília recebe, até esta sexta-feira (27), a 6ª Conferência Nacional das Cidades, para discussão de propostas que orientarão o desenvolvimento urbano nos próximos anos. O município de Juiz de Fora, entretanto, não enviou representantes do poder público para o encontro. A ausência ocorre em meio ao cenário de emergência provocado pelas chuvas na cidade e na Zona da Mata, com registros de mortes, desaparecidos, pessoas resgatadas e abertura de abrigos, além de alertas de risco de deslizamentos e novos alagamentos.

A Conferência, realizada pela última vez em 2013, tem como objetivo reunir representantes do poder público, sociedade civil, movimentos sociais, setor empresarial e especialistas para debater questões como controle social, regularização fundiária, cooperação interfederativa, sustentabilidade, clima, transformações digitais, acessibilidade tecnológica e segurança cidadã. Entre os temas, o debate sobre adaptação climática e prevenção de desastres se conecta diretamente às ocorrências recentes em Juiz de Fora, onde os temporais elevaram o acumulado mensal para patamar acima do esperado e mantiveram a cidade sob instabilidade e avisos de chuva persistente.

Apesar de ser um espaço participativo e aberto a todos, apenas os delegados eleitos em suas regiões podem votar nas propostas apresentadas. A eleição de delegados acontece em três fases: no primeiro momento, o município realiza sua própria conferência – que, em Juiz de Fora, aconteceu nos dias três e quatro de junho de 2025. Nesta data, representantes da cidade foram selecionados para participar da Conferência Estadual, realizada em Belo Horizonte entre dias seis e nove de agosto de 2025.

Entre os delegados eleitos para representar o estado de Minas Gerais, estavam quatro juiz-foranos: Julia Melo Castro e Nicolas Nascimento Silva, ambos da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Participação Popular (SEDDUP); Filipe Oliveira Paiva, representante das entidades sindicais; e Denyse Pereira Neves Delgado, que representa as entidades profissionais, acadêmicas e de pesquisa. No entanto, apenas Felipe e Denyse foram para Brasília participar da Conferência.

Para a delegada Denyse Delgado, apesar da participação dos representantes do poder público na Conferência não alterar a situação climática de Juiz de Fora, esta seria uma oportunidade para o município falar sobre o seu território e defender e trazer novas ideias para o Plano de Desenvolvimento Urbano da cidade. No que se refere à situação das chuvas, ainda durante a Conferência Municipal, realizada em 2025, Juiz de Fora já havia registrado propostas para frear a crise climática. O tema ganhou urgência com os alertas recentes da Defesa Civil e com a sequência de ocorrências na cidade, incluindo pontos de alagamento e risco de deslizamentos.

Questionada, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou que optou por não deslocar representantes para a Conferência Nacional das Cidades porque as equipes eleitas para representar o município estão integralmente dedicadas à elaboração do Plano de Estruturação Urbana Sustentável (PEUS).

“Entendemos que participar de debates nacionais é importante. No entanto, nossa prioridade estratégica neste momento é assegurar que Juiz de Fora tenha um planejamento sólido, atualizado e executável. Sem uma base legal e técnica consistente, qualquer proposta futura, por mais relevante que seja, corre o risco de se tornar apenas mais uma boa ideia no papel”, destacou a PJF em nota.

Na região da Zona da Mata, formada por mais de 150 municípios, apenas sete realizaram as Conferências Municipais das Cidades: Juiz de Fora, Ewbank da Câmara, Goianá, São João Nepomuceno, Itamarati de Minas, Cataguases e Santana do Cataguases. Este era um critério classificatório para eleição de delegados para discussão nacional, o que significa que apenas representantes destas localidades concorreram às vagas na delegação mineira. Em paralelo, a região também tem concentrado o esforço de resposta aos danos do período chuvoso, com buscas e atendimentos a vítimas em diferentes municípios.

Apesar da baixa representatividade na discussão, de acordo com Denyse, Juiz de Fora está com um espaço facilitado nas discussões graças à visbilidade nacional recebida por decorrência das chuvas. A delegada ainda afirmou que o evento manifestará, na sexta-feira (27), uma moção de apoio à região da Zona da Mata.

Confira a nota da PJF na íntegra

“A Prefeitura de Juiz de Fora optou por não deslocar representantes para a Conferência Nacional das Cidades porque, neste momento, as equipes eleitas para representar o município estão integralmente dedicadas à elaboração do Plano de Estruturação Urbana Sustentável (PEUS).

O PEUS é um instrumento estruturante, com contrato vigente e prazo definido para conclusão. Trata-se de um trabalho técnico fundamental para organizar o crescimento da cidade, consolidar diretrizes urbanísticas e garantir segurança jurídica para investimentos públicos e privados.

Entendemos que participar de debates nacionais é importante. No entanto, nossa prioridade estratégica neste momento é assegurar que Juiz de Fora tenha um planejamento sólido, atualizado e executável. Sem uma base legal e técnica consistente, qualquer proposta futura, por mais relevante que seja, corre o risco de se tornar apenas mais uma boa ideia no papel.

Estamos trabalhando para que a cidade esteja preparada, qualificada e juridicamente organizada para transformar diretrizes em ações concretas, com capacidade real de implantação.

Nosso compromisso é com resultados efetivos e com um planejamento que permita à cidade sair do discurso e avançar na execução.”

*Estagiária sob supervisão da editora Carolina Leonel

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