
Dona Nina, 87 anos, e Seu Laércio, 89, moram no Manoel Honório, onde têm facilidade para encontrar serviços que os atendam (Marcelo Ribeiro/24-07-15)
Nelly Guedes Mattos, 82, diz que não tem do que reclamar do Bom Pastor e que gosta de fazer suas atividades a pé (Fernando Priamo/05-08-15)
Sérgio Correia Figueira, 65, veio do Rio para Juiz de Fora em busca de tranquilidade (Bárbara Riolino)
Vinte e dois por cento da população idosa de Juiz de Fora estão em bairros que compõem a região central da cidade. Segundo o ranking disponibilizado à Tribuna pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo 2010, oito bairros apresentam concentração superior a 20%. Como em outras cidades, o Centro detém a maior população – 5.392 pessoas – que equivale a 26%. Em dados quantitativos, o São Mateus vem logo em seguida, com 3.938 idosos, entretanto, em porcentagem, o montante do bairro corresponde a 20,1%. Outros bairros com maiores índices de moradores idosos são o Santa Helena (23,1%), o Alto dos Passos (21,9%), o Manoel Honório ( 21%) e o Bom Pastor (20,4%) (ver quadro). A concentração de pessoas com mais de 60 anos de idade nestes locais é o dobro da média nacional, que é de 10,8% da população. A Tribuna esteve nesta região e conversou com moradores idosos a respeito das peculiaridades e características que mais os motivaram a escolher estas localidades para envelhecer.
“Hoje só vou ao Centro para ir ao médico, pois no bairro ainda não temos um posto de saúde. Aqui no Manoel Honório tem tudo o que eu preciso: feira, mercadinho, farmácia, padaria e comércio, além de me sentir mais segura. Tanto eu como meu esposo nos sentimos muito mais ativos”, destaca a aposentada Maria Aparecida Carnout Rocha, 87 anos, a dona Nina, que reside no bairro há 12 anos. A escolha do Manoel Honório foi motivada pela proximidade com os familiares. “Antes nós morávamos no Milho Branco e tínhamos que nos deslocar sempre para o Centro para resolver as coisas, tudo era longe. Hoje fazemos tudo sozinhos, sem a ajuda de ninguém”, revela.
Nascido e criado no Rio de Janeiro, em 2002, o engenheiro eletricista Sérgio Correia Figueira, 65, veio para Minas Gerais em busca de uma vida mais tranquila. Em função de negócios na região, instalou-se inicialmente no Granbery, mas por conta do sogro, já falecido, e da neta especial, hoje com 15 anos, precisou mudar-se para um bairro mais plano e que oferecesse mais recursos. Por estes motivos, a escolha foi pelo São Mateus, onde reside há quatro anos. “É um bairro fantástico e oferece muita comodidade, como farmácias, que na nossa idade são muito importantes, mercados, padarias, agências bancárias e demais facilidades. Estes fatores foram primordiais para a nossa escolha.”
Embora tenha vivido por quase 30 anos no Santa Helena – outro preferido pelas pessoas da terceira idade -, a também aposentada Linea Oliveira Ajub, 80, mudou-se há três para o Alto dos Passos. Para ela, o novo bairro trouxe mais segurança, contribuindo ainda mais para uma vida ativa e independente. “Lá estava se tornando um lugar barulhento e perigoso. Nunca fui assaltada, mas ouvi muitas histórias. Morando no Altos dos Passos, fico perto de tudo: comércio, mercado e farmácia. Faço minhas compras sozinhas e, sempre que vou ao Centro, ando a pé”, conta Linea, acrescentando que faz caminhadas na Praça do Bom Pastor regularmente.
Também residindo no Bom Pastor, a professora Nelly Guedes Mattos, 82, conta que tem uma relação mais do que afetiva com o bairro. Natural de São João del-Rei (MG), aos 18 anos mudou-se para o Bom Pastor com a família. Segundo ela, eles foram um dos primeiros moradores da localidade. “Depois que me casei, morei em outros lugares, como no São Mateus, no Centro e no Altos dos Passos, mas sempre quis voltar para o Bom Pastor. Antes do meu esposo falecer, viemos morar aqui. Estou aqui há 20 anos. Não tenho do que reclamar, pois é perto de tudo e posso fazer tudo a pé”, ressalta.
‘Pontos que dão referência e segurança’
O fato de a região central ser a mais populosa segue a mesma tendência das demais cidades brasileiras. Segundo pesquisadores, a ocupação desta área em Juiz de Fora começou com a passagem da Estrada Real, que ligava as minas de ouro aos portos do Rio de Janeiro e, posteriormente, a partir do desenvolvimento industrial trazido pelos colonos alemães, com a abertura da Estrada do Paraibuna, onde hoje é a Avenida Rio Branco. “A disposição urbana da cidade apresenta uma característica particular, no que tange ao fato de a espacialização da área central estar situada na região mais planificada da cidade”, pontua o especialista em sociologia urbana, o arquiteto e urbanista Mário Queiroz.
Para ele, esta característica estaria intimamente ligada ao conceito de satisfação para a população idosa. “É o que chamamos de “modus vivendi”, notado por questões contemporâneas relevantes, como acessibilidade e mobilidade. Com isso, os idosos teriam facilidade no atendimento de suas necessidades diárias prementes, com utilização das funções e dos serviços urbanos ofertados”, destaca.
A coordenadora do Polo de Enriquecimento Cultural para a Terceira Idade da Faculdade de Serviço Social da UFJF, Sandra Hallack Arbex, pontua que a preferência dos idosos por estes bairros pode estar ligada ao fato de eles já residirem nestes locais, onde foram envelhecendo, preferindo ficar pela comodidade e facilidade. “Juiz de Fora tem seu comércio e serviços localizados no Centro. Penso ser esta a razão da escolha e da permanência, pois, para alguns, a tranquilidade de poder sair a pé e fazer uma caminhada tem um grande peso.”
Outro ponto que justifica esta preferência, para Sandra, é o fato de estes bairros abrigarem casas bastantes antigas, com famílias que moram na mesma residência desde o casamento dos pais, onde construíram sua vida e criaram seus filhos “Os idosos são muito apegados aos lugares onde passaram toda a vida, ou, a maior parte dela. Neste locais estão seus conhecidos, amigos e vizinhos que dão apoio. Além disso, são pontos que dão referência e segurança.”

