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Anunciadas medidas para conter violência em residenciais

Ociosidade de adultos e crianças é apontada como uma das causas dos conflitos no bairro "Isso aqui é terra de ninguém." O desabafo de um comerciante do Bairro Parque das Águas, entre o Monte Castelo, na Zona Norte, e o Borboleta e o Caiçaras, na Cidade Alta, resume bem a atual situação do local, que […]

Por Renata Brum

24/05/2013 às 06h00

Ociosidade de adultos e crianças é apontada como uma das causas dos conflitos no bairro

Ociosidade de adultos e crianças é apontada como uma das causas dos conflitos no bairro

"Isso aqui é terra de ninguém." O desabafo de um comerciante do Bairro Parque das Águas, entre o Monte Castelo, na Zona Norte, e o Borboleta e o Caiçaras, na Cidade Alta, resume bem a atual situação do local, que se tornou palco de homicídios, disparos de armas de fogo, disputa por tráfico e brigas de gangues. O homem não quis se identificar e muito menos conversar com a Tribuna sobre a violência no bairro. Pediu desculpas por não poder falar e apenas resumiu: "Tenho filhas aqui, tenho família." O medo não é só do comerciante, mas de todas as pessoas que vivem no local. A Tribuna passou uma tarde no bairro conversando com a comunidade e percebeu que, gradativamente, o sonho das 565 famílias de conquistar a casa própria está se transformando no pesadelo da violência diante dos crimes bárbaros registrados nos últimos meses, vitimando, sobretudo, adolescentes e crianças. Na última segunda-feira, um menino de 4 anos foi baleado na cabeça quando estava no colo da mãe, que também foi atingida. A criança continua internada em estado grave, no CTI Infantil da Santa Casa de Misericórdia. No mesmo episódio, um jovem,19, foi alvejado e morreu. No mês passado, o corpo de um adolescente,14, foi encontrado amarrado a uma árvore. Ele teve o olho perfurado e a veia jugular cortada por um pedaço de pau. Em fevereiro, outro adolescente, 17, foi assassinado com três tiros, em frente de casa.

No residencial do programa federal "Minha casa minha vida", construído na antiga Fazenda Santa Cândida, faltam serviços básicos, como unidade de saúde, escolas e creches, opções de lazer e projetos sociais. Para sociólogos e para a polícia, essa seria a explicação para o índice crescente de criminalidade registrado no loteamento. A situação também explicita a ausência de um plano efetivo de habitação. Diante do quadro, vários setores da Prefeitura se reuniram nesta quinta-feira (23) e discutiram medidas emergenciais para solucionar os problemas nos residenciais do programa "Minha casa, minha vida", principalmente no Parque das Águas, e adotar ações preventivas para os futuros loteamentos. Um comitê técnico intersetorial foi montado para definir as diretrizes da política habitacional no município.

 

‘Depósito de gente’

"O planejamento equivocado desses residenciais resultou nos problemas que temos presenciado. Hoje funciona como um depósito de gente, pessoas com diversidade cultural e ideológica muito vasta foram deslocadas para esses residenciais, sem ter havido um trabalho preparatório anterior. O Parque das Águas é um barril de pólvora, chega a ser desumano. O Poder Público tem que tomar providências e vai tomar, principalmente para conter a violência, sobretudo a oriunda do tráfico de drogas e da violência doméstica", destacou o secretário de Governo, José Soter de Figueirôa Neto, adiantando algumas das medidas: "Estamos trabalhando em duas direções. Emergencialmente, precisamos contornar os problemas atuais, adotar medidas de impacto com articulação da Polícia Militar e de vários órgãos da Prefeitura para alterar o quadro nos residenciais que já foram implantados. A outra direção é trabalhar em caráter preventivo. Novos empreendimentos estão sendo construídos e, por isso, não podemos repetir os equívocos. A primeira medida será evitar os grandes aglomerados. Os próximos terão, no máximo, 150 a 200 unidades. A segunda é montar uma grande operação urbana para verificar as necessidades de equipamentos urbanos e serviços para essas comunidades, evitando que o caos se instale. Ao mesmo tempo, realizar um trabalho preparatório com a sociedade para que ela entenda que é protagonista de sua história."

Diretor-presidente da Emcasa, Luiz Carlos Santos, enfatiza a trabalho social para reverter essa situação. "Será uma tarefa árdua equacionar os problemas, mas está sendo realizado um mapeamento das prioridades nos residenciais do ‘Minha casa, minha vida’." Ainda segundo Luiz Carlos, Emcasa e Caixa também vão ser mais rigorosas, tanto na seleção de futuros espaços quanto nos cadastros.

 

 

Ociosidade gera ciclo de violência

A rotina no Parque das Águas é vigiada por policiais militares, posicionados estrategicamente no bairro vizinho, Nova Germânia. De binóculos, eles monitoram o vaivém dos moradores entre as vielas de casas semelhantes. Em plena tarde de terça-feira, a movimentação é de um fim de semana. Crianças e adolescentes, que deveriam estar nas escolas, estão nas ruas, e adultos circulam pelo bairro sem ocupação.

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Quem convive diariamente na comunidade sabe que polícia é pouco para dar conta dos problemas, muitos deles relacionados à ociosidade. "Não tem nada aqui. Só uma praça, e a necessidade é muito maior. É preciso um centro educacional para que esses meninos tenham ocupação e se envolvam uns com os outros. Hoje a situação envolve muito mais brigas de gangues do que o tráfico em si. E esse atrito não tem previsão para acabar, só morrendo", explica um militar que atua na Patrulha de Prevenção Ativa (PPA), completando. "Ficamos responsáveis pelo patrulhamento no Caiçaras, Nova Vida, Nova Germânia Parque das Águas, Jardim Cachoeira e Monte Castelo. É humanamente impossível darmos conta de tudo. O que temos feito é ficar de um ponto estratégico monitorando as comunidades. Fazemos a ronda e voltamos para o ponto. O contato preventivo com a comunidade existe. Temos até um telefone na viatura para que os moradores nos acionem diretamente, mas somente isso já não é mais suficiente. Do jeito que está, é preciso um trabalho repressivo constante também. Posicionamos a viatura quando há aglomeração, mas eles migram. Fica um jogo de gato e rato."

 

Mistura de bairros

Delegado responsável pela Zona Norte, Rodolfo Rolli, relaciona o crescimento da violência na região à ausência de estrutura. "Considero essa situação gravíssima. Não é só instalar pessoas em uma área e abandoná-las sem escolas, quadras poliesportivas e projetos sociais. A ociosidade gera um ciclo de violência. Isso é o que está acontecendo. A ociosidade faz aumentar o consumo de drogas, consequentemente fortalece o tráfico, o que acirra ainda mais a disputa entre os grupos rivais. E no caso do Parque das Águas, a situação é pior pois os rivais estão dentro de um mesmo lugar. Tem gente do Olavo Costa, Bela Aurora, Jardim Natal. Isso precisa ser revisto."

Eduardo Salomão Condé, diretor do Instituto de Ciências Sociais da UFJF, especialista em políticas públicas e desigualdade, também condena a forma como foi conduzida a implementação dos residenciais. "Essas pessoas foram conduzidas de um ponto a outro da cidade, perderam toda a relação de vizinhança, toda a ideia de pertencimento. E leva tempo para se construir uma nova identidade. Fica difícil até a relação de solidariedade entre eles. E esse clima em um loteamento mal estruturado agrava o problema. Acaba afastando as pessoas. O lugar pode até não ser ruim, mas passa a ficar para eles."

 

 

Moradores preferem manter o silêncio

Janelas se fechando, pessoas correndo para dentro das casas. O clima de medo já leva a comunidade a se calar. Durante a tarde em que a Tribuna esteve no bairro, muitos preferiram o silêncio. Quem falou, diz que muitos moradores já estão deixando o bairro ou pensando em se mudar e outros construindo muros, na tentativa de impedir o avanço da violência para dentro de casa. "A polícia quase nunca passa. Precisamos de um posto policial aqui urgente. Não deixo meus filhos na rua, e a alternativa está sendo murar as casas", contou uma moradora de 29 anos.

"No dia que acharam o corpo do adolescente amarrado na árvore, fiquei desesperada, sem chão. Em nove meses que estou aqui, foram cinco acontecimentos com gente baleada ou morta. Fico dentro de casa, e meus filhos cada vez mais presos. Já tem muita gente indo embora. Minha ex-cunhada mesmo já saiu daqui", relatou outra moradora, 32.

Uma vendedora, 19, moradora do Santa Cruz, se instalaria essa semana no Parque das Águas, mas está reavaliando a mudança após a ocorrência desta semana. "Não sei mais se venho. No fim de semana passado arrombaram a casa. Agora, fiquei sabendo do menino de 4 anos baleado. Tenho um filho da mesma idade, penso que poderia ter sido ele", desabafou.

Os atritos resultam muitas vezes em depredações dos imóveis. Na segunda-feira, quando o menino de 4 anos, sua mãe 19, e outro jovem também de 19 foram baleados, duas casas foram quebradas. "Três amigos meus estavam aqui, e um grupo já chegou com pedras e paus, e quebraram tudo", contou a moradora, 31.

Comandante da 269ª Cia, tenente Flávio Campos, informou que a PM tem realizado um cadastramento dos moradores suspeitos para controle da situação. Garantiu, ainda, que o policiamento tem acontecido por meio de patrulhas móveis, que permitem a mobilidade e o pronto atendimento, e que, periodicamente, a 3ª Companhia de Missões Especiais também tem atuado na área com a cavalaria.

Já a Prefeitura informou que caberá ao comitê montado traçar um diagnóstico e um prognóstico das ações que deverão ser tomadas de imediato. A assessoria da PJF garantiu que duas novas escolas serão construídas no Jardim Cachoeira para atender as crianças da região, sobretudo, do Parque das Águas. Será um Centro de Educação Infantil, para crianças de 0 a 5 anos e outra de ensino fundamental, do 1º ao 9º ano, com capacidade para cerca de 600 estudantes.

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