
Na contramão da violência, muitos educadores se empenham para propiciar experiências positivas no dia a dia de seus alunos. Embora a visibilidade de ações dessa natureza seja muito menor que a da explosão da criminalidade infantojuvenil, as experiências mostram que os resultados são compensadores. Na Escola Estadual Francisco Bernardino, no Manoel Honório, por exemplo, o professor de história Luís Fernando Risan, que leciona para o 9º ano, tem como principais desafios resgatar os jovens do crime e elevar a autoestima deles.
Foi na música que o docente encontrou o caminho para estreitar os laços com os estudantes, a maioria oriunda da periferia, atraindo a atenção para temas como tráfico de drogas, criminalidade e violência doméstica, presentes no cotidiano de muitos desses adolescentes. A ideia ganhou materialidade no projeto “Musicalidade como instrumento de interação e promoção de um ambiente de paz”, e já colhe bons frutos: as notas e o envolvimento dos alunos cresceram exponencialmente.
“Um dia, trabalhei uma letra de música com os estudantes e percebi que o contexto da sala de aula mudou, houve um interesse geral. Depois, levei a guitarra e a coisa ficou mais fervorosa. Os outros alunos falavam pelos corredores: ‘uma guitarra em sala de aula?'”, relata o professor. Criar situações diferentes da realidade dos jovens, que, muitas vezes, convivem com a violência e com problemas sociais, é a forma que Luís Fernando encontrou para intervir na vida dos alunos e proporcionar momentos de alegria. “Se não tiver algo para promover esses bons sentimentos, a tendência é que alguns sejam influenciados pelo negativismo do cotidiano.”
O professor defende que para combater a violência é necessário fazer um trabalho de paz interior, com algo que acalme, alegre, contagie, inspire, papel muito bem cumprido pela música. “Às vezes, o menino vem para escola com algum problema de casa e, dependendo do que ele está escutando, vai só se inflamando. No projeto, procuro trazer letras para reflexão, que estimulem o debate de temas importantes. Não basta só seguir o currículo escolar, é preciso se envolver e estimular a participação deles em atividades que despertem a sensibilidade.”
Conforme a professora e psicóloga Nathália Meneghine, a violência acontece quando a palavra perde lugar, por isso, é fundamental dar espaço para os jovens, sobretudo os que vivem em áreas periféricas, onde a incidência de crimes contra a vida é maior. “É comum vermos notícias de assassinatos na periferia, eles (os estudantes) sempre têm um conhecido que morreu de forma violenta. Cada vez mais, isso é banalizado, pois acontece a todo momento, está no cotidiano deles. O educador deve mostrar que não é dessa maneira que resolvemos os conflitos, há um outro jeito e esse é um grande passo.”
Sonho coletivo
O colégio vem conseguindo bons resultados com o trabalho, que resultou, inclusive, na formação de uma banda “interclasse”, composta pela cantora Rosimara Angélica de Paula, 18 anos (3º ano), os violinistas Daniel Goulart Coelho, 14 (9º ano) e Laís Almeida, 17 (3º ano), o baixista Juan Pablo Garcia Manoel, 15 (1º ano) e a tecladista Giovanna Stehling, 14 (8º ano). O grupo é denominado Dreamers, sonhadores, em português.
A banda começou a ensaiar no recreio e um burburinho se instaurou pelos corredores da escola, encantando outros alunos. “Um dia resolvi tocar piano, aí apareceu a Laís, dizendo que queria aprender o instrumento. Ela também comentou sobre uma amiga que cantava, mas que era tímida. Veio a Rosimara, toda acanhada, mas logo na nossa conversa eu senti o timbre dela e puxei a música “What’s Up”, do banda de rock norte-americana 4 Non Blondes. Depois a desafiei com “Let be”, dos Beatles”, conta Luís Fernando.
Segundo o professor, o envolvimento com o projeto integrou jovens de várias séries e turmas durante o recreio. Eles deixaram de lado o uso “individualista e alienado” do celular nos intervalos. Além da socialização entre os companheiros, o professor garante que a turma da música já está famosa na escola.
O projeto está repercutindo também no meio acadêmico. Luís Fernando foi convidado para apresentá-lo no dias 5 de dezembro no congresso “Prevenção da Violência nas Escolas e Promoção de uma Cultura de Paz”, da Secretaria Estadual de Educação, em Belo Horizonte.
Notas musicais impulsionam as escolares
A criação da banda Dreamers, formada por estudantes da Escola Estadual Francisco Bernardino, não demorou a impulsionar o surgimento de outros grupos musicais no colégio. “Já tem o pessoal do rap e do pagode”, orgulha-se o mentor do projeto “Musicalidade como instrumento de interação e promoção de um ambiente de paz”, Luís Fernando Risan. Ele garante que, enquanto as notas musicais se propagam, as escolares ficam cada vez melhores.
A violinista Laís Almeida conta que a vontade de ir às aulas é ainda maior agora. “A gente vê que, no Brasil, não tem muito incentivo para as artes, então é maravilhoso ter isso aqui na escola.”
A vocalista da Dreamers, Rosimara Angélica de Paula, 18, também se esforça para ter melhores resultados. “Se a gente não tiver boas notas, não terá tempo para participar da banda.”
Altruísmo
Apaixonado por música e autodidata em vários instrumentos, Luís Fernando quer propiciar aos alunos o contato com o aparato musical que, segundo ele, é capaz de trazer paz interior tanto para quem toca quanto para quem ouve. “Nos anos 1980, você podia ter o dom, mas o acesso à música era só para pessoas ricas. Então eu, como professor de escola pública, não posso deixar passar essa oportunidade para eles.”
Para se dedicar aos ensaios com os alunos, é necessário abrir mão do descanso e ir à escola fora do horário do trabalho. Além do apoio da direção, ele conta com a ajuda de amigos, que emprestam seus equipamentos, instrumentos e dão uma força extra nos ensaios. “Minha intenção é ter uma rádio funcionando nos intervalos da escola, tocando cada dia um gênero musical que conte a história de uma década”, planeja.
Marcas da exclusão
Ausência de política pública, falhas no sistema da educação, impunidade e falta de diálogo são, segundo a professora e psicóloga Nathália Meneghine, fatores que constroem o processo da violência. “Em uma aula sobre reprodução, um aluno disse: ‘Nós temos que ter filho cedo, porque morremos cedo mesmo’. Isso é a consciência da baixa expectativa de vida criada pelo somatório daqueles fatores. É por isso que os projetos sociais que dão abertura aos interesses dos jovens devem ser incentivados. Eles auxiliam a formação da personalidade e do caráter deles”, defende.
Professora há 12 anos, Nathália comenta que todos os dias escuta no colégio relatos sobre a violência, que se torna cada vez mais despida. No mês passado, o assassinato de uma aluna, alvejada na porta de casa, no Bairro Parque das Águas, Zona Norte, a levou ao limite. Em desabafo, ela escreveu um artigo, publicado pela Tribuna, em homenagem à vítima. “Esses meninos são invisíveis porque morrem todo os dias, todas as horas. Ela não foi a primeira aluna que perdi assim. Acompanhei essa menina muito de perto, ela já chegou para mim marcada pela exclusão social. É preciso apagar essas marcas.”
