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Juiz de Fora soma 615 casos de hepatite A em 2026 e liga sinal de alerta

hepatite a
Saneamento inadequado e baixa cobertura vacinal chamam atenção de especialistas (Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil)
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*Anteriormente, a Tribuna divulgou que o total de casos no mês de março em Juiz de Fora era de 416, com base em nota encaminhada pela Prefeitura de Juiz de Fora. No entanto, na manhã de quinta-feira (23), a Administração municipal entrou em contato para corrigir a informação, relatando que o número havia sido repassado de forma equivocada à reportagem, sendo relativos até o dia 22 de abril. Os dados corretos já foram atualizados na matéria.

Juiz de Fora registrou 615 casos confirmados de hepatite A entre janeiro e 22 de abril de 2026, segundo dados da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF). Os números mostram que o avanço da doença se intensificou ao longo do trimestre: foram 58 ocorrências em janeiro, 141 em fevereiro – mês em que a Tribuna já havia mostrado a escalada dos registros – e 336 em março, o maior número do período. Em três meses, o município já soma pouco mais de 17 vezes o total contabilizado em todo o ano passado, quando houve 36 casos entre janeiro e dezembro.

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Segundo a PJF, o crescimento do volume de ocorrências segue as tendências de aumento de casos em todo o país e é acompanhado de forma permanente pelas equipes de vigilância e assistência em saúde do município. Na avaliação de especialistas, porém, o cenário local também pode estar associado a fatores que ajudam a explicar essa alta, como as chuvas intensas e os alagamentos registrados na cidade, que aumentam o risco de contato com água contaminada, além de problemas de saneamento e da baixa cobertura vacinal contra a doença.

A Subsecretaria de Vigilância em Saúde informou que trabalha neste momento no monitoramento dos casos e na adoção de medidas de contenção, como testagem, inspeções sanitárias e acompanhamento dos pacientes. A aposta do município é que o reforço da vacinação e das medidas preventivas contribua para reduzir o número de ocorrências nos próximos meses.

Segundo o Ministério da Saúde, a hepatite A é uma infecção causada por vírus e transmitida principalmente pela via fecal-oral, em situações de contato com água ou alimentos contaminados, falta de saneamento e higiene inadequada. O ministério também alerta que o vírus pode se espalhar em práticas sexuais com possibilidade de contato fecal-oral.

Entre as hepatites virais, as mais comuns no Brasil são as dos tipos A, B e C, enquanto a D tem maior ocorrência na região Norte e a E é menos frequente no país. Em Juiz de Fora, o aumento verificado até aqui está concentrado justamente na hepatite A, forma mais ligada à contaminação fecal-oral e à exposição à água e alimentos contaminados.

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Casos em Juiz de Fora acendem alerta para sintomas

Em meio ao avanço dos casos de hepatite A em Juiz de Fora, relatos de pacientes ajudam a dimensionar como a doença pode se manifestar de forma pouco específica nos primeiros dias, o que pode dificultar a identificação imediata do quadro. Em comum, os dois casos ouvidos pela reportagem começaram com sinais semelhantes aos de outras viroses, especialmente dengue, e só depois evoluíram para manifestações mais características de comprometimento hepático.

A programadora Maria Fernanda Tavares, 25, não teve contato direto com a água da enchente e, por isso, não suspeitou logo que poderia estar com a doença. “De início, me senti muito cansada e indisposta. Também estava com uma febre que não era muito alta. Quando fui à médica, ela achou que poderia ser dengue, e fiz exames para verificar isso”, conta. Os primeiros sintomas apareceram em 14 de março, mas o quadro se agravou cerca de cinco dias depois, quando o mal-estar, a diarreia e o enjoo se intensificaram, além da mudança na coloração da pele. “Não conseguia me alimentar e nem beber água. Fiquei de domingo até quarta internada, até que meus exames começaram a melhorar”, relata.

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O representante hospitalar Marcelo Alves, 36, viveu situação semelhante. Entre 7 e 13 de fevereiro, percebeu a evolução dos sintomas, que também começaram de forma inespecífica. “Inicialmente, o quadro se assemelhava ao da dengue, com dores no corpo e dor atrás dos olhos. Nos dias seguintes, surgiram outros sinais, como perda de apetite, fezes de coloração clara, urina escura (semelhante à cor de chá-mate), além de episódios de vômito após a ingestão de alimentos gordurosos. Também apresentei sudorese intensa, acompanhada de coceira nas áreas onde havia transpiração”, relembra. O diagnóstico foi confirmado após procurar atendimento médico e realizar exame de sangue, que apontou alterações nos níveis de TGO, TGP e bilirrubina compatíveis com um quadro hepático. Ele também precisou ser internado para receber hidratação intravenosa.

Os dois relatos ajudam a explicar por que o diagnóstico da hepatite A pode não ser imediato. Segundo a médica hepatologista Juliana Ferreira, os sintomas iniciais costumam surgir sem definição clara, com cansaço, mal-estar, febre, dores no corpo, náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia. “Depois, podem surgir sinais mais típicos, como urina escura, pele e olhos amarelados, que é a icterícia. Ao apresentar esses sintomas, a orientação é procurar atendimento médico, de preferência sem demora, para avaliação clínica e solicitação dos exames adequados”, recomenda.

A especialista destaca que a atenção deve ser ainda maior em adultos, idosos e pessoas com doença hepática prévia, já que a evolução pode ser mais grave nesses grupos. Ela também alerta que a automedicação deve ser evitada, especialmente com remédios que possam sobrecarregar ainda mais o fígado.

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Embora a alta dos casos de hepatite A em Juiz de Fora esteja associada a diferentes fatores, especialistas apontam que o cenário vivido pela cidade nas últimas semanas ajuda a entender parte desse avanço. Depois do aumento expressivo de registros no primeiro trimestre, a avaliação é que episódios de chuva intensa, alagamentos e exposição a água contaminada reforçam o alerta para um problema que também passa pelas condições de saneamento e higiene.

Fatores associados aos casos de hepatite A

A transmissão da doença ocorre de maneira fecal-oral e também por práticas sexuais com possibilidade de contato fecal-oral, e o contexto recente de Juiz de Fora pode ter colaborado para o aumento dos casos, ainda que não explique sozinho a situação. Embora o município tenha cerca de 96% de cobertura de água tratada e 99% de coleta de esgoto, ainda há situações que mantêm o risco de transmissão.

“Ainda existem pontos de atenção importantes, sobretudo em situações de enchente, transbordamento de esgoto, armazenamento inadequado de água, uso de água sem tratamento seguro e contaminação de alimentos. Ou seja, mesmo em cidades com boa cobertura formal, eventos climáticos e vulnerabilidades localizadas podem favorecer a transmissão”, destaca Juliana Ferreira. Atualmente, a região central da cidade concentra 189 casos da doença, o maior número entre as regiões do município, seguida pelas regiões Sul, com 120 casos; Leste, com 85; Norte, com 66; Sudeste, com 58; Oeste, com 56; e Nordeste, com 41.

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Os impactos do saneamento inadequado, porém, não se restringem à hepatite A. Como destaca o infectologista Mário Novaes, todas as doenças relacionadas à água contaminada e à falta de higiene básica são afetadas. “Com essa situação de enchente, há ruptura dessa cadeia de saneamento. O tratamento da água fica comprometido, o desvio do dejeto fica comprometido, o desvio do lixo fica comprometido. E devido ao que ocorreu na cidade, não sabemos quando a restauração dessas coisas ocorrerá”, analisa.

Vacinação e formas de prevenção

Mário Novaes afirma que nos consultórios particulares da cidade tem sido observado um movimento crescente de adultos procurando a vacinação contra hepatite após verem pessoas próximas com a doença. Para o infectologista, esse movimento pode indicar uma percepção maior de risco diante do avanço dos casos, embora ainda seja difícil mensurar sua dimensão — e a vacinação segue como uma das principais medidas de prevenção. No momento, o sistema de saúde recomenda a vacinação para crianças entre 15 meses e 5 anos incompletos e adultos pertencentes a grupos de risco, incluindo grávidas.

Além da vacinação, especialistas destacam que a prevenção contra a hepatite A também depende de cuidados cotidianos, sobretudo em um cenário de maior risco de contaminação por água e alimentos. Entre as principais orientações estão o consumo de água tratada, filtrada ou fervida e a higiene rigorosa das mãos, especialmente após usar o banheiro e antes de preparar alimentos.

Também é preciso observar cuidados especiais na lavagem de frutas e verduras e redobrar a atenção após contato com água de enchente ou lama. “Em caso de dúvida sobre a potabilidade da água, o uso correto de hipoclorito pode ser orientado pelos serviços de saúde. Também é importante evitar alimentos de procedência duvidosa e reforçar práticas sexuais seguras, porque essa também é uma via reconhecida de transmissão em alguns contextos”, reforça a hepatologista Juliana.

Em Juiz de Fora, a Prefeitura confirmou que a vacina contra a Hepatite A está disponível para crianças de 15 meses a menores de 5 anos não vacinadas, além de grupos específicos, como pessoas com doenças hepáticas, imunossuprimidas, em uso de PrEP e contatos domiciliares e sexuais de casos confirmados, não vacinados.

O imunizante é oferecido nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de segunda a sexta, a partir das 9h, e aos sábados, das 8h às 11h, e de segunda à sexta, das 7h às 17h, no Serviço de Assistência Especializada (SAE), localizado no Centro de Vigilância em Saúde (Rua Antônio José Martins 92, no Morro da Glória).

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