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Professores questionam potencial terapêutico de derivados da cannabis

maconha
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Professores da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), os médicos psiquiatras Alexander Moreira-Almeida e Alexandre de Rezende Pinto questionaram a reportagem “Adesão à cannabis medicinal cresce em Juiz de Fora”, publicada no dia 26 de junho. A matéria, que pode ser lida no site da Tribuna, destaca o aumento de processos na Justiça envolvendo o uso de cannabis medicinal na cidade. Na entrevista que se segue, os dois professores alegam que há falta de evidências científicas que comprovem de forma consistente os efeitos de substâncias presentes nas plantas para o tratamento de diferentes doenças.

Tribuna – Por que a maconha é considerada uma droga e quais efeitos ela causa no organismo de uma pessoa?

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Coordenador do Ambulatório de Álcool e Drogas do HU-UFJF, Alexandre de Rezende Pinto – O que faz da maconha uma droga é sua capacidade de gerar dependência. Há uma ideia de que a maconha não é tão problemática, não gera dependência, mas isso não é verdade. À medida que o indivíduo começa a usá-la, inicia-se um processo de tolerância, ou seja, há a necessidade de uso de doses cada vez maiores. Isso é característica da dependência, juntamente com os sintomas de abstinência, ou seja, perde-se o controle sobre o uso. E, além da dependência, há diversos outros malefícios que a maconha traz, a começar que seu uso é uma porta de entrada para a busca de outras drogas, sobretudo quando começa a ser usada precocemente, na adolescência. Isso acaba aumentando a susceptibilidade desse cérebro ainda em desenvolvimento a buscar substâncias com efeitos mais intensos. Além de que, quando a pessoa se expõe, por exemplo, a uma boca de fumo para comprar a maconha, ela tem contato com outras pessoas e outras drogas, o que pode também influenciar na busca por outras substâncias. Há também problemas psiquiátricos que estão associados à maconha, por exemplo, com esquizofrenia, depressão, ideação suicida e alterações cognitivas.

Alexander Moreira-Almeida é coordenador de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Saúde da UFJF (Foto: Olavo Prazeres/Arquivo TM)

Coordenador de Pesquisa do Programa de Pós-graduação em Saúde da UFJF, Alexander Moreira-Almeida – Recentemente fizemos uma revisão das evidências nesse sentido e, hoje em dia, há centenas de estudos de boa qualidade. Vários deles estudam jovens de 13 e 14 anos e os acompanham por anos. E, basicamente, o que a gente vê é que o indivíduo que usou a maconha na adolescência, por exemplo, tem de duas a quatro vezes mais chances de desenvolver esquizofrenia do que a população em geral. Ele tem o risco aumentado de depressão, tentativa de suicídio, mortalidade e tem uma média de Q.I menor do que aqueles que nunca usaram a maconha.

– Então, o início do uso na adolescência é mais danoso do que para aqueles que começam mais tarde, por exemplo?

Alexandre de Rezende Pinto – Essa é uma variável. Mas, em termos de prognóstico, isso vale para qualquer substância: quanto mais precocemente a pessoa começa a utilizá-la, sobretudo antes dos 18 anos, piores serão os resultados e as consequências do uso. O que os dados mostram, por exemplo, é que quanto mais precoce, frequente e intensamente o indivíduo faz uso da maconha, maior essa associação com a esquizofrenia. Não que começar a fumar maconha com 30 anos de idade não tenha problema. Mas a repercussão é muito mais danosa para o adolescente, como acontece com qualquer substância, principalmente no uso mais precoce.

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– Pode se falar em uso medicinal da cannabis?

Alexandre de Rezende Pinto – Na maconha, há uma série de substâncias, os chamados de canabinoides. Os dois principais são o tetrahidrocanabinol (THC), que gera dependência, causa os “efeitos de onda” (os efeitos psicoativos) da maconha e grande parte dos problemas citados associados à maconha. E há o canabidiol (CBD). Os supostos efeitos positivos estariam relacionados ao CBD. Eu digo supostos porque as evidências são pouco consistentes. Então, não é “maconha medicinal”. O que se tem discutido hoje é o potencial terapêutico do CBD. Mas o que a gente precisa destacar é que apenas uma substância na maconha está sendo pesquisada, ainda com evidências pouco consistentes, na maior parte dos casos, para esse uso terapêutico.

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Alexander Moreira-Almeida – É claro que é importante buscar qualquer tipo de intervenção terapêutica que seja eficaz (para o tratamento de doenças). Mas é preciso que isso seja feito com rigor científico. Esses cuidados devem ser tomados para o uso de qualquer substância. Há milhares de substâncias, inclusive, sendo testadas para depressão, autismo e Alzheimer, mas que não recebem a mesma atenção. Este foco na maconha levanta suspeita de que haja outros interesses, como o financeiro de empresas ligadas à cannabis. Além disso, é essencial separar o que é o uso do canabidiol (uma dentre as mais de 200 substâncias da cannabis) do que se chama de “maconha medicinal” e de seu uso recreativo. São coisas completamente diferentes. É claro que ela pode ter uma, duas ou mais substâncias com efeitos terapêuticos, mas isso não significa que a maconha seja terapêutica. Há uma enorme carência de estudos de boa qualidade sobre o assunto e isso é fundamental. Quase tudo do que se anuncia sobre isso para o leigo não tem base científica.

– Quais são os usos comprovados de remédios à base de substâncias da cannabis?

Alexandre de Rezende Pinto é coordenador do Ambulatório de Álcool e Drogas do HU-UFJF (Foto: Pedro Salgado)

Alexandre de Rezende Pinto – O que temos hoje de comprovado é o uso do CBD no tratamento de epilepsia refratária, aquele quadro de epilepsia em que o paciente tem crises frequentes e diárias e para o qual nenhum outro tipo de medicação, os chamados anticonvulsivantes, funcionam. Para isso temos evidências, e alguma coisa para dor crônica. Para o tratamento de outras doenças como autismo, para Alzheimer, por exemplo, não há evidências.

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– Na avaliação de vocês, o termo “cannabis medicinal” é inadequado. Por quê? 

Alexander Moreira-Almeida – O Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria já se manifestaram contra o uso deste termo, por ser enganoso. O que se deve focar é na investigação de potenciais efeitos terapêuticos de derivados canabinoides. Com rigor, prudência, bom senso e foco na saúde do paciente. Quando se faz a propaganda de maconha medicinal, há uma redução da percepção de risco da maconha. E há estudos – como um publicado pela revista científica “The New England Journal of Medicine” – mostrando que, quando se diminuiu a percepção de risco, aumenta a taxa de consumo e, quando aumenta o consumo, aumenta a taxa de esquizofrenia, tentativas de suicídio e de acidentes automobilísticos, por exemplo, e de outros problemas associados ao consumo da maconha. Além disso, pode gerar uma falsa esperança de cura e alívio entre pessoas lidando com doenças graves, afastar de tratamentos eficazes e ainda gerar efeitos colaterais deletérios. A disseminação da ideia de que maconha é medicinal e que seu uso recreativo não é problemático, gera um aumento de consumo e dos efeitos danosos decorrentes.

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