
Depois de retirar os pertences, resta um último olhar para a casa que, em breve, deixará de existir. A despedida tem data marcada. Moradores de 19 imóveis na Zona Norte atingidos pelo desastre socioambiental de fevereiro têm até segunda-feira para deixar suas casas. Na terça (20), elas serão demolidas.
O aviso veio no sábado, no dia 10 deste mês. Fiscais de Postura da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) oficializaram a notificação aos proprietários. Há cinco dias da demolição, na manhã de quinta-feira, Wellington Barbosa, de 42 anos, ajudava a mãe a retirar os últimos objetos da casa na Rua Ricardo Ribeiro de Novais, no Bairro Jóquei Clube, onde ela viveu por mais de três décadas ao lado do marido, pai de Wellington.
A casa estava interditada desde fevereiro. Em maio, a família enfrentou a morte do pai de Wellington. Agora, uma nova perda se impõe. O imóvel está entre os cinco que serão demolidos no bairro após a Defesa Civil identificar riscos para ocupação. As casas estão distribuídas entre a Rua Ricardo Ribeiro de Novais e as ruas Wenceslau Braz e Detetive José Felipe.
Embora a casa não tenha sido atingida diretamente pela terra, os danos à estrutura do quintal comprometeram a segurança de toda a construção. O imóvel, que começou pequeno e foi ampliado aos poucos, era resultado de décadas de trabalho do pai como motorista e da mãe em serviços gerais, conta o filho com a voz embargada.
A mãe de Wellington foi uma das 1612 famílias consideradas habilitadas para serem contempladas pelo programa Compra Assistida, política habitacional que permite a aquisição de uma nova moradia com recursos públicos para famílias que perderam seus imóveis ou vivem em áreas consideradas impróprias para habitação. É ali, no novo apartamento, que ela tentará reconstruir a vida em meio aos seus lutos.
Moradores do Jardim Natal ainda aguardam por respostas
No bairro vizinho, também haverá demolições. Oito meses depois do desastre, o Jardim Natal, na Zona Norte, ainda convive com o retrato de fevereiro. Agora, 14 imóveis distribuídos pelas ruas Tenente Lucas Drumont, Pedro Moreira Cavalcanti, José Nunes Pereira, Doutor Augusto Eckmann e Antônio Carlos da Silva serão demolidos.
Cláudio Natalino Fernandes, de 58 anos, ex-morador da Rua Tenente Lucas Drumont, havia construído perto dali uma casa para cada um dos dois filhos. Atualmente, todas elas, assim como a dele, foram consideradas impróprias para moradia e estão totalmente interditadas. Ele diz ainda não saber se a casa onde morava com o irmão e dois sobrinhos está entre os imóveis que serão demolidos na terça-feira.
Desde fevereiro, o motorista de ônibus aposentado conta que tem “morado de favor”, mas ainda visita seu antigo endereço para garantir que nada foi mexido ou furtado. Além da incerteza sobre o futuro da casa, Cláudio também aguarda, durante esses meses, uma resposta sobre o auxílio reconstrução, benefício que prevê o pagamento de R$ 7.300 às famílias atingidas pelas chuvas daquele mês. Segundo dados do portal Juiz de Fora Adiante, mantido pela Prefeitura, 33.504 pessoas se cadastraram para receber o benefício, mas, até o momento, apenas 9.022 famílias tiveram acesso ao recurso.
Questionado, o Executivo municipal reiterou que os moradores de imóveis destinados à demolição são avisados previamente e acompanhados pela Defesa Civil, pela SAS e pela Sedupp, “com encaminhamento ao Compra Assistida e prazo para retirada de pertences e materiais reaproveitáveis”.
Nem todos os imóveis interditados, no entanto, serão demolidos. Conforme a Prefeitura, nos casos em que há previsão de demolição, os proprietários são notificados por escrito, com antecedência, após solicitação da Defesa Civil. A comunicação pode ocorrer presencialmente, por e-mail ou por publicação no Diário Oficial. O município informou ainda que os imóveis são monitorados continuamente e que eventuais mudanças no diagnóstico são comunicadas aos moradores.
Sobre a situação de Cláudio e a falta de resposta em relação ao auxílio reconstrução, a Prefeitura não se manifestou.
Entre perdas e recomeços, mulher está há oito meses vivendo no próprio brechó
A falta de informações sobre o futuro dos imóveis também chega a Aldineia Aparecida de Paula, de 56 anos, que ainda não sabe quando sua casa, na Rua José Nunes Pereira, será demolida.
Ela deixou o imóvel ainda em fevereiro, depois que as chuvas provocaram uma rachadura que comprometeu toda a estrutura da casa. No local, havia cinco moradias independentes, identificadas pelo mesmo número, onde viviam diferentes gerações da família, entre mães, filhos, irmãos, cunhados e sobrinhos. Todos precisaram sair. Não é a primeira vez que ela passa por isso. Em 2001, Aldineia precisou deixar a casa onde morava após o teto cair sobre a cama. À época, ela chegou a improvisar um teto com lona. Até que, em 2026, ela se viu na mesma situação.
Após a interdição, a mulher, proprietária de um brechó no Bairro Francisco Bernardino, na parte mais baixa da região, levou os móveis e pertences que conseguiu retirar de casa para o estabelecimento. O brechó também foi inundado pelas chuvas nos dias que se seguiram, e ela perdeu tudo novamente.
Pastora de uma igreja evangélica, que antes funcionava na própria casa, Aldineia conta que, com a ajuda da Sociedade Beneficente Mão Amiga e de doações anônimas, conseguiu recuperar o brechó e receber móveis e eletrodomésticos. Entre as doações, também vieram vestidos de noiva, que pretende vender na loja, realizando um sonho antigo.
Foi no próprio comércio, agora também ocupado por vestidos e grinaldas, que ela passou os últimos oito meses morando, até conseguir, em outubro, um apartamento por meio do programa Compra Assistida.
Ao olhar para o futuro, Aldineia revela que seu desejo é ver outras famílias que também perderam suas casas, entre elas seus antigos vizinhos, conseguirem um novo lar, assim como ela. A pastora relata, entretanto, que, embora grata por tudo que conseguiu, a tristeza relacionada a tudo que viveu permanece, mas ela segue.
Ao visitar o antigo endereço, como faz todos os dias, Aldineia se lembra do filho ainda criança, pedindo para brincar na rua onde, agora, casas serão demolidas. “Quando a gente perdeu a casa, não estava falando só do imóvel. A gente estava falando das lembranças dos nossos filhos pequenos, que foram criados ali, das festividades de Ano-Novo, de Natal. Hoje, a gente só tem lembranças, né?”, conclui a pastora.
Demolições se sucedem e expõem desafios habitacionais
Os imóveis dos bairros Jardim Natal e Jóquei Clube não foram os únicos a serem derrubados e a previsão é que também não sejam os últimos. Desde os deslizamentos iniciados em 23 de fevereiro, demolições se sucederam em diferentes regiões da cidade. Somente entre os dias 12 e 16 de outubro, segundo balanço enviado pela Prefeitura à Tribuna, a Defesa Civil realizou outras 34 demolições: 20 no Solidariedade, 12 no Santa Rita de Cássia, uma no Grajaú e uma no Alto Grajaú.
Em março, Maria das Graças viu ser colocada abaixo a casa onde viveu por 28 anos, no Bairro Esplanada, como mostrou a Tribuna. No mesmo mês, oito imóveis foram demolidos no Graminha. Em agosto, outros 22 vieram abaixo no São Bernardo e, em outubro, mais quatro no Eldorado.
Também em outubro, 16 casas foram demolidas no Bairro Dom Bosco. Em reportagem da Tribuna, moradores relataram dificuldades para conseguir assistência. A retirada das famílias expôs ainda um impasse entre a Prefeitura e a UFJF sobre a responsabilidade pelo terreno. Já no Eldorado, a Tribuna também mostrou como as demolições abalaram vínculos entre vizinhos que conviviam há décadas.
Para o engenheiro civil Jonathan do Amaral Braz, doutorando em modelagem computacional, as consequências das chuvas de fevereiro não podem ser compreendidas apenas pela intensidade das precipitações. Embora reconheça o caráter extremo do fenômeno, o engenheiro chama atenção para a forma como Juiz de Fora cresceu ao longo das décadas. O relevo acidentado, associado à expansão urbana desordenada e à ocupação de áreas de risco, contribuiu para ampliar a vulnerabilidade da população aos desastres.
Nesse cenário, o especialista destaca a importância de intervenções preventivas, como a melhoria dos sistemas de drenagem, o controle da erosão e a ampliação da cobertura vegetal nas encostas. Essas medidas podem reduzir os riscos e, em determinadas situações, contribuir para a permanência das famílias. A decisão entre recuperar uma área ou retirar definitivamente seus moradores, entretanto, não depende apenas de critérios de engenharia. Segundo ele, envolve também a viabilidade econômica das intervenções, a atuação do poder público e as políticas de assistência social e habitação. “É uma discussão que não se encerra no âmbito municipal”, ressalta.
As histórias têm em comum a perda de moradias condenadas por estarem em áreas de risco, mas o destino das famílias não foi o mesmo. Segundo a Prefeitura, os moradores são encaminhados ao programa Compra Assistida ou a outras políticas habitacionais. O acesso ao benefício, porém, depende de critérios como a renda familiar de até R$ 4.700. No Dom Bosco, aquelas que ultrapassaram o limite tiveram de custear a própria mudança.
Em junho, diante das dificuldades relatadas pelas vítimas das chuvas, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) realizou uma audiência pública em Juiz de Fora para reunir demandas e buscar soluções que evitassem a judicialização dos casos.
Para além da assistência às famílias atingidas, permanece o desafio de prevenir novos desastres. Na avaliação do engenheiro Jonathan do Amaral Braz, a repetição desses episódios reforça a necessidade de políticas habitacionais que considerem os riscos geológicos e a ocorrência de eventos climáticos extremos, acompanhadas de recursos para sua implementação.
