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Janeiro Branco: por que a pressa adoece e como estabelecer metas possíveis

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O início de um novo ano pode ser um gatilho para o estresse, sobretudo porque a cobrança por renovação e a demanda contemporânea por “começar do zero” costumam vir acompanhadas da expectativa de estabelecer metas. Nesse contexto, a pressão para cumprir resoluções e sustentar mudanças rápidas tende a ampliar a ansiedade. No Brasil, os reflexos desse quadro já aparecem nos indicadores: o país ocupa o 4º lugar entre as nações mais estressadas, com “42% da população relatando esse sentimento”, conforme pesquisa de 2024 do Instituto Ipsos. Além disso, de acordo com a Fiocruz, o país lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade, com 9,3% da população afetada, o que equivale a cerca de 18 milhões de brasileiros.

Dentro do movimento Janeiro Branco, que busca colocar a saúde mental em evidência, a segunda matéria da série da Tribuna de Minas aborda um ponto que atravessa esse período de recomeços: no mundo atual, é possível desacelerar de forma saudável?

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Para entender como contornar a pressão causada por esses estímulos, a Tribuna ouviu a coordenadora de Saúde, Segurança e Bem-Estar da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a psicóloga Leandra Duarte, que chama atenção para a forma como o início do ano costuma ser interpretado e vivido.

Janeiro chega com o simbolismo de uma “folha em branco”. No entanto, esse recomeço muitas vezes vem acompanhado de uma pressão invisível. Para Leandra, o fenômeno tem raízes no modo como organizamos nossa existência. “Janeiro inaugura os 12 meses que virão pela frente e fica muito associado às metas, à organização da vida.” O problema, segundo ela, é que essa organização ocorre em um contexto de urgência.

“A gente vive hoje um momento que é marcado muito pela cultura da pressa, da produtividade, por uma ideia de que a gente tem que dar conta de tudo.” Essa percepção é corroborada por dados globais: a saúde mental segue sendo a maior preocupação de saúde no mundo. No Brasil, esse índice atingiu um novo pico em 2024, com 54% da população apontando o tema como o principal problema de saúde enfrentado no país.

E a conta dessa exaustão chega à Previdência. De acordo com o Instituto Janeiro Branco, organização da sociedade civil sem fins lucrativos dedicada à promoção da saúde mental, foram registrados “440 mil afastamentos por transtornos mentais somente em 2024 o maior número em pelo menos dez anos”.

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Janeiro costuma intensificar a cobrança por metas, e especialistas apontam que desacelerar pode ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade (Foto: Felipe Couri)

Diagnóstico de um mundo exausto

A sensação de “ter que dar conta de tudo” não é um desconforto isolado, mas um sintoma global. Dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados em setembro de 2025 no relatório “World mental health today“, revelam um cenário alarmante: transtornos mentais afetam mais de um bilhão de pessoas em todas as regiões. O relatório aponta ainda que esses transtornos “são a principal causa de incapacidade, enquanto o suicídio continua sendo uma das principais causas de morte”.

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No Brasil, a situação ganha contornos de urgência pública. O país lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade, com 9,3% da população afetada. Além disso, uma pesquisa da Ipsos, de 2024, mostra que a saúde mental é hoje a maior preocupação de saúde dos brasileiros, citada por 54% da população, índice que supera as preocupações com câncer e doenças infecciosas.

Da disciplina ao desempenho

Para entender por que chegamos a esse nível de esgotamento, Leandra recorre ao pensamento do filósofo Byung-Chul Han, autor do livro “Sociedade do cansaço”. Ela explica que houve uma mudança na forma como a sociedade nos cobra. “Antes a gente vivia na sociedade da disciplina, que era a sociedade das normas, em que o imperativo era o ‘você deve’. Hoje, estamos na sociedade do desempenho, em que o imperativo é que ‘a gente tem’, a gente tem o tempo todo que fazer isso, fazer aquilo. Com isso, nada nunca é o suficiente.”

No livro citado por Leandra, Han argumenta que “a sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho”. Nessa nova lógica, o indivíduo não é mais “sujeito”, mas sim um “projeto” que se autoexplora. “O sujeito de desempenho está livre da instância externa de domínio que o obrigaria a trabalhar ou que poderia explorá-lo. É senhor e soberano de si mesmo”, diz o autor. Mas essa aparente liberdade, contudo, é o que pode levar ao esgotamento, pois o indivíduo se torna também o seu próprio carrasco.

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Leandra pontua que essa mentalidade gerou o que ela chama de “naturalização da exaustão”. Em sua visão, atualmente “estar cansado significa que a gente está fazendo muita coisa e acaba sendo também sinônimo de sucesso. Então, a gente começa a ver as pessoas se orgulhando de estarem cansadas, de estarem sem tempo, de estarem o tempo todo ocupadas”.

Essa inquietude moderna já foi alvo de crítica do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que no século XIX escreveu em seu livro “Humano, demasiado humano, trecho citado por Han: “Por falta de repouso nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo.”

O resgate do ‘ócio criativo’

Contra essa “barbárie” da pressa, a pauta do Janeiro Branco propõe a escuta interna. Nesse meio surgem as metas gentis, para quem deseja planejar o ano sem adoecer. “O primeiro ponto é a meta partir da realidade e não do ideal. Então, quando eu estou partindo da realidade, eu considero o meu momento de vida, a minha história e o que eu tenho de aparato físico e psíquico para dar conta de alguma coisa.”

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A meta gentil exige que reconheçamos nossa natureza biológica. “Temos que lembrar que somos seres humanos e não máquinas.” Dessa forma, a pausa não é vista como interrupção da produtividade, mas como condição para ela.

É nesse ponto que entra o conceito de ócio. Leandra defende a importância do silêncio e do recolhimento, que, segundo ela, muitas vezes são confundidos com descompromisso. “Na verdade, é nesse momento de ócio que é possível dar lugar para que as questões apareçam. Porque, quando a gente está vivendo, não temos tempo para pensar se aquilo é realmente o que queremos.” Para a psicóloga, essas pausas favorecem “se perceber e entender o que te traz bem-estar, o que faz mal-estar e, a partir daí, conseguir fazer escolhas também mais conscientes.”

Para interiorizar que a pausa não é um erro, Leandra afirma que é necessário reconhecer a condição humana, “dando lugar para a pausa, para a tristeza, dando lugar para o sofrimento. É um exercício que parte da gente ir se estabelecendo aos poucos, dia a dia.”

Ela também observa que, muitas vezes, o foco no resultado torna menos visível o caminho percorrido. “Nesses momentos de desacelerar, nesse momento de silêncio interior, nesse momento de conversa, é também um momento em que a gente pode reconhecer os nossos esforços e mesmo que não tenha sido o ideal, pensar que é o que foi possível. A gente tem que entender que o possível é muito importante.”

Nesse processo, as metas passam a ser compreendidas com margem para ajustes. “A gente tem que ter essa possibilidade de repactuar. Eu vou estabelecer a meta tal, mas, em determinado momento, eu posso entender que aquilo não faz mais sentido para mim ou que aquilo não é possível para mim.”

Como estabelecer metas possíveis

Para que as promessas não se transformem em combustível para um novo esgotamento, a proposta é mudar o ponto de partida: em vez de perseguir um “ideal” que não considera a vida real, construir metas ancoradas no “possível”. A partir da entrevista com a psicóloga Leandra Duarte, a Tribuna reúne orientações para planejar o ano com mais presença e menos urgência.

Faça o “pacto com a pausa”

Em uma sociedade em que “estar cansado significa que a gente está fazendo muita coisa e acaba sendo também sinônimo de sucesso”, o ato de parar ganha outro sentido. Reserve janelas na agenda para o “momento de silêncio, esse momento de relaxamento que acaba que, às vezes, fica muito associado a um descompromisso”.

Priorize o real sobre o ideal.

Ao planejar metas, olhe menos para referências externas e mais para a sua própria rotina. “O primeiro ponto é partir da realidade e não do ideal, considerar o meu momento de vida, a minha história, o que eu tenho de aparato físico e psíquico para dar conta de alguma coisa.” Se a meta não cabe no cotidiano de hoje, tende a virar cobrança e ansiedade.

Abandone a “autoexploração”

Lembre-se de que não somos apenas “projetos” de desempenho. Como alerta Byung-Chul Han, o excesso de positividade e o imperativo do “eu posso” podem levar ao autoesgotamento. “O sujeito de desempenho está livre da instância externa de domínio que o obrigaria a trabalhar ou que poderia explorá-lo… mas acaba se explorando a si mesmo”. Reconhecer que “não é máquina” ajuda a reorganizar expectativas e limites.

Valorize o “possível”

A caminhada é feita de passos reais, não de saltos. No fim do dia, pratique o reconhecimento do esforço. “Mesmo que não tenha sido o ideal, temos que pensar que é o que foi possível. A gente tem que entender que o possível é muito importante.”

Estabeleça limites de conexão

Não permita que a lógica do trabalho invada o tempo de recuperação. Aplique a orientação da profissional: “E-mail institucional é para ser visto enquanto eu estou na instituição, então vou responder quando for possível, no meu horário de trabalho”. Desacelerar também passa por reduzir a disponibilidade permanente e criar espaço para a própria escuta.

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