Após temporais, buracos e erosões seguem sem solução e preocupam moradores em Juiz de Fora
Passados dois meses das chuvas de dezembro, Tribuna visita Jardim Olímpia, Benfica e Bonfim e verifica agravamento dos danos após novos temporais
As chuvas fortes da última semana voltaram a abrir crateras e a agravar riscos em diferentes bairros de Juiz de Fora, em um cenário associado a falhas na drenagem e em outras estruturas urbanas. Entre dezembro do ano passado e o início de fevereiro deste ano, o acumulado chegou a 679,4 milímetros, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Há dois meses, em 15 de dezembro, a cidade registrou estragos em diversos bairros após um acumulado superior a 110 milímetros em apenas duas horas. Na ocasião, a Zona Leste foi a região mais atingida, com crateras abertas, lama, alagamentos e danos estruturais.
A situação tem causado apreensão, sobretudo entre moradores das áreas mais afetadas e de locais historicamente impactados por temporais. A Tribuna voltou às ruas nesta semana para verificar a situação cerca de dois meses após as principais ocorrências e os agravamentos provocados pelas chuvas atuais. Os moradores afirmam que, mesmo semanas depois dos primeiros estragos, os reparos para solucionar os problemas ainda não foram realizados.
Cratera avança e ameaça casas no Jardim Olímpia

Moradores da Rua Antônio Espanhol Celeste, no Bairro Jardim Olímpia, Zona Sul, convivem com o avanço de uma cratera que se abriu após as fortes chuvas de dezembro e voltou a ceder nos últimos dias. Segundo relatos, restam cerca de 60 centímetros de asfalto para a passagem de veículos e pedestres, o que tem aumentado o risco de acidentes e provocado insegurança entre as famílias que vivem no local.
Morador do local há 23 anos, Paulo Sérgio Souza, 57, acompanha de perto o agravamento do problema localizado exatamente em frente a sua residência. “Essa parte começou a cair em dezembro, depois daquela chuva forte. Tinha um cano de 300 milímetros que entupiu com a força da água e acabou quebrando. Em três dias (com as chuvas atuais) , caiu o resto”, afirma.
De acordo com ele, uma erosão antiga já havia atingido a parte mais baixa da via anos atrás, mas o trecho em frente ao número 200 começou a ceder recentemente. “Agora está perigoso. Tem só 60 centímetros para passar. A gente evita que veículo pesado entre aqui, porque pode cair mais”, relata.
Paulo diz que a Defesa Civil esteve no local e que a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou haver um projeto para a obra, inclusive com análise de solo já realizada. No entanto, até o momento, não houve início dos reparos. “A gente quer um posicionamento para saber se vai ter segurança aqui. Até agora, nenhum secretário de Obras veio”, cobra.
Segundo ele, uma intervenção paliativa feita anteriormente – com a colocação de terra na borda da cratera – pode ter contribuído para aumentar o peso sobre a área afetada. O morador também aponta que o principal problema é o escoamento da água da chuva. “A água pluvial desce toda para essa rua. Enquanto não resolver isso aqui, vai continuar caindo.”
Segundo Paulo, na última segunda-feira (9), foi construída uma espécie de contenção no asfalto para tentar reduzir a força da enxurrada. Na manhã de quarta-feira (11), quando a Tribuna esteve no local, uma equipe da Companhia de Saneamento Municipal (Cesama) realizava reparos na rede de esgoto, que havia se rompido, e fazia um desvio para evitar que o volume de esgoto do bairro continuasse escoando para o trecho danificado.
‘É um problema antigo’, diz moradora
Moradora da mesma região há quase 40 anos, a aposentada Fátima das Graças Almeida Firmino, 68, afirma que a situação se repete há décadas. “Isso aqui já é antigo. Fazem um remendo, mas não resolvem. O último remendo caiu”, lembra.
Segundo ela, o risco é constante para quem precisa passar pelo local. “Eu passo segurando no muro. Se escorregar, cai lá embaixo. Se uma pessoa passar aqui desatenta, pode cair.” Fátima afirma que há crianças que utilizam a rua diariamente para ir à escola e teme que o problema se agrave com as próximas chuvas. “Tem muita água ainda para vir. O medo da gente é ficar sem passagem e o poste também ceder. Aí fica sem luz, sem internet.”

A moradora também relata ter solicitado, em 2024, a revisão e isenção do IPTU devido às condições da via. Segundo ela, apresentou documentos solicitados pela Prefeitura, mas ainda não obteve retorno. “Eu entrei com o pedido em 2024 e até agora nada. A gente paga o IPTU caro e continua desse jeito.”
Os moradores pedem a realização urgente de obra estrutural, além da instalação de lona adequada para contenção da encosta, medida que, segundo eles e constatado pela Tribuna, ainda não foi providenciada.
Ponte da JK concentra água, mato e riscos a pedestres
Além do caso no Jardim Olímpia, moradores também cobram providências para a ponte sobre o Rio Paraibuna, na Avenida Juscelino Kubitschek (JK), sentido Barreira do Triunfo, na Zona Norte da cidade.
Segundo o morador da região Vanderlei Tomaz, 61, a estrutura apresentou, no último domingo (8), grande acúmulo de água sobre a pista, situação recorrente, que tem levado motoristas a mudarem de faixa para evitar as poças. O mato nas margens cresceu e já ocupa as calçadas, dificultando a passagem de pedestres – entre eles, crianças que utilizam o trajeto diariamente para ir a escolas nos bairros Miguel Marinho, Ponte Preta e Benfica.

O morador que formalizou a reclamação junto à Prefeitura também aponta que os guarda-corpos estariam abaixo da altura considerada segura, aumentando o risco de quedas. Parte da estrutura já teria cedido próximo a uma cratera aberta em uma das margens da ponte. Outro problema citado é a falta de iluminação no local.
Ainda conforme o relato, meio-fios deslocados na Avenida JK estariam direcionando parte da enxurrada para a Rua João Saldanha, no Jardim Santa Bárbara, provocando alagamentos em residências da região.
Nesta quarta, a Tribuna verificou que o serviço de poda de árvores foi realizado pela PJF, assim como a desobstrução das saídas de água. Na ocasião, uma equipe da Secretaria de Obras atuava na intervenção da ponte. As demais questões citadas pelo morador, como ausência de iluminação e baixa segurança do guarda-corpos ainda continuam com o mesmo cenário.
Buraco aberto em rua do Bonfim segue sem solução há dois meses

Situação semelhante é vivida por Paulo Brás, 65, no Bairro Bonfim, Zona Leste. No dia 15 de dezembro, a estrutura da garagem dele caiu dentro de um córrego na Rua Professor Francisco Faria, junto com parte da via. Desde então, nenhuma intervenção definitiva foi realizada no local.
Segundo o morador, a situação tem piorado com as chuvas recentes. “Há poucos minutos (8h30 do dia 12 de fevereiro), um muro de uns quatro ou cinco metros, com cerca de três de altura, acabou de rachar e pode cair junto com o hidrômetro da pracinha. A vizinha está aterrorizada”, relata á reportagem.
Ele afirma que as lonas instaladas na área já não oferecem proteção. “Está tudo rasgado. Chove muito, venta, desce bambu e lixo pelo córrego e vai rasgando as lonas. Já não está protegendo mais nada”, diz. Com isso, o buraco teria se transformado em uma área alagada. “Virou uma piscina de dejetos.”
Paulo afirma que, desde dezembro não recebe retorno da Prefeitura. “Até agora não apareceu ninguém para dar informação nenhuma”, diz. Segundo ele, a casa não apresenta trincas, mas a garagem foi totalmente perdida. “O que eu perdi foi minha garagem e meu dinheiro. Eu deixei de trabalhar para ficar tomando conta disso aqui.”
O morador relata ainda que a vizinha, que vive em um apartamento próximo ao trecho afetado, tem feito contatos frequentes com a Defesa Civil e a Prefeitura por causa do risco de novos deslizamentos. “Qualquer barulho diferente a gente fica imaginando que a casa está indo embora.”
PJF diz que obras estão em fase de projeto e monitoramento segue
A reportagem procurou a Prefeitura para saber se há previsão de obras nos locais citados na matéria, quais medidas emergenciais serão adotadas e se o pedido de isenção de IPTU mencionado por um dos moradores está em análise. Em resposta, a PJF disse que a área do Jardim Olímpia integra o planejamento de obras do Executivo e que a Defesa Civil está realizando o monitoramento permanente do local, avaliando as condições do solo e o comportamento da encosta.
“No momento, as intervenções estruturais necessárias encontram-se em fase de elaboração de projetos técnicos, que ainda precisam passar pelos trâmites de aprovação para posterior licitação. Sempre que identificada a necessidade, ações emergenciais estão sendo adotadas para mitigar riscos e garantir a segurança da população.”
A Prefeitura também informou que tem conhecimento dos transtornos relatados pelos moradores, principalmente em períodos de chuva intensa, e afirmou que vem atuando com responsabilidade e critérios técnicos para viabilizar a execução das obras no momento considerado adequado. Segundo a Administração municipal, em situações de instabilidade do solo, “intervenções de maior porte não são recomendadas, pois poderiam aumentar os riscos já existentes”.
Já em relação a Benfica, a Prefeitura disse que iniciou a atuação na área da ponte de imediato, com a realização de vistoria técnica e diagnóstico assim que identificado e relatado o problema. “Neste momento, equipes da Secretaria de Obras realizam o reparo da cabeceira e outras melhorias no local”, acrescenta.
Sobre a cratera do Bonfim, o Executivo afirma que a Secretaria de Obras atua no local desde o primeiro momento, destacando a implantação de uma rede de drenagem provisória na Rua Francisco Faria, conectando a antiga rede ao córrego, com o objetivo de evitar o aumento da erosão. A PJF ainda ressaltou que o trecho foi coberto com lona, isolado e permanece sob monitoramento.
“A Administração municipal compreende a expectativa da população por uma solução definitiva. No entanto, é importante destacar que as obras de reconstrução da via terão início assim que houver condições climáticas adequadas, tanto para garantir a qualidade das intervenções quanto para assegurar a segurança da população durante a execução dos trabalhos”, diz o posicionamento.
IPTU
Sobre o IPTU, a PJF informa que, em caso de dificuldades quaisquer ou dúvidas, o atendimento pode ser feito de forma assistida em qualquer unidade do Diga, que orienta e auxilia no envio da documentação necessária. Para quem optar por fazer o pedido pela internet, o processo deve ser feito pelo protocolo “Isenção IPTU – Enchente” no Prefeitura Ágil, com análise do pedido a cargo da Defesa Civil.
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