
Represa João Penido está irreconhecível em trecho na altura do Náutico
Em trechos do Rio Paraibuna há mais pedras e terra do que água corrente
A situação do abastecimento de água em Juiz de Fora chega a um ponto crítico com a estiagem prolongada e o forte calor dos últimos dias. Ontem a cidade registrou a maior temperatura do ano: 34,4 graus, e a umidade relativa do ar atingiu estado de alerta, com 19%. O baixo nível das represas de São Pedro, na Cidade Alta, e João Penido, na Zona Norte, está preocupante, e o rompimento de uma das células do reservatório no Santa Terezinha, região Nordeste, na última sexta-feira, colaborou para agravar o quadro, já que a rede abastece quase todas as regiões da cidade. Sem previsão real de chuva pelo menos até o dia 20 deste mês e com possibilidade de aumento do calor, a Cesama conta com a colaboração da população para evitar um possível racionamento. A expectativa está no início da operação de Chapéu D’Uvas, que permanece em estado de testes. A previsão era de que a água da barragem chegasse, de fato, à casa dos juiz-foranos ontem, mas o prazo foi transferido para amanhã.
A Cesama não possui dados que apontem se a seca atual é a maior da história, contudo, o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, garante nunca ter visto um período de estiagem e de prejuízos aos mananciais tão grande. “À medida que esse período de seca se prolonga, a situação vai ficando cada vez pior. É mais um dia de alto consumo e de menos recuperação de água. Embora a situação imediata esteja contornada, é sempre uma questão crítica e preocupante porque precisamos pensar no futuro e na recuperação desses mananciais. Historicamente, o período chuvoso em Juiz de Fora começa na terceira semana de setembro. Estamos no meio de outubro, e nada até agora.”
Marcelo também diz que, desde sexta, quando houve o rompimento da rede em Santa Terezinha, o abastecimento está operando com uma dificuldade muito maior, e estão sendo realizadas manobras para contornar. “Estamos remanejando reservatórios e realizando operações que dão mais trabalho. O booster (construído ao lado do Parque de Exposições e inaugurado em maio) é um elemento que está nos dando uma ajuda muito grande, porque ele consegue agilizar a entrega da produção de água para a distribuição do sistema.”
João Penido nunca foi vista tão vazia
Segundo a Cesama, a Represa de João Penido está com sua capacidade de abastecimento cada vez mais reduzida, chegando agora ao patamar dos 28%. Ontem, a Tribuna esteve no local e constatou o estado crítico do manancial. Em grande parte, onde anteriormente existia uma grande lagoa, não há sequer poças de água. A seca revelou troncos antes submersos e provocou rachaduras no solo, consequências da falta de umidade. Para quem está acostumado a utilizar a João Penido como área de lazer, vê-la neste estado é algo que choca. “Eu sempre trabalhei e morei na região e nunca vi nada parecido. Meu irmão lembra de uma seca que atingiu a cidade há 45 anos, situação que deixou a João Penido bastante prejudicada”, relembra o caseiro do Clube Náutico, que fica ao lado da represa, Reinaldo Ferreira.
De acordo com o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, caso não chova, a tendência é de que este índice continue caindo. “Embora a represa esteja com o nível de água muito baixo, estamos monitorando a queda e contamos com a inauguração de Chapéu D’Uvas para preservá-la.” Sobre esta barragem, ele explica que ontem estavam sendo realizados testes de pressão e que amanhã ela começaria a atuar definitivamente. Contudo, Marcelo ressalta que, independente deste novo fôlego, o grande problema está na estiagem. “Por isso vale lembrar do uso racional da água. Se todos consumirem muito ao mesmo tempo, não há sistema que aguente.”
Já a Represa de São Pedro está com o nível de abastecimento abaixo de 1%. A quantidade prejudica a parte alta da cidade, que já sofreu com o desabastecimento no final de setembro. Relatos de moradores dão conta que entre o fim de semana e ontem, houve novos registros de falta d’água. Na região, a companhia continua atuando com apoio de caminhões-pipa.
Rio Paraibuna
Outro cenário que chama atenção é o nível do Rio Paraibuna. Segundo Marcelo, se não existisse a barragem de Chapéu D’Uvas, utilizada para regular o nível de água, o rio já estaria seco. “Normalmente nesta época, as comportas de Chapéu D’Uvas já estariam fechadas para evitar a cheia do rio. O fato de os córregos que deságuam no Paraibuna estarem quase secos também contribui para a situação.”
Rompimento expõe precariedade das redes
O rompimento no reservatório Henrique de Novaes, no Bairro Santa Terezinha, na última sexta-feira, ainda levanta outra questão: a precariedade das redes do sistema subterrâneo do município. Segundo a Cesama, a tubulação da rede é da década de 1930. Com a força dos jatos, um barranco cedeu, e um muro próximo à Escola Estadual Sebastião Patrus de Souza chegou a cair. Segundo a Cesama, um consultor de Belo Horizonte, especialista em recuperação de estruturas, esteve na cidade para realizar a sondagem da estrutura física do reservatório e do terreno. Diretores da Cesama também foram in loco verificar os danos, porém, segundo a companhia, não há data para a recuperação definitiva da célula danificada.
Os rompimentos de tubulação são recorrentes em Juiz de Fora. Em dezembro passado, uma rede que faz a distribuição de água entre a Estação de Tratamento Walfrido Machado Mendonça (ETA CDI) e o Centro estourou da mesma forma, sob o Córrego dos Alfineiros, próximo ao Nova Era, comprometendo o abastecimento de toda Zona Norte.
Em 2010, o rompimento da tubulação antiga de uma adutora que passa sob a Avenida Rio Branco, na altura do Mariano Procópio, parou o tráfego na área central da cidade. A água também jorrou na pista sentido Manoel Honório/Centro, comprometendo a circulação e afetando o abastecimento em boa parte da cidade.
Dia mais quente do ano
Juiz de Fora registrou ontem a maior temperatura do ano: 34,4 graus. O forte calor e a falta de chuvas deixaram a cidade em situação de alerta para a baixa na umidade relativa do ar. Conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o patamar chegou a 19%, quando a média da cidade gira em torno de 80%. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), índices inferiores a 20% representam risco para a saúde humana.
Neste patamar, há uma piora na qualidade do ar, o que leva à intensificação de doenças respiratórias e maior ocorrência de incêndios. O Inmet recomenda evitar exercícios físicos ao ar livre, umidificar o ambiente por meio de vaporizadores e toalhas molhadas, consumir bastante líquido e, sempre que possível, permanecer em locais protegidos do sol e em áreas com vegetação.
A onda de calor continua, e a previsão para hoje é de que a temperatura chegue a 35 graus. A mínima deve ficar em torno dos 20 graus. De acordo com o meteorologista do 5º Distrito do Inmet, Claudemir de Azevedo, o tempo deve permanecer assim ao longo de toda a semana. “A temperatura tende a sofrer uma pequena baixa somente amanhã, quando há possibilidade reduzida de chuva. Mas a tendência é de calor forte, principalmente a partir de sexta-feira. Possibilidade real de pluviosidade na cidade existe só a partir do dia 20”, explica.
Focos de incêndio
O tempo seco dos últimos dias também tem dado trabalho ao Corpo de Bombeiros. Somente entre sábado e domingo, 33 focos de incêndio foram registrados na cidade, além de ocorrências em municípios próximos, como Matias Barbosa, Lima Duarte, Monte Verde e Ewbank da Câmara, sobrecarregando as equipes de combate que trabalharam elencando prioridades. Bairros como São Geraldo, Graminha e granjas próximas ao Alphaville e Expominas foram afetadas. Áreas de preservação também foram atingidas, como a reserva do Poço d’Anta e até uma casa, no Bairro Jardim Cachoeira, próximo ao Monte Castelo, na Zona Norte, que chegou a ficar destruída parcialmente por causa do fogo.
Segundo a assessoria do Corpo de Bombeiros, o dono do imóvel ateou fogo em um amontoado de folhas secas, mas as chamas fugiram ao controle e atingiram a varanda, o galinheiro e árvores no quintal da casa, além de um depósito de material reciclado. Duas viaturas, cinco militares e cerca de sete mil litros de água foram gastos somente nesta ocorrência.

