Mais de 300 crianças e adolescentes esperam por cirurgias de fimose em Juiz de Fora

Retomada de eletivas aumentou procedimentos, mas pacientes seguem sem data definida para procedimento


Por Pedro Moysés

14/01/2026 às 06h07

Cirurgia fimose
A Prefeitura alega que as cirurgias eletivas de urologia infantil ficaram suspensas entre 2020 e 2022 por causa da pandemia, com manutenção apenas de urgências, o que gerou demanda reprimida e elevou a procura após a retomada dos procedimentos (Foto: Pexels)

A retomada das cirurgias eletivas de urologia infantil após a pandemia levou a um aumento de procedimentos em Juiz de Fora, mas a fila de espera segue alta. Dados da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) mostram que o município realizou 36 cirurgias de fimose em 2020 e chegou a 200 em 2023. Em 2024, foram 162 procedimentos e, até outubro de 2025, outros 94. Apesar disso, pelo menos 334 procedimentos de urologia pediátrica estão em espera na rede, conforme dados repassados pela pasta municipal em dezembro de 2025.

Nesse cenário, L. F., que completou 9 anos em 2025, aguarda há três pela cirurgia para correção de fimose, problema identificado quando ele tinha 6. A condição, comum entre meninos, tornou-se sinônimo de peregrinação pelo sistema de saúde para a família. “A médica pediu alguns exames e começou a passar uma pomada. Usamos por três meses em 2023. Começou a querer dar certo, mas no final fechou totalmente”, relata a mãe do garoto, que também é técnica de enfermagem.

A fimose caracteriza-se pela dificuldade ou impossibilidade de expor a glande (a “cabeça” do pênis) devido ao estreitamento do prepúcio. Segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, cerca de 97% dos meninos nascem com essa condição; o percentual cai para aproximadamente 10% aos 3 anos e fica entre 1% e 3% nos adolescentes. Embora a maioria dos casos se resolva naturalmente ou com tratamento clínico – normalmente com o uso de pomadas de corticóide – a cirurgia é indicada quando há falha medicamentosa ou risco de infecções urinárias e balanopostites.

A suspensão das cirurgias eletivas entre 2020 e 2022, com manutenção apenas de urgências, gerou demanda reprimida e pressionou a rede na reabertura da agenda, conforme a Secretaria de Saúde. O reflexo aparece também nos atendimentos ambulatoriais: em 2020, foram 728 atendimentos urológicos na faixa etária de 0 a 18 anos; em 2023, o total chegou a 2.148 consultas.

Entre adolescentes, o aumento foi ainda mais concentrado. Na faixa etária de 10 a 19 anos, o município saiu de oito cirurgias em 2020 para 58 em 2023. Antes da pandemia, em 2019, haviam sido 23 procedimentos nessa faixa etária.

Espera

Apesar do aumento no número de procedimentos realizados, a fila não anda na mesma velocidade para quem espera. A saga da família de L. F. também expõe falhas de orientação e de fluxo entre unidades. Após a tentativa com pomada, ele foi encaminhado para avaliação pré-anestésica em um unidade hospitalar da cidade novembro de 2022. Um desencontro de informação fez a família perder um ano. “Eu tinha entendido que era só aguardar chamar para a cirurgia, mas a médica disse depois que eu deveria ter deixado o papel no posto médico”, conta a mãe da criança.

Ao tentar retomar o processo em 2023, novos obstáculos: ambas as médicas urologistas entraram em licença-maternidade, exames de sangue perderam a validade e houve divergência de orientação entre posto e hospital sobre quem deveria inserir o pedido no sistema. “O posto falava que eles [o hospital] tinham que encaminhar. Lá embaixo falavam que o posto tinha que pedir”, desabafa.

Em junho de 2025, a família buscou atendimento em outro hospital a rede prestadora. Segundo a técnica de enfermagem, o médico informou que a cirurgia seria agendada e que a secretária entraria em contato. Luiz Felipe realizou os exames de sangue necessários no mesmo mês e, desde então, aguarda retorno. “Fico guardando, planejando, porque às vezes ele vai me ligar e não liga. E já passou a validade do exame de sangue de novo”, lamenta.

Adolescentes e riscos à saúde

No cenário nacional, as internações cirúrgicas por problemas relacionados à fimose em adolescentes cresceram mais de 80% no Sistema Único de Saúde (SUS), segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Na faixa etária de 10 a 19 anos, as internações por fimose, parafimose e prepúcio redundante passaram de 10.677, em 2015, para 19.387, em 2024. O avanço desses números reforça o alerta para os impactos da demora no diagnóstico e no tratamento ainda na infância.

A espera, no entanto, não é apenas uma questão administrativa; envolve saúde e bem-estar. A mãe de L.F. relata que o filho já enfrentou infecções devido à condição. “Corre risco de infecção mesmo, porque tem que limpar direito. Ele já está grandinho, tem o jeito dele de não querer que a gente toque, fica mais difícil de cuidar”, afirma.

A persistência da fimose na adolescência pode acarretar dor durante as ereções e relações sexuais, além de dificultar a higiene íntima e aumentar riscos de infecções. Segundo a Agência Einstein, especialistas reforçam que a cirurgia, conhecida como postectomia, é segura e consiste na retirada do excesso de pele. A condição é classificada em dois tipos: a fisiológica, comum em bebês e que tende a desaparecer, e a patológica ou secundária, que pode surgir devido a infecções repetidas ou traumas locais.

Para L.F. e as outras crianças na fila de espera do município, a indicação médica existe, mas a definição de data segue indefinida. “O que adianta estar com o papel [do laudo] aqui se não tem nada?”, questiona a técnica de enfermagem.

Números em Juiz de Fora

Atendimentos Urológicos Pediátricos (0 a 18 anos):

2020: 728 atendimentos

2021: 1.273 atendimentos

2022: 1.455 atendimentos

2023: 2.148 atendimentos

2024: 2.127 atendimentos

2025 (janeiro a outubro): 1.085 atendimentos

Total (2020-out/2025): 8.816 atendimentos.

Cirurgias Realizadas:

2019: 82 cirurgias

2020: 36 cirurgias

2021: 41 cirurgias

2022: 120 cirurgias

2023: 200 cirurgias

2024: 162 cirurgias

2025 (janeiro a outubro): 94 cirurgias

Fila de Espera até 26 de dezembro: 334 procedimentos de urologia pediátrica.

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