Temporal em Juiz de Fora expõe falhas em drenagem de diferentes vias
Alagamentos, enxurradas e buracos nas vias causam transtornos durante temporal em Juiz de Fora
Uma chuva torrencial atingiu Juiz de Fora na tarde desta segunda-feira (9), alagando importantes vias da região central e de bairros da cidade. Em menos de uma hora, estações meteorológicas registraram acumulados de 50 milímetros em diversos pontos da cidade, volume suficiente para sobrecarregar o sistema de drenagem da região central e atingir bairros como Manoel Honório, Industrial e Jardim Natal.
Segundo a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), em apenas nove dias, choveu 300 mm na cidade, volume equivalente a 170% da chuva esperada para todo o mês de fevereiro. Nesta segunda-feira (9), foram cerca de 50mm em apenas 40 minutos. A situação mais crítica foi registrada na Rua Feliciano Pena, no Bairro Mariano Procópio, que recebeu grande volume de água do córrego Democrata.
De acordo com a PJF, o nível elevado do Rio Paraibuna provocou o represamento alagando trechos da Avenida Brasil e da própria Rua Feliciano Pena, que permanecia interditada no final da tarde desta segunda.
A equipe da Tribuna percorreu os pontos críticos e flagrou o acúmulo de água bloqueando o tráfego em artérias vitais como as ruas Paula Lima, Silva Jardim e o Largo do Riachuelo.
‘A água sobe muito rápido’
Para quem trabalha no comércio do Centro, a percepção é de que a infraestrutura não suporta a intensidade dos eventos climáticos recentes. Michelle de Omena Lin Simplício, de 40 anos, trabalha em um bazar na região há dois anos e relata uma mudança drástica. “É frequente, mas de um ano para cá tem piorado. A água tem subido muito rápido, os bueiros estão muito entupidos, e o volume não escoa”, explica. Segundo ela, a loja onde trabalha, situada em um nível mais alto em relação à rua, costumava ficar protegida. “Até então, a água vinha até o meio-fio, mas agora já está chegando na calçada e entrando nas lojas vizinhas”, alerta.
Na Rua Silva Jardim, o cenário descrito pelos lojistas é de reprise de perdas. Thiago Gonçalves, 35, funcionário de uma vidraçaria, trabalha no local há oito anos e afirma que o alagamento é recorrente. “É só chover assim que começa a alagar. Já perdemos mercadoria, móveis, ferramentas e documentos. Hoje vimos acontecer, mas na maioria das vezes, chegamos de manhã e já está tudo alagado”, diz.
No Largo do Riachuelo, o morador Rui dos Santos relata que as barreiras de contenção nas portas das lojas já não são eficazes devido ao refluxo. “Não adianta muito, porque a água volta pelo esgoto e invade tudo por dentro”, explica. Ele critica a falta de vazão para o Rio Paraibuna e a ausência de resposta do poder público. “A gente já pediu um novo sistema de drenagem um milhão de vezes, e a resposta é nenhuma.”
Vitrines mais altas e placas de contenção
Na Zona Leste, a esquina das ruas Eugênio Fontainha e Américo Luz, no Bairro Manoel Honório, também sofre com a força das águas. A rotina de limpeza pós-chuva tornou-se obrigatória para quem empreende na região.
Lara de Cássia Teixeira, 18 anos, é funcionária de uma loja de calçados no local há apenas dez meses e já presenciou o problema duas vezes. “Dessa vez, foi pior porque veio mais rápido. Eu estava no almoço, e a menina que estava aqui teve que colocar a porta [de contenção] às pressas porque entrou água na loja todinha”, relata Lara, enquanto limpava a lama e o lixo trazidos pela enxurrada.
Para tentar mitigar os prejuízos, o proprietário da loja, Michel Rocha, 43, conta que precisou instalar vitrines mais altas e investir em barreiras físicas. “Estou aqui desde maio do ano passado e já é a terceira vez. Agora a gente fez uma placa de contenção para colocar na porta.”
Michel, que possui outras duas lojas na cidade (no Centro e em São Mateus), destaca que o problema ali é crônico e envolve a necessidade de manutenção urbana. “Eu já abri uma reclamação junto a um vereador, que solicitou a limpeza das bocas de lobo na Prefeitura. Não sei se vai resolver, mas o pedido já foi feito”, afirma ressaltando que lojas vizinhas, como um açougue e uma papelaria, também foram invadidas pela água.
O problema não é apenas a água que desce a rua, mas a que retorna. Carlos Eduardo da Silva, 32, trabalha no local há dez anos e confirma o colapso do sistema pluvial. “Na nossa loja, é um pouco mais alto, então não entra chuva, mas volta tudo pelo ralo. Se o bueiro não funciona, a água invade.”
Buraco em via causa transtornos e receio
Ainda na tarde desta segunda-feira, após o temporal, quando Patrícia Silva Moraes de Sá, 43 anos, dirigia para levar a filha à aula, a roda da frente do seu carro ficou presa em um buraco, não sinalizado, aberto no asfalto da Rua Paula Lima. “Não sei como eu consegui sair, porque do tamanho do buraco, bem profundo, teria quebrado o carro, mas pode ter danificado outras peças.”
Pouco antes, devido ao mesmo buraco na via, outra motorista passou por uma situação ainda pior. Simone Francisca Salles, 51 anos, conta que, quando passava pela rua, o pneu de seu carro furou e a calota ficou amassada. “Precisam arrumar o trânsito para gente, porque pagamos IPVA e documentos, mas não temos nenhum retorno.”
Moradores e trabalhadores do entorno contam que o buraco está aberto há dias, e há receio de agravamento com o alto volume de chuvas. Até o momento, como alegam, não houve tentativa de reparo. Como forma de sinalização para reduzir os acidentes, colocaram um pneu velho e pedaços de papelão no buraco.
Bombeiros atendem ocorrências
No Bairro Santa Cecília, um deslizamento de terra desalojou dois moradores, de 67 e 64 anos, também nesta segunda-feira. Eles tiveram que se abrigar na casa de familiares após um talude apresentar movimentação de solo, o que ocasionou a interdição do acesso à residência.
Além desse deslizamento, o Corpo de Bombeiros Militar de Juiz de Fora também atendeu a uma série de ocorrências causadas pelas fortes chuvas desta segunda. Apesar dos transtornos, que incluíram quedas de árvores, enxurradas e deslizamentos, a corporação confirmou que não houve registro de vítimas.
A saturação do solo provocou riscos envolvendo vegetação em diversos pontos. No Bairro Bonfim, uma árvore desabou sobre uma residência, enquanto no Caeté, a queda de um tronco obstruiu parcialmente a via pública. Equipes também realizaram vistorias preventivas nos bairros Borboleta e Progresso diante do risco iminente de novas quedas.
O volume de água provocou situações de tensão em outras regiões da cidade. Nos bairros Monte Castelo e Bom Pastor, moradores ficaram temporariamente ilhados devido à força da enxurrada que descia das encostas próximas. A situação foi normalizada após a diminuição da chuva.
Já no Bairro Santa Rita, foi registrado um escorregamento de talude. Um grande volume de água e lama desceu dos fundos de uma residência, atingindo a edificação localizada logo abaixo. Até o fechamento desta edição, o Corpo de Bombeiros mantinha o alerta para que a população redobre a atenção em áreas de encosta e próximas a árvores de grande porte.
Acumulados e monitoramento
Dados das estações meteorológicas confirmam a concentração extrema de chuva em menos de uma hora nesta tarde:
- Spinaville: 51 mm
- Alphaville: 50,8 mm
- São Pedro: 50 mm
- Centro: 37,7 mm
- Milho Branco: 35,9 mm
A Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou que monitora a situação em diversos bairros, incluindo registros de alagamento no Córrego Humaitá (Industrial) e na Rua Tomaz Gonzaga (Jardim Natal). A Defesa Civil segue em alerta e pode ser acionada pelo telefone 199.
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