8 de março: como criar meninos que respeitem as mulheres

Especialistas dão dicas sobre como ensinar meninos a construir masculinidades mais saudáveis para si e para as mulheres


Por Julia Valgas*

08/03/2026 às 07h00- Atualizada 08/03/2026 às 13h36

“Suspeito de estuprar criança de 10 anos é preso em flagrante.” “Homem é preso por violência contra a própria irmã.” Estas são apenas duas, entre as diversas notícias sobre violência contra a mulher que a Tribuna de Minas publicou este ano, contexto local de uma situação que abrange todo o país.

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, são poucos os motivos para celebrar. Conforme o Instituto de Pesquisa DataSenado, em 2025, 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar. Apenas em Juiz de Fora, foram 3.814 casos registrados no período. Em janeiro deste ano, foram 307 ocorrências. Os dados são da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).

De acordo com a Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, publicada pelo Governo Federal, violência contra a mulher pode ser definida como “qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como no privado”.

Para a professora do Colégio de Aplicação João XXIII, pesquisadora em gênero e raça e pedagoga, Carolina Bezerra, o combate às violências de gênero começa ainda na educação básica. “As pesquisas deixam evidente que é muito mais barato e muito mais preciso trabalhar com a prevenção. Desde a educação básica, [é necessário] romper com os estereótipos de brincadeira de menino e menina, de cores de menino e menina, pensar uma educação que vá valorizar o cuidado e o acolhimento também como características importantes a serem desenvolvidas pelos meninos.”

A professora e doutora em Psicologia, Laís Lage, defende que a terapia também pode ser um caminho para a ruptura com os estereótipos de gênero. Ela explica que, para além da responsabilização individual, a psicologia social busca compreender o patriarcado de forma estrutural, como um sistema de poder reproduzido por meio da história e da cultura. Entretanto, isso não significa inércia ou conformismo, mas a possibilidade de que os pacientes, junto aos psicólogos, questionem as expectativas de gênero atribuídas a eles.

Para elas, a insegurança

Casos de maior repercussão reforçam a urgência da realidade vivida por mulheres. No último mês, o Brasil passou a discutir se uma menina de 12 anos pode consentir ter relações sexuais com um homem de 35, agora, acompanha o caso de quatro jovens e um adolescente acusados de criar uma emboscada para estuprar uma menina de 17 anos em Copacabana, no Rio de Janeiro. Em Juiz de Fora, no ano passado, quatro homens foram indiciados pelo estupro coletivo de uma mulher dentro de casa, em um condomínio na Cidade Alta.

No entanto, os números da Sejusp revelam que as agressões são diárias, mais de dez por dia, quando considerados os números de 2025. A insegurança está presente no dia a dia das mulheres antes mesmo de que elas percebam. De acordo com Laís, a exposição à violências de gênero pode causar diversos danos às mulheres: “desde o desencadear de transtornos mentais, como transtorno de estresse pós-traumático, quadros depressivos, de ansiedade e pânico à transtornos cognitivos, como a autopercepção da mulher, como isso repercute na identidade dela, um sentimento de desvalor, de desamor”.

Para eles, o adoecimento

Mas se engana quem acredita que uma criação baseada em gênero limita apenas as potencialidades das meninas. “Meninos que também crescem dessa forma estão sendo prejudicados e não estão se desenvolvendo em todas as suas possibilidades de um ponto de vista de uma formação humana, cognitiva, intelectual, emocional, sociocultural e simbólica”, alerta Carolina.

Laís concorda. Para a psicóloga, a sociedade atua na determinação do que seria “ser homem”, o que nada mais é do que uma performance: comportamentos sociais que são esperado de pessoas do sexo masculino. Se por um lado eles lidam com a pressão de perfomar os comportamentos esperados, por outro, são confrontados por suas próprias vontades e desejos.

Mas o que fazer?

Carolina evidencia três pontos que considera importantes para educar meninos que respeitem a todos – e, em especial, as mulheres. Em primeiro lugar, ela destaca a necessidade de que os homens se envolvam na discussão sobre gênero e questionem a forma como as masculinidades da juventude estão sendo construídas.

Em seguida, a pedagogo reforça que é imprescindível falar em prevenção: “o nosso sistema educacional e as famílias precisam se articular juntas num sentido de impor limites”. Mais do que culpabilização e punição, Carolina defende a necessidade de trabalhar para impedir que jovens e meninos continuem propagando as relações de poder inerentes ao patriarcado.

Por fim, Carolina também ressalta a urgência de responsabilizar os autores de qualquer tipo de violência – seja ela física ou psicológica. Isso porque estes casos se tornam exemplos para que os seres humanos em formação não pratiquem e reproduzam comportamentos violentos. “A sociedade precisa trabalhar no sentido de responsabilização, mas no sentido de uma reeducação e uma reinserção desses jovens também. Mas eles precisam ser responsabilizados, porque se não a gente está dizendo para as meninas ‘olha, qualquer pessoa pode pegar você e estuprar, fazer tudo com o corpo de vocês, que nada vai acontecer'”, enfatiza a pedagoga.

Laís também aconselha as famílias: “[as pessoas devem buscar] se familiarizar com o estranho e estranhar o que é familiar. E, nesse ponto, a gente coloca em perspectiva o que a gente já aprendeu, sobre coisas de menino e coisas de menina”. Para ela, o exercício permite questionar os papéis pré-estabelecidos de gênero e construir formas mais saudáveis de se relacionar. Além disso, a psicóloga também destaca o papel central da família no incentivo para que os meninos expressem suas emoções de forma funcional.

*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli