Projeto da UFJF oferece apoio psicológico a famílias e trabalhadores atingidos pelas chuvas em Juiz de Fora
Iniciativa reúne psicólogos, residentes e estudantes para acolher enlutados e orientar equipes que atuaram na resposta ao desastre
Enquanto Juiz de Fora tenta se reconstruir após as fortes chuvas que atingiram a cidade na última semana – tragédia que deixou 65 mortos e mais de 8,5 mil pessoas desabrigadas, segundo a Defesa Civil – equipes de saúde mental têm atuado para acolher famílias enlutadas e profissionais que trabalharam diretamente no atendimento às vítimas.
Uma dessas iniciativas é o Projeto Enlutar, desenvolvido pelo Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com o Hospital Universitário (HU). A ação reúne psicólogos colaboradores, residentes do hospital e estudantes do curso de Psicologia para oferecer suporte emocional em diferentes frentes da resposta ao desastre.
Desde o início da operação, a equipe esteve presente em locais diretamente impactados pela tragédia, como o Instituto Médico Legal (IML), o Cemitério Municipal e abrigos temporários. O trabalho também alcançou profissionais que atuaram na linha de frente das operações.
O atendimento é baseado nos chamados Primeiros Cuidados Psicológicos, abordagem aplicada em contextos de emergência e desastres. Até agora, mais de 30 famílias que perderam entes queridos receberam atendimento direto, além de cerca de 80 outras pessoas afetadas pela situação.
As ações foram realizadas em articulação com órgãos como a Força Nacional do SUS, a Cruz Vermelha e o Conselho Regional de Psicologia. Adultos e crianças impactados direta ou indiretamente pelas chuvas foram atendidos.
Apoio também para quem está na linha de frente
Além do acolhimento às famílias, o projeto também voltou a atenção para os profissionais que participaram das operações após a tragédia.
Nesta semana, o Enlutar promoveu uma atividade de capacitação e suporte em saúde mental voltada a trabalhadores envolvidos na resposta ao desastre em Juiz de Fora. Cerca de 30 pessoas participaram da iniciativa, entre funcionários do Cemitério Municipal, profissionais do Instituto Médico Legal, do Hospital de Pronto Socorro (HPS), trabalhadores da saúde, assistência social e voluntários.
A atividade foi conduzida pela professora Fabiane Rossi e pela psicóloga e tenente-coronel do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, Eliane Cristina Bezerra de Lima.
Durante a capacitação, foram discutidos temas como o luto vivido pelas famílias atingidas, os impactos emocionais sobre quem atua no atendimento direto às vítimas, os desafios da comunicação de más notícias e o manejo psicológico em situações de mortes em larga escala.
“Eu precisava manter todos firmes”

Entre os participantes da capacitação está o servente do Cemitério Municipal, Gabriel David, que viveu a tragédia em dois papéis: como morador afetado pela enchente e como trabalhador responsável por acompanhar o sepultamento das vítimas.
Morador do Bairro Lourdes, Gabriel teve a casa invadida pela água no dia em que completava um ano morando com a esposa. “Era para ser uma data de celebração, mas virou um dia de medo, desespero e lágrimas. Eu nunca tinha visto o rio subir tanto. A água veio com uma força assustadora”, relata.
Embora a residência não tenha sofrido danos estruturais graves, o casal precisou deixar o imóvel e se abrigar na casa de parentes. Segundo Gabriel, a esposa ainda tem medo de voltar.
No trabalho, ele acompanhou diversos sepultamentos, especialmente de vítimas do Bairro Parque Burnier, onde foi registrado o maior número de mortes. “Muitas pessoas eu conhecia de vista. Era vida acontecendo ali. De repente, virou silêncio e dor.”
Em um dos casos que mais o marcaram, um homem retornou ao cemitério poucos dias após enterrar a esposa para se despedir de outros familiares. “Ele voltou para enterrar a irmã, a cunhada e o sobrinho. Não existe preparo emocional para presenciar algo assim.”
Mesmo abalado, Gabriel conta que precisou manter a postura diante das famílias. “Eu precisava manter todos firmes. Garantir dignidade em cada despedida. Mas, por dentro, eu estava quebrado.”
Quando é hora de procurar ajuda
A psicóloga colaboradora do projeto, Débora Andrade Caetano, explica que o acompanhamento psicológico é fundamental após eventos traumáticos.
Segundo ela, o luto em situações como essa tende a se tornar coletivo e pode impactar também os profissionais que atuam no atendimento às vítimas. “Os atendimentos são emocionalmente densos e mobilizam equipes do IML, cemitério, saúde, assistência social e até profissionais da imprensa, que também entram em contato direto com histórias marcadas pela dor.”
A especialista destaca que alguns sinais indicam a necessidade de buscar ajuda especializada após uma tragédia.
Entre eles estão:
- dores físicas ou zumbidos sem causa aparente
- alterações no sono
- falta ou excesso de apetite
- sustos frequentes
- pesadelos recorrentes relacionados ao trauma
- sensação constante de reviver o ocorrido
Outros sintomas de alerta incluem isolamento social, abandono da rotina, perda do autocuidado, abuso de álcool ou outras drogas e pensamentos de culpa intensa ou desejo de morte. “A presença de alguns desses sinais já é suficiente para buscar ajuda. A situação se torna urgente quando há risco à própria vida”, alerta.
Débora ressalta que sentimentos como tristeza profunda, sensação de vazio e perda fazem parte do processo de luto, mas devem ser acompanhados quando passam a comprometer a saúde mental e as atividades diárias.