Entre o luto e a solidariedade, escolas acolhem famílias atingidas pelas chuvas
Diretores, professores e voluntários transformam salas de aula em abrigos enquanto a cidade enfrenta perdas e tenta reconstruir a esperança

“Apesar da gente estar em luto, porque perdemos uma professora e alunos da escola, estamos aqui, fortes, dia e noite, para acolher as famílias e para poder distribuir toda essa doação que estamos recebendo”, conta Fabiana Valle de Brito, 48 anos, diretora da Escola Municipal Professor Nilo Camilo Ayupe, localizada no Bairro Paineiras, região central.
Logo no fim da noite de segunda-feira (24), quando as chuvas voltaram a se intensificar em Juiz de Fora, a direção mobilizou professores e voluntários, montando uma força-tarefa na escola, somando uma equipe de mais de cem pessoas, para o acolhimento e recebimento e distribuição de doações.
Após a tragédia que atingiu Juiz de Fora, a Secretaria de Educação da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) destinou 18 escolas municipais para o acolhimento de famílias que precisaram deixar as suas casas, seja pela perda total ou pelos riscos de permanência. A cidade contabilizou dezenas de mortos e mais de quatro mil de desabrigados.
De acordo com Fabiana, que tem passado o dia todo na escola, o local está recebendo muitas doações, tornando-se ponto de referência. Nesse momento, a maior demanda é de materiais de higiene pessoal, como fraldas, lenço umedecido, papel higiênico, absorventes, escova de dente, pasta dental, shampoo e desodorante. “Nós recebemos uma sacolinha de uma criança, que pediu para entregar para outra criança. Ela escreveu uma cartinha que dizia: ‘Para você ser mais feliz’’. Então, isso conforta o coração da gente.”
‘Quero preservar o que é mais importante pra mim’
No Bairro Linhares, Zona Leste, a Escola Municipal Áurea Bicalho também se tornou ponto de acolhimento de famílias desabrigadas e de recebimento de doações. Para poder ajudar a todos, a equipe escolar vem se revezando nos trabalhos, juntamente com os voluntários. As mesas das salas de aula deram espaço aos colchões, que acolheram cerca de 28 famílias, no primeiro momento. Logo depois, algumas destas pessoas conseguiram ir para casa de familiares.
Na tarde de quarta-feira (25), a escola recebia montantes de doações de fraldas, fardos de garrafas de água, alimentos e marmitas. Como conta o diretor Alexandre Pereira Alonso, 47 anos, os refeitórios estão oferecendo café da manhã e da tarde, almoço e jantar, todas as refeições têm vindo de doações e nenhum mantimento da escola precisou ser utilizado até o momento. Além disso, as equipes da Unidade Básica de Saúde (UBS) foram até o local para prestar atendimentos.
O diretor afirmou que as doações têm suprido as necessidades tanto dos acolhidos no local, quanto da comunidade do bairro, como também sendo redistribuídas para outros abrigos. “Muitas famílias da comunidade vêm buscar alimentos, água e itens de higiene pessoal. Tem gente que perdeu colchão e travesseiros, então doamos para as famílias. Existe uma rede de apoio muito grande, um vai ajudando o outro. Estamos aprendendo com as demandas que vão chegando e tentamos fazer o melhor possível.”
Por morar em uma área de risco no bairro, Thalita Visales, 24 anos, mesmo não querendo sair, precisou deixar a sua casa, junto com seus filhos, na noite anterior, buscando abrigo na escola. Com o temporal, ela conta ter perdido seu sofá, colchões e roupas. Durante a tarde, disse ter voltado à casa para checar o que sobrou de seus pertences, e contou que gostaria de retornar. “Quero preservar o que é mais importante pra mim, a minha vida e a dos meus filhos. Já passei por coisas piores, entendeu? Então isso pra mim é uma coisa triste, mas estou tentando levar na leveza mesmo.”
A unidade escolar também conta com orientação psicológica. “Nesse momento, nosso principal papel, como psicólogas, é acolher essas pessoas que estão passando por momentos difíceis, que perderam não só bens materiais, mas seus entes queridos. Tem muitas pessoas que ainda não saíram de suas casas, estão relutantes”, explicou uma profissional. Ela conta que a equipe de psicologia vem trabalhando no acolhimento e na orientação das famílias, realizando encaminhamentos necessários para garantir o acesso à saúde e à benefícios. “Precisamos nos unir e continuar auxiliando.”

‘Situação de terror, mas também de amor coletivo’
O supervisor escolar Evandro César Azevedo da Cruz está cuidando, junto da equipe escolar e de voluntários, da Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves, no Bairro Bom Jardim, Zona Norte. O local acolhe cerca de 37 pessoas. Como explica, as pessoas acolhidas no local receberam atendimento do Centro de Referência de Assistência Social, da Secretaria de Saúde, apoio psicológico e confecção de documentos. O local está recebendo bastante doações de alimentos, roupas e utensílios. No início, tiveram problemas por conta da escassez de água, mas logo receberam apoio da Cesama abastecendo as caixas d’água.
Segundo o educador, as crianças abrigadas receberam alguns brinquedos e a equipe propôs atividades lúdicas, tentando manter viva a inocência e o colorido, mesmo em um cenário triste. “Vemos uma solidariedade tão grande de pessoas. Vemos gente sem grandes posses, mas muito humildes, que pegam o que têm em casa para poder trazer e ajudar. Observo uma situação de terror, mas também de amor coletivo, que enche a gente de esperança nesse cenário.”
Moradora do Bairro Três Moinhos, Zona Norte, Tainara Tomé Correia Valadão, 32 anos, perdeu a sua casa e seus pertences, pois as passagens para chegar até o local ficaram fechadas por lama, terra e água. Segundo ela, uma avalanche de lama fechou tudo, deixando os moradores ilhados. “Disseram que vão demolir tudo. Não consegui tirar nada, e sofri muito por causa do desespero da minha filha. Estava montando o quarto do bebê, tinha um tanquinho bom e tinha comprado um gás novo, mas perdi tudo.”
Mãe de quatro filhos, ela agora, grávida de oito meses, espera pelo quinto. Por causa da gestação avançada e por cuidar dos filhos sozinha, ela precisou parar de trabalhar. Agora, toda a sua família está abrigada na Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves. Mesmo recebendo suporte nesse momento, ela conta ter tido dificuldades de dormir pensando nos próximos dias.
“Para onde a gente vai? Infelizmente eu não tenho dinheiro pra alugar casa, não tenho pra onde ir. Agora é esperar para ver o que o Governo vai fazer pela gente, entendeu? Porque está muito complicado.”
Escola-abrigo em Juiz de Fora:
Escola Municipal Raymundo Hargreaves
Rua Luiz Fávero, 383, Bom Jardim
Escola Municipal Amélia Pires
Rua Itatiaia, 570, Monte Castelo
Escola Municipal Aurea Bicalho
Rua Odilon Braga, nº 119 Linhares
Escola Municipal Dante Jaime Brochado
Rua Francisco Fontainha, 163, Santo Antônio
Escola Municipal Gabriel Gonçalves
Rua Gabriel Coimbra, nº 240 Ipiranga
Escola Municipal Belmira Duarte
Rua Adailton Garcia, nº 110 Bairro JK
Escola Estadual Padre Frederico
Rua Carlos Alves, 133, Bonfim
Escola Municipal Paulo Rogério
Rua Coronel Quintão, nº 136 Monte Castelo
Escola Municipal Henrique José de Souza
Rua Cidade do Sol, nº 370 Cidade do Sol
Escola Municipal Marlene Barros
Prolongamento da Rua Marumbi, nº 56 Marumbi
Escola Municipal Adhemar Rezende
Av. Senhor dos Passos, 1596, São Pedro
Escola Municipal Professor Nilo Camilo Ayupe
R. Alm. Barroso, 155 – Paineiras, Juiz de Fora
Escola Municipal Fernão Dias
Rua Gustavo Fernandes Barbosa, nº 155 Bandeirantes
Escola Municipal Dilermando Cruz
Rua Dr. Altivo Halfeld, nº 44 Vila Ideal
Escola Municipal Irineu Guimarães
Rua José Zacarias dos Santos, s/nº São Benedito
Escola Estadual Antônio Carlos
Av. Cel. Vidal, 180 – Mariano Procópio
Escola Municipal Antônio Carlos Fagundes
Rua Antônio Lopes Júnior, 35 – Francisco Bernardino
Escola Municipal Amélia Mascarenhas
Rua Dr Maurício Guerra, 300, São Bernardo