Barriga de chope: gordura abdominal pode aumentar risco para o coração, aponta estudo

Pesquisa indica que excesso de gordura abdominal pode espessar o músculo cardíaco mesmo em pessoas sem doença cardiovascular — e o risco é maior para homens


Por Fernanda Bassette, Agência Einstein

20/01/2026 às 09h08

Barriga de chope pode indicar riscos à saúde (Foto: Pexels)

A distribuição da gordura corporal pode ser mais determinante para a saúde do coração do que o peso indicado pela balança, especialmente entre homens. Essa é a principal conclusão de um estudo apresentado no final de 2025, durante o congresso da Sociedade Radiológica da América do Norte (RSNA), nos Estados Unidos. O trabalho analisou o impacto do acúmulo de gordura abdominal, popularmente conhecida aqui no Brasil como “barriga de chope”, sobre a estrutura cardíaca de adultos sem diagnóstico prévio de doença cardiovascular.

A pesquisa avaliou mais de 2.200 homens e mulheres com idades entre 46 e 78 anos, que foram submetidos a exames detalhados de ressonância magnética do coração. Os pesquisadores compararam duas medidas usadas na prática clínica: o índice de massa corporal (IMC), que reflete o peso total, e a relação cintura-quadril, que indica a concentração de gordura na região abdominal. Eles observaram que esse acúmulo esteve associado a alterações cardíacas consideradas mais preocupantes do que aquelas relacionadas apenas ao excesso de peso global.

A obesidade abdominal merece atenção especial porque está diretamente ligada ao acúmulo de gordura visceral, aquela que se deposita profundamente no abdômen, ao redor de órgãos como o fígado. “Diferentemente da gordura subcutânea, que fica logo abaixo da pele e conseguimos apertar com os dedos, a gordura visceral é metabolicamente ativa e libera substâncias conhecidas como adipocinas ou citocinas inflamatórias na circulação”, explica a cardiologista Juliana Soares, do Einstein Hospital Israelita. Esse processo cria um estado de inflamação crônica de baixo grau e favorece manifestações como resistência à insulina, alterações no colesterol e aumento da pressão arterial, fatores que sobrecarregam o coração ao longo do tempo.

No estudo, os resultados dos exames de imagem mostraram um remodelamento do músculo cardíaco à medida que a relação cintura-quadril aumentava. Significa que havia um espessamento do músculo cardíaco, especialmente no ventrículo esquerdo, acompanhado de uma redução do espaço interno das cavidades. Vale lembrar que o coração funciona como uma bexiga elástica, que precisa de espaço para se encher de sangue e de flexibilidade para esvaziar a cada batida. 

“Com a obesidade e o estado inflamatório crônico, o coração passa a trabalhar contra uma pressão maior. Como qualquer músculo submetido a esforço contínuo, suas paredes se tornam mais espessas ao longo do tempo. O problema é que esse espessamento reduz o espaço interno das cavidades e deixa o músculo mais rígido, fazendo com que o coração acomode menos sangue a cada batimento”, detalha a cardiologista.

No início, o órgão tenta compensar batendo mais rápido. Mas, com o passar do tempo, essa sobrecarga compromete sua capacidade de relaxamento. O resultado pode ser um tipo de insuficiência cardíaca em que o coração ainda consegue contrair, mas não se enche adequadamente, prejudicando a circulação de oxigênio e nutrientes pelo corpo. Com isso, perde eficiência de forma gradual, mesmo antes do aparecimento de sintomas.

No estudo, essas alterações cardíacas foram identificadas em pessoas aparentemente saudáveis, sem histórico de doença cardiovascular. “Devido a essa característica silenciosa, as medidas preventivas, baseadas em mudanças do estilo de vida, devem ser adotadas precocemente, antes que a lesão cardíaca se torne irreversível”, alerta a médica.

Quando o peso total do paciente foi avaliado isoladamente pelo IMC, o padrão observado diferiu. Indivíduos com IMC elevado, mas sem grande concentração de gordura abdominal, apresentaram aumento do tamanho das câmaras cardíacas, sem o mesmo espessamento da musculatura. Isso ajuda a explicar por que duas pessoas com o mesmo peso ou até com IMC semelhante podem ter riscos cardiovasculares diferentes. “O IMC não diferencia massa muscular de gordura nem mostra onde essa gordura está localizada”, observa Juliana Soares. “Já a relação cintura-quadril direciona o olhar para a gordura central, que é a mais associada ao remodelamento cardíaco deletério.”

Diferenças entre homens e mulheres

Outro achado é a diferença do risco cardíaco entre homens e mulheres. Embora ambos apresentem alterações associadas à obesidade abdominal, os efeitos são mais intensos nos participantes do sexo masculino. Uma das explicações está no padrão de distribuição de gordura, já que homens tendem a acumular gordura do tipo androide, concentrada no abdômen, o que favorece maior proporção de gordura visceral. Já as mulheres, especialmente antes da menopausa, costumam apresentar um padrão ginoide, com maior depósito de gordura subcutânea em quadris e coxas, metabolicamente menos agressiva.

Além disso, fatores hormonais parecem exercer papel importante. O estrogênio tem efeito cardioprotetor e influencia o metabolismo da gordura, direcionando seu armazenamento para regiões menos nocivas. Com a queda desse hormônio após a menopausa, essa proteção diminui, aproximando o risco feminino ao masculino. Diferenças na resposta inflamatória também contribuem: homens tendem a apresentar níveis mais elevados de inflamação sistêmica associada à gordura visceral, o que pode acelerar as alterações estruturais do coração.

Na prática, os resultados reforçam a necessidade de ampliar como o risco cardiovascular é avaliado. Medidas simples, como a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril, podem ser obtidas com uma fita métrica e fornecem informações relevantes sobre o risco. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), valores de circunferência da cintura acima de 90 cm para homens e 85 cm para mulheres indicam maior risco cardiovascular.

Também é essencial que o processo de emagrecimento aconteça a partir de hábitos saudáveis, que sejam mantidos a longo prazo. “Atividade física regular e alimentação equilibrada são fundamentais, especialmente porque a gordura visceral responde melhor ao exercício e pode ser reduzida mesmo sem grande perda de peso”, avisa a cardiologista do Einstein.

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