
Mudanças na rotina diária, como aumento ou perda de apetite, alterações no sono, isolamento social e queda no rendimento escolar estão entre os primeiros sinais de que algo não está bem com a saúde mental de crianças e adolescentes.
Esses comportamentos, identificados por estudos do Departamento de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), devem ser um alerta para pais e responsáveis. Em um cenário cada vez mais marcado pela pressão das redes sociais e pela exposição excessiva a conteúdos muitas vezes prejudiciais, esse quadro se torna ainda mais urgente. Dando sequência à série especial da Tribuna sobre o Setembro Amarelo, esta segunda reportagem aborda os sinais de alerta para problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes.
Por serem muito jovens, é comum que esses sinais sejam negligenciados, já que muitos acreditam que crianças ainda não têm maturidade emocional suficiente para entender certas situações. No entanto, o psiquiatra infantil César Mello, com quase 30 anos de experiência na área e atualmente em atendimento no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Caps I), localizado na Rua Carlos Chagas 57, no Bairro São Mateus, faz um alerta.
Em entrevista, o especialista explica que, justamente por ainda estarem em fase de desenvolvimento emocional e muitas vezes enfrentarem o primeiro contato com sentimentos intensos, é essencial que os pais estejam atentos e saibam identificar sinais de que algo não está bem. Além dos comportamentos já citados, em crianças muito pequenas, sintomas como depressão e ansiedade costumam se manifestar também por meio do corpo. Cansaço excessivo, dores de cabeça, dores de barriga, distúrbios no sono e crises de choro acompanhadas de irritabilidade são sinais recorrentes, mas frequentemente confundidos com “birra”.
Uma mãe, identificada pelas iniciais C.B., compartilha como demorou para reconhecer os sinais do transtorno mental de sua filha. “Hoje, olhando para trás, vejo o quanto fui insensível às mudanças de humor dela na pré-adolescência. Ela tinha crises de choro após momentos de animação, e eu não entendia o que estava acontecendo. Achava que era ‘birra’ e me sentia ofendida, mesmo vendo que ela não tinha controle sobre as emoções”, conta.
Só após o agravamento das crises, a filha foi diagnosticada com ciclotimia, um transtorno de humor caracterizado por oscilações emocionais irregulares. “Um pequeno ajuste na medicação fez toda a diferença. Conseguimos ter a relação harmoniosa que sempre tivemos, mas foi doloroso perceber o quanto eu poderia ter ajudado antes”, relembra.
Aumento expressivo nos atendimentos
Levantamento do Ministério da Saúde revela crescimento preocupante nos atendimentos por transtornos mentais no Sistema Único de Saúde (SUS) ao longo da última década. Entre crianças de 10 a 14 anos, o aumento foi de 1.575%. Já entre os adolescentes de 15 a 19 anos, o salto foi ainda mais expressivo, os atendimentos passaram de 1.534 em 2014 para 53.514 em 2023, número quase 35 vezes maior.
Trazendo a perspectiva para o município, conforme dados da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), o número de crianças e adolescentes em tratamento para transtornos mentais na cidade voltou aos níveis registrados antes da pandemia. Em 2019, 282 crianças e adolescentes estavam em tratamento, número que foi alcançado novamente no ano passado, após quedas significativas nos atendimentos durante os anos de 2020 a 2023. Em 2020, foram 149 atendimentos. Em 2021, o número caiu para 115, subiu para 206 em 2022 e, em 2023, chegou a 274.
Especialista aponta causas para o crescimento dos casos
Segundo o psiquiatra, após 2020, ano em que a pandemia da Covid-19 se agravou, a busca por atendimento psicológico e psiquiátrico aumentou, mesmo com diversos serviços suspensos. De acordo com ele, o cenário global de incertezas e o isolamento social foram fatores cruciais para o agravamento dos quadros de saúde mental entre crianças e adolescentes.
Artigo publicado em março de 2023 na revista Jama Pediatrics aponta que, durante o primeiro ano da crise sanitária, os sintomas de depressão cresceram 26% entre jovens de até 19 anos em todo o mundo. Já os casos de ansiedade aumentaram quase 10% na mesma faixa etária.
Além disso, a exposição prolongada a dispositivos eletrônicos também pode estar contribuindo para o adoecimento mental da geração atual. César relata que, em seu dia a dia de atendimento, é comum receber jovens que passam várias horas por dia em frente às telas. Mais do que o tempo de uso, ele destaca os conteúdos consumidos como fator preocupante. As redes sociais, por exemplo, não apenas facilitam o acesso a padrões de consumo e estilos de vida muitas vezes inalcançáveis para grande parte dos jovens, como também têm se tornado espaços onde diferentes formas de violência, como racismo, misoginia, gordofobia e capacitismo, se propagam com facilidade.
Esse cenário foi retratado na minissérie Adolescência, lançada pela Netflix em março deste ano. A produção alcançou mais de 145 milhões de visualizações e entrou para o ranking das séries mais populares da plataforma, ao abordar de forma direta os impactos das redes na saúde mental de adolescentes.
Para encerrar, César Mello destaca que o impacto das telas vai além do conteúdo consumido, ele afeta diretamente a convivência dentro de casa e com os amigos. O uso excessivo de dispositivos eletrônicos, segundo o médico, pode enfraquecer os laços, algo essencial para o bem-estar emocional nessa fase da vida. “Esse vínculo com a família é fundamental. Quando ele se perde ou se fragiliza, o desenvolvimento emocional também sofre as consequências”, afirma.
Embora reconheça que o ambiente digital tenha oferecido benefícios importantes, como a possibilidade de manter conexões durante o isolamento social e até de ampliar o debate sobre saúde mental, desmistificando a ideia de que só busca ajuda quem está “louco”, o psiquiatra alerta para os prejuízos. Entre eles, a redução das horas de sono, a queda na prática de atividades físicas e o afastamento nas relações presenciais. “Por isso, é fundamental que pais e responsáveis acompanhem de perto. As telas não são vilãs, mas precisam ser usadas com equilíbrio”, conclui.
Psicólogo ou psiquiatra, quem procurar primeiro?
O trabalho realizado no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil é multidisciplinar. Além de psicólogos e psiquiatras, outras áreas como fonoaudiologia, enfermagem e assistência social também desempenham papéis fundamentais, especialmente no início do atendimento e na definição do melhor caminho a seguir.
César Mello explica que, antes de chegar ao Caps, as crianças e os adolescentes geralmente já passaram por consultas com pediatras e clínicos gerais, que recomendaram a busca por um atendimento mais especializado. Nesse primeiro momento, o psicólogo é frequentemente a primeira entrada, com a conversa sendo uma parte importante do processo. “Esse contato inicial é extremamente valioso. Em muitos casos, é suficiente para ajudar a criança ou o adolescente a gerir os sentimentos. Se houver necessidade de tratamento medicamentoso, os profissionais, em conjunto, orientam os responsáveis sobre a possibilidade de encaminhamento para o psiquiatra”, explica o médico.
No entanto, Mello ressalta que não existe uma abordagem única para todos os casos. Cada situação é única e deve ser tratada de forma individualizada. Em casos mais complexos, como na esquizofrenia, por exemplo, pode ser necessário que o psiquiatra seja o primeiro a ser consultado, com o acompanhamento psicológico acontecendo em seguida. Essas particularidades são identificadas pela equipe multidisciplinar.
Para acessar o atendimento no CAPS em Juiz de Fora, o primeiro passo é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) próxima à sua residência. A UBS é a porta de entrada da rede de saúde mental e, se necessário, os profissionais da unidade farão o encaminhamento para o CAPS adequado.
*estagiária sob supervisão da editora Fabíola Costa
