Em Juiz de Fora, há um mês, uma semana e um dia especificados em lei para a conscientização e o combate ao câncer de próstata: o Novembro azul, tradicional em todo o país; o período de uma semana a partir do dia 27 de novembro; e o dia 17 de novembro. A semana foi estabelecida por lei em 2001, e os outros dois, em 2014.
Há ainda uma outra lei municipal relacionada ao tema, de 2002, que obriga a inclusão de etiquetas com mensagens de orientação sobre câncer de mama, útero e próstata nas roupas íntimas e de banho femininas e masculinas.
Empresas sediadas no município, que fabriquem e/ou comercializem essas peças, devem etiquetar os dizeres: “Câncer de próstata tem cura” e referência à necessidade de exame anual após os 45 anos, sob pena de advertência, multa de R$ 200 por lote de 100 peças sem etiqueta de orientação, na segunda ocorrência, e multa de R$ 500, na terceira ocorrência.
Outras quatro propostas na Câmara, de 2002, 2004, 2015 e 2017, foram arquivadas, todas com o mesmo objetivo: conceder ao servidor público municipal, por ano, um dia de dispensa da jornada de trabalho para a realização de exames preventivos do câncer ginecológico, de mama e de próstata.
A Tribuna questionou a Prefeitura de Juiz de Fora se essa política existe atualmente, mesmo com os textos arquivados. O Executivo afirma que “não há, atualmente, uma política específica sobre dispensa para realização de exames preventivos. Contudo, o servidor tem direito a comparecer a consultas e exames médicos, desde que apresente posteriormente a declaração de comparecimento ou o atestado médico, conforme previsto nas normas gerais de gestão de pessoal”.
Como o sistema de saúde atua na prevenção?
Segundo Humberto Lopes, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e chefe do Serviço de Urologia do HU-UFJF, os hospitais de fato intensificam os atendimentos no mês de novembro, realizando campanhas na mídia e orientando as pessoas a procurar urologista, além de fazerem o atendimento presencial, em que os pacientes são avaliados com exame físico e realizam o exame de sangue, que é o PSA.
“Anualmente, a Secretaria de Saúde de Juiz de Fora, junto com o Hospital Universitário, o Hospital Therezinha de Jesus e outros hospitais de Juiz de Fora, como a Ascomcer, têm feito campanhas de orientação no Novembro Azul. Isso já acontece há cerca de 15 anos e eu participo durante todo esse período”, conta.
Mas, além disso, acredita que os homens deveriam procurar um urologista em qualquer época do ano: “Existe ambulatório de urologia no Hospital Universitário, nas segundas e quartas-feiras, e também nos outros hospitais citados, até mesmo no PAM Marechal, existe urologista que faz esse tratamento. Não é feito nas unidades básicas de saúde, porque o rastreamento do câncer de próstata no nosso meio é feito pelo profissional especializado.”
Nas UBSs, o médico da equipe de Saúde da Família realiza a avaliação clínica e, se necessário, solicita os exames preventivos (PSA, USG Próstata) ou encaminha o paciente para o especialista (para solicitação de exames de alta complexidade).
Homens mais conscientes
O professor considera que, não só em Juiz de Fora, mas em todo o mundo, os homens estão mais conscientes sobre a importância dos exames preventivos. “Em Juiz de Fora, assim como qualquer outro local, toda a Zona da Mata, onde tem algum urologista, a própria Sociedade Brasileira de Urologia estimula, orienta, às vezes até atualiza dados em relação ao câncer de próstata. Já teve época de a gente até ministrar aulas em ambientes públicos, igrejas, com enfoque em atualizar as pessoas, às vezes até mesmo os médicos generalistas.”
Ele destaca que essas políticas públicas são fundamentais pois o câncer de próstata é o segundo câncer que mais acomete o homem, com 73 mil casos novos previstos anualmente no Brasil, segundo o Instituto Nacional do Câncer. “E é um câncer que, se feito diagnóstico precocemente, a chance de cura é muito melhor, assim como os danos, os riscos inerentes aos procedimentos de tratamento, como a cirurgia e a radioterapia”.
Em Juiz de Fora, de janeiro a agosto deste ano, foram realizados 6.053 procedimentos de tratamento do câncer de próstata, na rede pública.
O especialista avalia que o fluxo de encaminhamento entre as UBSs e o HU, para os pacientes com suspeita da doença é positivo. O próprio médico generalista já é capaz de analisar o exame PSA (Antígeno Prostático Pacífico), sendo que não há fila para biópsia de próstata atualmente, necessária quando há alguma alteração, de acordo com a Prefeitura. O procedimento é agendado pelo setor de Alta Complexidade, localizado no PAM Marechal (térreo).
Humberto ressalta que é fundamental fazer também o exame de toque: “O PSA tem um valor normal de até 2,5 e, acima disso, o paciente é orientado a procurar o urologista. Mas a gente sabe que as pessoas podem ter PSA alto, acima de 10, e não ter câncer, ser uma doença benigna, pode ter PSA de 1 e ter o câncer”. Cerca de 18 a 20% dos cânceres de próstata são detectados pelo exame físico.
O tabu ainda existe?
O urologista acredita que o tabu mudou muito nos últimos anos: “Eu diria que os homens, sim, estão cada vez mais conscientes. A família é importante para isso, a mídia. (…) E essa é a prevenção secundária. A prevenção primária é orientar as pessoas em relação à dieta com menos gordura animal, fazer atividade física, diminuir o alcoolismo, evitar o tabagismo”.
A jornalista Roberta Gray Leal traz uma outra perspectiva. Para obter o mestrado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, fez uma análise de cenas discursivas num posto de campanha de prevenção ao câncer de próstata, em 2023.
“Ao contrário de nós, mulheres, que geralmente vamos sozinhas ao ginecologista ou, no máximo, acompanhadas por uma pessoa de confiança, os homens participavam das campanhas num esquema de ‘broderagem’, num clima festivo, permeado pelos chistes (enunciados carregados de duplo sentido com o intuito de causar risos). Aquilo me fazia interrogar: se era uma avaliação de riscos, qual era a graça?”, explica a motivação para o estudo.
“Sábado tem mais! Eu volto!” ,“ficou traumatizado!”, “fila do abate”, “aquela sua fama acaba hoje” e “vai levar até buquê de flor pro médico” foram alguns dos chistes capturados por ela durante a execução das campanhas.
“O tabu ainda existe, isso é fato”, conclui. “Do contrário, não estaríamos falando sobre a presença chistosa nas campanhas de prevenção ao câncer de próstata – os chistes são a prova de que discursos seculares que permeiam esses tabus ainda se encontram por aí, à espreita, aguardando oportunidades de inserção, como ocorre nas campanhas.”
Ela acredita que a principal falha das campanhas, do ponto de vista discursivo, esteja no “reducionismo do homem à sua próstata”: “Para que seja cumprida a integralidade da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, é necessário mais do que a instituição de um mês, no caso o mês de novembro, para que homens procurem os postos de saúde”.
A pesquisadora não vê efeito real nas políticas públicas de determinar dia, semana e mês para a conscientização se, no dia a dia, o tema não é discutido. Inclusive, alguns dos entrevistados por ela criticaram o fato de as campanhas serem realizadas num curto espaço de tempo: “Nessa campanha, foi uma coisa rápida, corrida, parece que… (respiração audível) que eu fiquei sem entender porquê que eu tava levando toque”.
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