Juiz de Fora é referência no tratamento de hanseníase; Brasil é o 2º país com mais diagnósticos
Campanha ‘Janeiro Roxo’ alerta sobre sintomas da doença e informa sobre o tratamento gratuito via SUS
A cada mês, Micheli Aparecida, de 40 anos, percorre quase 300 quilômetros até Juiz de Fora para dar continuidade ao tratamento de hanseníase. Moradora de Liberdade, no Sul de Minas, ela foi diagnosticada há dois anos e é atendida no ambulatório especializado do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). Referência para a macrorregião Sudeste de Minas Gerais, o serviço recebe pacientes de Juiz de Fora e outros 94 municípios.
O último mês foi marcado pelo Janeiro Roxo, voltado à conscientização sobre a hanseníase. Em Juiz de Fora, a campanha anual se materializa por meio do trabalho multidisciplinar realizado no ambulatório especializado do HU-UFJF. Os atendimentos são realizados às quartas-feiras, durante a manhã. A Tribuna esteve na unidade e acompanhou um dia na rotina dos pacientes.
Micheli iniciou o tratamento há dois anos, após notar manchas na pele e buscar atendimento em sua cidade. A dermatologista que a avaliou a encaminhou ao ambulatório do HU. O diagnóstico, embora cercado de incertezas iniciais, é o primeiro passo para interromper uma cadeia de transmissão que coloca o Brasil em segundo lugar no ranking mundial em número de casos da doença, ficando atrás apenas da Índia.

Origem e transmissão da hanseníase

A origem geográfica da hanseníase ainda é debatida por especialistas. Há quem diga que foi no continente africano, outros no asiático; no entanto, o que se sabe é que ela é conhecida há mais de quatro mil anos com registros na Índia, na China, no Japão e no Egito. No decorrer dos séculos, de forma imprecisa, a hanseníase foi agrupada com outras dermatoses, como a psoríase e a escabiose, sob a designação de lepra, um termo que carregava um estigma de “impureza”.
No Brasil, esse cenário começou a mudar na década de 1980, com o fechamento de alguns dos hospitais-colônia e o fim da internação compulsória. O esforço para humanizar o tratamento culminou na Lei 9.010, de 1995, que proibiu o uso do termo “lepra” e seus derivados em documentos oficiais.

Hoje, a doença é de notificação compulsória e investigação obrigatória, sendo tratada como um problema de saúde pública. Apesar da carga histórica, a ciência desmistifica o contágio. De acordo com a dermatologista responsável pelo ambulatório de hanseníase do HU-UFJF, Annair do Valle, a doença é causada por um bacilo do gênero Mycobacterium, o mesmo gênero do bacilo causador da tuberculose.
Esse bacilo exige um convívio íntimo para ser transmitido. “É uma doença de ‘cama e mesa’. Você não pega hanseníase apenas cumprimentando ou abraçando; é necessário um convívio contínuo no ambiente domiciliar ou de trabalho”, explica a médica.
A transmissão ocorre pelas vias aéreas superiores – sendo rara a contaminação através do contato com lesões -, e o período de incubação dura em média cinco anos, podendo passar de dez. Durante esse tempo, a pessoa pode transmitir o bacilo sem saber que está doente. No entanto, o estigma e a necessidade de isolamento, comuns no passado, ficaram para trás. “A partir de 15 dias de tratamento, o paciente já não transmite mais a doença e pode seguir sua vida normalmente”, destaca Annair.
O desafio do diagnóstico
A identificação da doença no HU é feita por meio de um exame físico rigoroso. Diferente do pensamento popular, a hanseníase não causa apenas a ausência total de sensibilidade, mas uma sensibilidade alterada.
“O médico busca áreas sem pelos, que não suam e que apresentam formigamentos ou perda de força. É uma sensibilidade diferente da habitual”, detalha a dermatologista. Em casos específicos, utiliza-se a biópsia (exame histopatológico) para confirmar a presença dos Bacilos Álcool Ácido Resistentes (BAAR).
Para o exame físico, é utilizado o estesiômetro, um instrumento criado para a avaliação da sensibilidade. O aparelho é composto por seis monofilamentos de nylon de diferentes diâmetros que são usados para mensurar a sensibilidade ao toque.
Existem duas formas principais da doença que definem o tempo de cuidado: a paucibacilar, com tratamento inicial de seis meses (seis a nove doses), e a multibacilar (como a forma Virchowiana, a mais grave), que exige um ano de acompanhamento inicial (12 a 16 doses). Em Juiz de Fora, além do HU, o tratamento gratuito via antibióticos está disponível na Maternidade Therezinha de Jesus (HMTJ) e no PAM Marechal.
Resistência e abandono
Embora 90% da população tenha resistência natural à bactéria, os dados do Ministério da Saúde acendem o alerta: apenas em 2024, o Brasil registrou mais de 23 mil novos casos. Deste total, 921 em menores de 15 anos. Em Minas Gerais, a incidência no mesmo período foi de cerca de seis casos para cada 100 mil habitantes, ficando em 19º no ranking nacional que tem Mato Grosso com 121,83 casos a cada 100 mil habitantes, seguido por Tocantins com 57,76 e Maranhão com 28,34 nas primeiras posições.
Além do número de diagnósticos, a taxa de abandono do tratamento também preocupa: em 2024, no Brasil, cerca de 7,3% dos pacientes interrompem os cuidados antes da cura. “Quanto mais bacilos o paciente tem, mais difícil é eliminá-los se o tratamento não for seguido à risca. O diagnóstico precoce é fundamental para evitar o estágio final da doença, onde surgem feridas e deformidades irreversíveis”, alerta Annair.

A bactéria também pode causar lesões neurais, principal fator para o desenvolvimento de deficiências físicas e, consequentemente, para a manutenção do preconceito contra os pacientes.
Embora a medicação, uma combinação de antibióticos fornecida gratuitamente no ambulatório e que deve ser tomada diariamente, seja o pilar da cura física, o tratamento no HU-UFJF se estende para o suporte funcional e psicossocial por meio da equipe multidisciplinar, coordenada pelos preceptores e fisioterapeutas Priscila Montero e Bruno Leonardo.
Depois da consulta com a dermatologista, os pacientes passam por uma triagem detalhada. “Avaliamos a função muscular, a sensibilidade e as necessidades de cada indivíduo. Temos residentes de fisioterapia, farmácia, serviço social, psicologia, educação física e enfermagem”, explica Priscila. Segundo Bruno, o foco é a prevenção de incapacidades. “Fazemos escalas e questionários para avaliar danos em olhos, mãos e pés, direcionando o paciente para o profissional específico conforme a demanda.”
A presença da farmácia clínica é estratégica para combater a estatística de abandono. A residente de farmácia acompanha a entrega da medicação e orienta sobre os possíveis efeitos colaterais, garantindo que o paciente compreenda a importância de não interromper as doses. Esse amparo é o que mantém pacientes como Micheli motivados.
Acolhimento diminui distâncias
Para Micheli, que sai de Liberdade às 4h20 da manhã e enfrenta cinco horas de estrada no carro da prefeitura, o tratamento vai além do remédio. “É um atendimento a mais. As meninas são super legais, sempre perguntam o que estou sentindo. Ter esse amparo maior é bem melhor, eu gostei muito”, relata a dona de casa, que hoje “tira de letra” o tratamento.
O medo inicial do preconceito, que ela sentiu logo após o diagnóstico, foi substituído pela confiança no processo. No ambulatório, Micheli e outros pacientes não são apenas um número nas estatísticas, eles fazem parte de um processo de cuidado que se estende, inclusive, após a alta medicamentosa, com a finalidade de garantir a reabilitação completa.
Onde buscar ajuda
Em Juiz de Fora, após o diagnóstico, que deve ser realizado por médico capacitado, o paciente pode realizar o tratamento e a retirada das medicações pelo SUS nas unidades de saúde:
- Ambulatório de Hanseníase do HU-UFJF– Av. Eugênio do Nascimento, s/n – Dom Bosco
- Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus (HMTJ) – Rua Dr. Dirceu de Andrade 33, São Mateus
- PAM-Marechal – Rua Marechal Deodoro 496, Centro