Transferência inédita de muriquis-do-norte, maior primata das Américas, busca preservação da espécie em Minas

Ação do Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB) e parceiros transferiu animais do município de Peçanha para o distrito de Conceição do Ibitipoca para estimular reprodução 


Por Nayara Zanetti

11/04/2026 às 06h00

muriquis do norte arquivo MIBIEFIBAMAIBITI PROJETO
(Foto: Arquivo MIB/IEF/IBAMA/Ibiti Projeto)

Maior primata das Américas, o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) é uma das espécies mais ameaçadas de extinção no país. Com poucas populações restantes na natureza, a preservação do animal, endêmico da Mata Atlântica, depende cada vez mais de iniciativas de conservação. Na tentativa de mudar esse cenário, uma ação inédita, promovida por instituições ambientais e de pesquisa, transferiu um grupo misto de muriquis do município de Peçanha, no Vale do Rio Doce, às matas do distrito de Conceição do Ibitipoca, na Zona da Mata mineira. 

A operação, realizada entre os dias 13 e 24 de março, mobilizou uma força-tarefa de pesquisadores, veterinários e agentes ambientais. Ao todo, quatro indivíduos — duas fêmeas e dois machos — já foram capturados e levados para a nova área, localizada no Ibiti Projeto, onde passam por um processo de aclimatação antes da soltura definitiva. Outros animais ainda devem ser transferidos nas próximas etapas, com a expectativa de formar uma população de até 15 indivíduos. 

A iniciativa do Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB) contou com o apoio do Instituto Estadual de Florestas (IEF), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Universidade Federal de Viçosa (UFV), e o Ibiti Projeto, além da Polícia Militar de Meio Ambiente (PMMA). 

Iniciativa aposta na reprodução para salvar espécie 

À frente da ação está o biólogo e professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Fabiano Melo, que também atua como conselheiro do Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB). Com mais de três décadas dedicadas ao estudo da espécie, ele acompanha de perto a transformação de um cenário que, há poucos anos, parecia irreversível. 

O especialista explica que hoje as populações de muriquis são muito pequenas e isoladas, por isso, se não houver intervenções, esses grupos tendem a desaparecer. Atualmente, o Brasil abriga cerca de 1.136 indivíduos, e apenas 12 populações são conhecidas no mundo inteiro.  Além da perda de habitat e da caça, doenças como a febre amarela e os efeitos das mudanças climáticas têm contribuído para a redução do número da espécie na natureza. 

A estratégia adotada representa um avanço importante no manejo da espécie e foi considerada inédita por ser a primeira a translocar machos e fêmeas em um mesmo grupo. Até então, ações semelhantes envolviam a transferência de indivíduos isolados ou resgates pontuais, o que limitava as chances de reprodução e crescimento populacional. 

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(Foto: Arquivo MIB/IEF/IBAMA/Ibiti Projeto)

A dinâmica de reprodução dos muriquis-do-norte está diretamente ligada ao deslocamento das fêmeas. São elas que deixam o grupo onde nasceram para se integrar a outro, garantindo o fluxo genético da espécie. Quando há apenas um grupo em uma área de mata, esse movimento deixa de acontecer. Assim, sem a migração das fêmeas, a troca genética é interrompida e, com o tempo, a população tende a diminuir até desaparecer. 

Foi exatamente o que ocorreu em Peçanha. Isolados em um fragmento de mata de cerca de 500 hectares — remanescente de Reserva Legal em propriedades particulares —, os muriquis perderam, pouco a pouco, as condições necessárias para se manter. A presença da espécie na região é conhecida desde a década de 1970. 

“O grupo de Peçanha sozinho estava diminuindo, tanto que vimos a população cair de 15 para nove indivíduos. Já o grupo de Ibitipoca sozinho também não vai conseguir crescer se não trouxermos mais animais. Foi isso que motivou a retirada dos indivíduos de Peçanha para Ibitipoca”, explica Melo.  

De acordo com o professor,  Ibitipoca foi escolhida por contar com uma área particular de mata protegida, o Ibiti Projeto, com mais de 3 mil hectares de floresta, ao lado do Parque Estadual do Ibitipoca, capaz de abrigar os dois grupos e garantir condições favoráveis para a reprodução. 

Desde 2019, o MIB e o Ibiti Projeto desenvolvem o “Muriqui House”, uma iniciativa que reúne oito indivíduos em uma área de mata cercada, sob cuidados humanos, com o objetivo de promover a adaptação, a reprodução e, posteriormente, a reintrodução dos animais na natureza. 

Agora, com a nova etapa de translocação, a proposta é ampliar esse trabalho e formar grupos distintos em uma área maior de floresta. A expectativa é que, com isso, as fêmeas possam migrar entre os grupos, garantindo o fluxo genético e favorecendo a reprodução. 

Desafios da transferência e adaptação ao novo ambiente 

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(Foto: Arquivo MIB/IEF/IBAMA/Ibiti Projeto)

Antes da captura, equipes passaram dias monitorando os animais na mata, identificando seus deslocamentos e definindo estratégias. No momento da abordagem, veterinários utilizaram dardos anestésicos para sedar os muriquis com segurança. Em seguida, os indivíduos foram capturados, acomodados em macas e submetidos a uma série de exames clínicos ainda no local. 

Após a avaliação, o transporte teve início, com o apoio da aeronave Pégasus 10, da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), reduzindo o tempo de deslocamento e o estresse dos animais. Segundo o coordenador da ação, um dos maiores desafios foi a chuva intensa, que dificultou o momento da captura. Uma nova translocação está prevista para buscar os animais restantes em Peçanha. 

Já em Ibitipoca, os muriquis seguem em um processo conhecido como “soltura branda”. Em recintos de mata cercada, eles se adaptam ao novo ambiente, reconhecem alimentos e retomam comportamentos essenciais para a sobrevivência. 

Somente depois dessa fase, eles serão reinseridos na mata aberta. Com o auxílio de colares de GPS, drones e monitoramento em campo, os pesquisadores acompanharão cada passo dos animais por pelo menos 18 meses. 

Em relação a adaptação desse grupo com os animais que ali já vivem, o professor explica que a espécie é conhecida pelo comportamento pacífico, e raramente entram em conflito direto. Em vez disso, utilizam vocalizações para se comunicar e sinalizar a presença a outros indivíduos, evitando confrontos. Esse comportamento facilita a convivência e aumenta as chances de uma aproximação natural ao longo do tempo.

“É um projeto longo, complexo, mas necessário. E, acima de tudo, é um esforço para garantir que essa espécie continue existindo”, afirma Melo.