
O poeta tinha o desejo de dividir com os leitores os fragmentos de sua própria existência. Suas leituras, afetos, dores e amores. Logo, fez poesia. Transformou em versos reflexões intimistas, existencialistas e sociais. Escritos nascidos ao longo de sua jornada. “‘Meus cacos para o teu mosaico’ é um livro que nasceu do desejo de partilha. É um convite para percebermos que a vida é uma colagem contínua e que a poesia tem o poder de dar beleza e sentido a cada um desses pedaços. Os temas são universais e, por isso, o leitor facilmente se conectará com os versos”, conta J.R. Amorim, destacando que a metáfora dos cacos, anunciada no título, também está presente na diversidade formal das criações. “O público encontrará poemas em versos livres, brancos, metrificados, construções mais longas ou minimalistas.”
Publicado pela Caravana Editorial, com revisão e prefácio da escritora Elizabeth Sacchetto, o livro será lançado na próxima sexta-feira (29), das 19h às 21h, no Espaço AICE (segundo piso do Mercado Municipal de Juiz de Fora), com sessão de autógrafos, bate-papo com o autor, sarau poético e apresentações musicais de Marcela Seixas e João Paulo.
J.R. Amorim é pós-graduado em Literatura Infantil e Juvenil e autor de cinco títulos voltados para esse público. Já “Meus cacos para o teu mosaico” é a segunda obra totalmente dedicada ao gênero lírico. Além disso, ele é membro da Academia Juiz-Forana de Letras (AJL) e da Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas, tendo participado de diversas antologias de contos, crônicas e poemas.
“Nunca me apartei da poesia. Acredito que a literatura infantil e juvenil e a poesia brotam da mesma fonte: o encantamento, o olhar atento ao detalhe e a busca pela essência da palavra. Meus cinco livros anteriores, voltados para o público infantil, me ensinaram a lapidar o texto, a buscar a síntese e a sensibilidade, além de me fazerem descobrir o ritmo e o sabor das palavras. Publicar uma obra predominantemente para adultos não é um rompimento com essa trajetória, mas um desdobramento natural dela.”
Marisa Loures — O título do livro é bastante imagético. O que representam esses “cacos” e esse “mosaico” presentes na obra?
J.R. Amorim — Os “cacos” representam as nossas frações diárias, as nossas vivências: uma memória de infância, uma indignação social, uma perda, um instante de amor, um questionamento ante a finitude da vida, um fato que nos marcou ou um livro que nos emocionou. Em um dos poemas, escrevo que a vida não é uma reta, mas que tem curvas e lombadas. Nós não somos lineares ou inteiros o tempo todo; somos feitos de pedaços de experiências que assimilamos. Já o “mosaico” é o retrato onde estão reunidas essas vivências. Quando ofereço os meus “cacos” (as minhas vivências em forma de poemas), a intenção é que o leitor os integre ao seu próprio mosaico, reconstruindo sua visão de mundo. No caso específico do livro, o mosaico só se completa quando ocorre esse encontro entre quem escreve e quem lê.
— Você afirma que os poemas foram escritos em diferentes momentos da sua vida. Houve um trabalho posterior para criar unidade entre textos produzidos em tempos tão distintos?
— Escrever em épocas diferentes traz o risco da fragmentação excessiva, mas o próprio conceito do livro justificou essa diversidade. A unidade da obra não está no tempo cronológico em que os poemas foram produzidos, mas no fio condutor que os une, baseado na premissa de Todorov de que “somos feitos do que os outros nos dão, primeiro nossos pais, depois os que nos cercam”. O trabalho posterior foi o de organizar esses textos de forma que o leitor sinta, em alguns momentos, o ritmo de uma costura, onde um poema abre caminho para o próximo, transformando a distância temporal em um diálogo contínuo. Em outros momentos, existe intencionalmente a ruptura, para revelar não a ilusão de uma perfeição, mas os cacos reais que foram colados.
— O livro dialoga com uma reflexão de Tzvetan Todorov sobre sermos formados pelo outro. Como essa ideia atravessa sua escrita poética?
— A frase de Todorov de que “somos feitos do que os outros nos dão” é o alicerce deste livro. Tenho plena consciência de que minha identidade é um mosaico construído pelas pessoas que cruzaram meu caminho e pelos autores que li. Minha escrita poética é inteiramente atravessada por essa alteridade: eu escrevo porque fui tocado pelo outro, e escrevo para tocar o outro. A poesia, sob essa perspectiva, deixa de ser um ato isolado do autor e passa a ser um ato de comunhão, de pura partilha. É a literatura ampliando infinitamente a nossa capacidade de troca e de enriquecimento humano, exatamente como sugere Todorov.
— E há uma imagem muito forte no release: a de transformar dores e dissabores em beleza. Você acredita que a poesia ainda preserva hoje uma função de elaboração da experiência humana?
— Sim, eu acredito sinceramente nisso. Penso que atualmente, mais do que nunca, essa função é vital. Vivemos em uma época marcada pela velocidade e pela superficialidade, onde as dores da alma muitas vezes não são acolhidas ou tratadas adequadamente. A poesia funciona como uma pausa necessária para a digestão da alma. Ela permite a catarse, permite pegar o que está quebrado por dentro, os dissabores, as perdas e as frustrações, e colocar sob a luz da estética. Transformar a dor em beleza não significa romantizar o sofrimento, mas dar a ele um novo significado, permitindo-nos elaborar melhor o que vivenciamos. Assim, saímos do processo um pouco mais inteiros.
— Seus poemas transitam entre o intimista, o existencial e o social. Como esses três aspectos se articulam dentro da obra?
Entendo que os três são indissociáveis na nossa vida. O intimista olha para dentro, para as miudezas da memória afetiva. O existencial amplia esse olhar para as grandes questões da vida, do tempo, da finitude e do destino. E o social nos lembra de que não vivemos isolados. Somos parte de uma comunidade e não podemos ficar indiferentes às fraturas do mundo ao nosso redor. No livro, esses aspectos se cruzam o tempo todo: o meu sofrimento íntimo muitas vezes é o reflexo de uma angústia existencial ou de uma injustiça social. O mosaico só é real se contiver todas essas nuances.
— O lançamento contará com sarau e música ao vivo. A oralidade e a escuta do poema têm um papel importante na maneira como você pensa a poesia?
Com certeza! A poesia nasceu para ser cantada e dita em voz alta. Ela tem uma raiz ancestral intrinsecamente ligada ao ritmo e à comunidade. Como membro da Academia Juiz-Forana de Letras e da Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas, eu acredito muito na força da voz coletiva. Trazer a música de Marcela Seixas e João Paulo e reunir vários poetas amigos no Espaço AICE, no Mercado Municipal, é uma forma de materializar o conceito do livro. O lançamento não será apenas uma noite de autógrafos fria, mas uma celebração viva e coletiva, onde os cacos poéticos de cada um de nós vão se juntar no calor da voz e da música, criando um mosaico inesquecível ali mesmo, na hora. Um momento que será, sem dúvida, muito especial.

