
“O povo-povo, povão, era grosso, inconveniente, detestável”. A definição é de João Antônio, conhecida voz da imprensa brasileira no gênero conto-reportagem. Ele se interessava, sobretudo, pela gente comum, sentencia o escritor Marcelo Moutinho, que tomou emprestadas as palavras do jornalista paulistano para a epígrafe de “Gentinha” (Record), livro de contos que acaba de chegar às livrarias após seis anos sem lançamentos do autor carioca no gênero. O título da nova publicação é ambíguo e até incômodo, mas o que suas páginas fazem mesmo é complexificar não apenas as vidas que por lá transitam, mas o próprio sentido da palavra que as tenta nomear.
“Quase todos os personagens se enquadrariam naquilo que certos círculos da elite econômica, e alguns setores da elite cultural, qualificariam como ‘gentinha’, veriam como ‘cafonas’ ou ‘grosseiros’. E, contudo, essa ‘gentinha’ é que, majoritariamente, move a economia do país”, afirma Moutinho, antes de indagar: “Quem seria, enfim, ‘gentinha’? Aqueles que costumam chamar de “gentinha”? Aqueles que os chamam? Ou, como observa o Geovani Martins na quarta capa, ‘gentinha’, no fundo, somos todos nós?”.
Dividido em duas partes, “Dentro é um mundo” e “A verdade não rima”, o livro é composto por 16 narrativas, atravessadas por músicas que ora se apresentam como tema, ora como título de um conto ou como canção que embala a trama de um protagonista. Nesses textos, encontram-se histórias inventadas, isto é, nascidas da imaginação do autor. E, mesmo nesse universo de ficção, evidencia-se o olhar de Moutinho para o cotidiano, traço de sua escrita. “A experiência mais radical de um ficcionista é a da fabulação. Viver, por meio dos personagens, vidas que não são a dele.”
Vencedor do Prêmio Jabuti de 2022 com o livro de crônica “A lua na caixa d’água”, Marcelo Moutinho é jornalista e um nome de relevo nos gêneros conto e crônica. Entre os títulos publicados também estão “Ferrugem” (Record), “O último dia da infância” (Malê) e “Na dobra do dia” (Rocco).
Marisa Loures – “Gentinha” marca seu retorno ao conto depois de seis anos. Como você apresentaria o livro ao leitor e o que, nele, você diria que não se parece com o que você já vinha fazendo?
Marcelo Moutinho – “Gentinha” é um livro que dialoga com meus dois trabalhos anteriores no gênero conto (“Rua de dentro” e “Ferrugem”), mas que traz também algumas mudanças. Talvez a mais significativa delas seja a presença muito mais forte do humor. A obra é dividida em duas unidades. Na primeira delas, estão os contos mais intimistas, mais ligados à experiência da casa e da vida em família. A segunda reúne histórias ambientadas no espaço coletivo. Nas ruas, em bares, lojas, ou em lugares que não são exatamente a casa dos personagens. Essas duas partes se complementam.
O título “Gentinha” é ambíguo e até incômodo. Ele pode soar pejorativo, mas o livro parece justamente complexificar essas vidas. Que efeito você quis produzir ao escolher essa palavra?
O título nasce da epígrafe, que tirei de um livro do grande João Antônio. Em sua obra, ele se interessava sobretudo pelo “povo, povão”, como dizia. E a ideia de intitular meu livro de “Gentinha”, além de uma evocação a um escritor que admiro, teve a intenção de tensionar o sentido dessa palavra. Quase todos os personagens se enquadrariam naquilo que certos círculos da elite econômica, e também alguns setores da elite cultural, qualificariam como “gentinha”, veriam como “cafonas” ou “grosseiros”. E, contudo, essa “gentinha” é que, majoritariamente, move a economia do país. Em síntese, minha intenção foi complexificar um pouco a semântica. Quem seria, enfim, “gentinha”? Aqueles que costumam chamar de “gentinha”? Aqueles que os chamam? Ou, como observa o Geovani Martins na quarta capa, “gentinha”, no fundo, somos todos nós?
No conto “Amarelinha”, a questão dos saquinhos de doces e balas de São Cosme e Damião não deixa, mesmo de forma sutil, de tocar no ponto da intolerância religiosa. Na minha leitura, percebo que há uma forma ali de despertar o leitor para esse tipo de tema. O conto busca apenas retratar essas camadas de preconceito ou provocar no leitor um incômodo capaz de levá-lo à reflexão crítica?
Sim, a história foca, essencialmente, a questão da intolerância religiosa. É um problema que têm ganhado dimensões preocupantes no Brasil e atinge principalmente, embora não só, as religiões de matriz africana. No Rio, onde vivo, há relatos de pais que proíbem os filhos de pegar doce no dia de Cosme e Damião. Algumas escolas de samba vêm encontrando dificuldade para montar suas alas de baianas porque, na visão intransigente de alguns setores da sociedade, a figura da baiana estaria ligada à macumba. Mas o conto tem, também, outras camadas. Fala da vida suburbana, de conflitos familiares, de certa hipocrisia no próprio trato com a fé. Como ficcionista, não faço da literatura um libelo panfletário a favor ou contra o que quer que seja. Nem acho que a literatura de ficção tenha esse papel. Mas provocar incômodo, sim. Acredito que o incômodo é que pode levar à reflexão crítica.
A música atravessa vários contos, funcionando quase como um dispositivo narrativo. Qual é o papel dessas referências? Elas operam mais como memória afetiva ou como estrutura de composição?
A música é quase um personagem em “Gentinha”. Isso se mostra na própria estrutura interna. As duas unidades do livro têm, como títulos, títulos de canções. “Dentro é um mundo”, da primeira, vem de “Tanta saudade”, parceria de Djavan e Chico Buarque. “A verdade não rima”, que nomeia a segunda, é um verso de “Onze fitas”, de Fátima Guedes. E a presença da música se espraia pelos contos. Em “Sentimental eu sou”, o protagonista é um grande fã de Altemar Dutra. “Fogueira” foi inspirado em “Genipapo absoluto”, de Caetano Veloso. Em “Dança da vassoura”, são as canções do Menudo que embalam a festa em que a trama se desenrola. “Da janela, o horizonte”, título do conto que fecha o livro, foi tirado de um sucesso de Roberto Carlos. E Jorge Ben Jor é um dos personagens de “Eu sou seu lírio, você é minha rosa”. “Gentinha” inclusive tem uma playlist, que está no Spotify.
No texto “Conto de Natal”, eu percebo uma crítica social evidente no trecho sobre “Papai Noel preto”. A meu ver, ele escancara uma contradição, em que aponta que o símbolo natalino é branco, europeu, padronizado, e isso não dialoga com a realidade brasileira. Assim, ele acerta na denúncia do racismo estrutural, expondo um Natal como importação cultural. A presença desse elemento no conto tem a intenção de denúncia social ou de expor como o racismo se manifesta de forma naturalizada no cotidiano?
Como ficcionista, o que interessa, primordialmente, é contar uma boa história. Sem estrangulá-la em uma direção específica ou me fechar na intenção persuasiva. Sei que há, hoje, uma literatura de viés didático e reiterativo, que oferece ao leitor o que ele já espera receber, sem susto algum. Ou procura convencê-lo da tese X ou Y. A minha perspectiva vai em outro sentido. Acredito num leitor autônomo, empoderado. A partir de sua experiência pessoal, ele vai ler o livro e ter sua própria interpretação, tirar as próprias conclusões. Não me cabe usar a ficção como mero caminho para o convencimento de alguém. Prefiro trazer perguntas a respostas. Dito isso, penso que as marcas da sociedade brasileira, as boas e as más, povoam os 16 contos de “Gentinha”. Entre eles, o “Conto de Natal”, que fala de pobreza, de desejos, de linguagem, de família, e também de racismo.
Você afirma que o livro vai “na contramão da febre autoficcional”. Há algo que te incomoda ou te limita na autoficção hoje?
Não. A autoficção é uma possibilidade para o escritor, como qualquer outra. Mas não se deve limitar a literatura a um subgênero. Há uma ideia equivocada de que aquilo que foi “baseado em fatos reais” é superior ao que foi inventado. A experiência mais radical de um ficcionista é a da fabulação. Viver, por meio dos personagens, vidas que não são a dele. “Eu, um outro”, como disse Rimbaud.
Em nossa conversa de 2021, quando lançou “A lua na caixa d’água”, você falava de um interesse pelas pequenezas do cotidiano, por esses ritos quase imperceptíveis. Em “Gentinha”, essas mesmas cenas reaparecem, mas agora mediadas pela ficção. O que muda, para você, quando essas miudezas deixam de ser crônica e passam a ser invenção?
Em 2026, completam-se 25 anos que publiquei meu primeiro livro. Creio que, pelo menos nos últimos 15 anos, meu foco seja a chamada “gente comum” e a assombrosa riqueza que se esconde sob o que é aparentemente cotidiano e ordinário. Há certa coerência aí. Mas são campos formais distintos. Na crônica, as histórias surgem a partir da observação. Da caminhada pelas ruas da cidade, com os ouvidos bem abertos. Já os contos demandam um esforço maior de imaginação. É preciso, ainda que a partir de fragmentos da realidade, fabular. E, depois de esboçada a trama, buscar o registro mais adequado para narrá-la.
Você fala da ficção como espaço de fabulação, de invenção de mundos distantes da própria experiência. Em um momento em que a literatura parece cada vez mais autorreferente, qual é, para você, a potência política ou ética de inventar?
A experiência da alteridade. Quando conseguimos olhar pelos olhos de outro, ainda que um outro ficcional, acabamos colocando a nós mesmos, nossas certezas, nossos dogmas, nossos afetos, em perspectiva.

